“A guerra no Irã é a guerra de Trump”, segundo Ross Douthat, do New York Times. Sim, no sentido secundário de que Trump intuiu a possibilidade de colocar sua assinatura sobre um triunfo histórico. Mas, no sentido estratégico, é a guerra de Netanyahu.
A lógica, confirmada por uma inconfidência de Marco Rubio, diz que a decisão partiu de Israel –e os EUA seguiram o aliado menor. A destruição do Estado judeu forma o DNA do Estado iraniano erguido a partir da revolução de 1979. Para Israel, derrubar o regime teocrático é um objetivo nacional. Mas, para os EUA, o ataque total é apenas uma guerra de escolha, mal disfarçada pelas falsas alegações de Trump sobre um suposto risco iminente à segurança americana.
“Israel First”, não “America First”. Ali Larijani, que hoje comanda o regime iraniano, enfatizou a fonte da decisão fatal a fim de fomentar tensões entre o Maga e o presidente americano. O Maga, movimento neonacionalista e isolacionista, opõe-se às “guerras sem fim” denunciadas por Trump na campanha eleitoral e acusa a elite política americana de submissão às conveniências israelenses. Hoje, curiosamente, a acusação volta-se contra Trump, líder do Maga.
Conta-se que a eliminação de Khamenei decorreu de uma brilhante operação conjunta de inteligência dos EUA e Israel. Esquece-se, porém, o papel desempenhado pelo próprio Khamenei na trama. O Líder Supremo preferiu permanecer no seu escritório habitual, recusando a alternativa de esconder-se no bunker fortificado que o protegeu durante os bombardeios de junho passado. A opção consciente pelo martírio destinou-se a reacender a chama da revolução xiita.
O Irã não é uma Venezuela deslocada para o Golfo Pérsico. A teocracia enraiza-se no solo profundo da ideologia religiosa. Distingue-se radicalmente da ditadura cleptocrática caribenha organizada ao redor de Maduro. Na guerra contra o Iraque, entre 1980 e 1988, ondas de combatentes fanáticos iranianos sacrificavam-se avançando sobre as baterias do inimigo. Khamenei martirizou-se para reativar a fogueira apagada, empurrando o regime iraniano a um combate ilimitado.
As forças armadas chinesas movem-se no campo de batalha das redes sociais. Numa postagem quase poética dedicada às “lições” do ataque ao Irã, anotaram o “mais cruel dos paradoxos”: a “ilusão da vitória”. Sábias palavras. Nessa guerra ilegal, os EUA perdem sempre, após a inevitável vitória militar.
Trump clamou por mudança de regime, mas logo recuou a objetivos menores, de modo a poder cantar vitória em qualquer hipótese. Um cenário é a emergência de um regime debilitado e isolado, com deslizamento do poder rumo à Guarda Revolucionária, que restauraria aos poucos a tradicional política de confrontação. Custo: a implosão do que resta das leis internacionais, descortinando um horizonte de sequências de guerras de agressão.
Democracias não nascem de bombardeios aéreos. Há indícios de que a CIA arma forças curdas para uma investida contra o regime. Não se deve descartar um cenário de tipo sírio, iraquiano ou líbio, com a fragmentação do Irã em potentados regionais, milícias vorazes e grupos terroristas. A derrubada do governo de Mossadegh, no golpe de Estado de 1953 articulado por Washington e Londres, figura entre as sementes da tomada do poder pelos aiatolás, em 1979. Ilusão da vitória.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL


