Endometriose: o mal que eu e 190 milhões de pessoas temos

Estou há dias tentando concluir este texto. Eis que a endometriose apareceu —ou seus tentáculos— e a coluna foi adiada. Tudo precisa ser deixado para depois quando a dor nos acomete. Até lá, continuamos a saga da vida: trabalho, estudo, cuidados com quem precisa da gente.

Desde a adolescência busco encontrar as razões para minha pele acneica. Ensaiei o autocuidado para além do skincare por muitos anos seguidos, mas somente em 2024 fui a uma nutróloga. A pele é a grande comunicadora do que existe dentro de nós. Fiz um check-up minucioso e o exame C125 mostrou uma alteração considerável que poderia indicar endometriose. Nada deve ser lido de maneira isolada, mas acompanhado por outras investigações médicas e clínicas.

Endometriose? Mas nem tenho tantas dores, pensei. Não me via na descrição dos sintomas. Ou não queria me ver. Entrei em um período de negação. Demorei um ano para procurar uma ginecologista especializada e, finalmente, realizar a ressonância magnética com preparo intestinal. É o pior exame que já fiz na vida. Porém, foi o que me ajudou a ter mais certeza das suspeitas da doença.

“A endometriose é uma doença inflamatória crônica. Consiste na implantação de células do endométrio — camada interna do útero— na parte externa do útero. Esses implantes podem estar nos ligamentos do útero, ligamento útero-sacro, paramétrio, vias uterinas, ovário, bexiga e reto”, explica a ginecologista Isabela Barboza.

Segundo o exame, minha doença não é profunda e, portanto, não exige cirurgia neste momento. “O principal sintoma é a cólica menstrual incapacitante —que impede de fazer as atividades. Muitas vezes, há a normalização da dor e uma desvalorização da queixa da mulher. O quanto a gente precisa suportar uma dor para entender que aquilo não é normal? Por isso, o diagnóstico demora tanto a ser feito”, explica Barboza.

E o exame de toque, que —pasmem!— nunca nenhum ginecologista havia realizado em mim, poderia ter identificado a doença mais precocemente. Exija isso em sua consulta. No dia em que peguei o resultado, senti alívio. Agora, tinha nome o que sentia e um caminho: mudar meus hábitos de vida, que não garantem 100% de melhora, mas amenizam os sintomas.

Isabela explica que a endometriose pode vir de uma predisposição genética, mas o estilo de vida influencia na gravidade da doença. “Uma dieta super inflamatória —composta por ultraprocessados, rica em carboidratos, muita carne vermelha, açúcar e industrializados— pode ter uma inflamação maior na pelve e na endometriose. Uma paciente sedentária também desenvolve um quadro de dor mais acentuado. O tratamento clínico principal é adequar a dieta da paciente com dieta anti-inflamatória, trazendo ‘comida de verdade’, com verduras, legumes, saladas, pouco açúcar, pouca farinha (branca), atividade física diária e cuidar da qualidade do sono”, indica a médica.

Desde janeiro, cortei o açúcar da dieta. Faço atividade física de maneira regular. É a tentativa de autocuidado que tem funcionado para mim neste momento —dentro das minhas possibilidades, inclusive financeiras. Escolhi não tomar anticoncepcional por enquanto e a ginecologista acolheu minha decisão. Talvez, mude de ideia. Muitas mulheres diminuem os sintomas desse modo.

A endometriose prejudica a qualidade de vida da paciente porque a cólica aparece todos os meses, podendo se tornar uma dor crônica —uma dor pélvica intermitente que pode piorar por atividade física, estresse ou relação sexual. A dor pode irradiar para as costas, para a região sacral, além de gerar desconfortos intestinais ou urinários, como sangramento nas fezes, ou a sensação de que a bexiga está sempre cheia. Outros sintomas menos óbvios são: fadiga constante, enxaqueca e dor articular.

“Há prejuízos emocionais, pois, ao não ter uma resposta, a pessoa se sente incapaz, mais fraca, não consegue produzir como os outros, porque tem dor. Isso pode ter um impacto direto na fertilidade e na vida reprodutiva, além de dor para ter relação sexual. Tudo isso impacta emocionalmente e de forma negativa a vida dessa pessoa”, explica a ginecologista.

Em meio ao processo de cuidar de mim, tenho conversado com muitas mulheres. Uma delas é a artista visual, arquiteta e fotógrafa Marcella Benita Maksoud, que transformou anos de dor em arte. “Comecei a menstruar com 13 anos e fui descobrir a endometriose e operar aos 26. Eu realmente sentia todos os sintomas desde o começo das minhas menstruações”, conta.

Suas obras, que ficaram na Exposição Visível Agora, mostram a dolorosa trajetória atravessada para descobrir e conviver com a doença. Órfã de mãe desde os 11, Marcela vivia em uma casa bastante masculina, onde não havia total compreensão de sua dor. “A dor é muito naturalizada. Fui a médicos diferentes e ninguém nunca me falou sobre endometriose. Diziam que eu devia aprender a tomar remédio antes de sentir dor”.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), uma em cada dez mulheres no mundo tem endometriose, o equivalente a 190 milhões de pessoas em idade reprodutiva. Estima-se que, no Brasil, cerca de 8 milhões convivem com a doença.

“Comecei a duvidar das minhas próprias sensações, dos meus próprios sentimentos e a pensar se era a única no mundo que não dava conta de ser mulher, porque isso significava passar por tudo e não reclamar”, conta Marcela, que encontrou na terapia um jeito de lidar com a dor e transformá-la em arte.

“Senti que, ao me expor, as outras mulheres também sentiram coragem de falar comigo sobre o que elas sentiam. Isso não é uma vergonha, não está no nosso controle, porque eu pensava o que eu estou fazendo de errado para ter isso? Será que eu como errado? São meus hábitos? A gente se culpa. Pensa: eu que errei, que não me cuidei”, conta a artista.

A fala de Marcela me lembra que, muitas vezes, fui a carrasca de mim mesmo. Perfeccionista, workaholic e preocupada em resolver rapidamente questões pessoais, familiares e profissionais. Culpo e cobro a mim mesma com frequência quando não consigo o resultado esperado. Inclusive agora, na tentativa de me cuidar. Sou a maior megera de mim mesma. E já faço terapia há mais de nove anos. Então, todos esses manuais que unem “faça isso” com “faça aquilo” eu já tentei. Não funcionam. Cada corpo é um e cada realidade também.

Como uma doença crônica, mesmo a cirurgia não garante uma cura definitiva. Simbolicamente, é uma doença que exige um olhar enorme para dentro da gente mesmo. Um olhar generoso que, principalmente as mulheres, muitas vezes não conseguem ter. Estamos sempre cuidando do outro, respeitando os limites do outro, e tentando organizar tudo. Mas quando a gente consegue respeitar os nossos?

O meu cotidiano não é tão difícil quanto o de minhas amigas com filhos. O cotidiano de quem utiliza transporte público, feito eu, é mais difícil do que aquele de quem mora perto de tudo que precisa —152 mil moradores de SP levam mais de 2 horas até o trabalho, mostrou um estudo do IBGE.

Até consigo mudar alguns hábitos de vida, me exercitar, mas o estresse do dia a dia está colado a desigualdades sociais, raciais e de gênero que marcam e aprofundam toda doença. Não nos esqueçamos disso antes de lançar mais manuais de como curar a acne, a endometriose ou qualquer outra doença que nos atravesse. Como combater doenças que são também resultados de falta de políticas públicas que organizam minimamente nossas vidas?

noticia por : UOL

segunda-feira, 10, agosto , 2026 07:19
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