Há cerca de 15 anos, o ecologista George Olah, da Universidade Nacional Australiana, coletava amostras de sangue e penas de araras na Amazônia para sua tese de doutorado. Frequentemente ele também explorava os sítios arqueológicos ao longo da costa do norte do Peru, onde o clima era seco e sem floresta.
Um dia, em um museu a centenas de quilômetros de seu local de estudo, ele avistou penas de arara guardadas dentro da reconstrução de uma tumba antiga. Ficou intrigado. “É tudo deserto. É do outro lado dos Andes. Não há floresta tropical lá”, disse ele.
Como as penas foram parar ali?
A pergunta levou a um projeto paralelo que durou anos. Em um estudo publicado na última segunda-feira (11) na revista Nature Communications, Olah e seus colegas concluíram que espécies de arara e papagaio vivas eram comercializadas por toda a extensão dos Andes por causa de sua plumagem. As penas que Olah viu, originalmente recuperadas de uma tumba datada de 600 a 1.000 anos atrás, apontam para uma complexa rede comercial anterior ao Império Inca.
“Esse é um daqueles artigos que vai se tornar um clássico moderno”, afirmou o antropólogo Rich George, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, que não participou da pesquisa. “Estou um pouco com inveja, para ser honesto. É um ótimo artigo.”
Para as culturas antigas do litoral peruano, penas de arara tinham alto valor. Suas cores, que variavam do vermelho vivo ao azul profundo, representavam status de elite e poder. Nas últimas décadas, muitos artefatos com penas surgiram de tumbas antigas, levantando questões sobre de quais espécies elas vieram e se as aves foram levadas vivas para o litoral.
As penas teriam exigido pouca manutenção se tivessem sido simplesmente arrancadas e comercializadas como mercadorias. Mas aves vivas capturadas na floresta teriam precisado de comida, água e proteção durante a jornada. Esse deslocamento e comércio provavelmente dependiam de uma vasta rede de operações através dos Andes.
Para refazer a jornada, Olah e seus colegas estudaram pelo menos três fardos funerários de uma tumba antiga que pertencia à cultura Ichma, uma sociedade que habitou a costa central do Peru entre os anos 1000 e 1470, antes do surgimento dos incas. Esses fardos eram frequentemente acompanhados de cocares coloridos e ricos em penas.
Os cientistas começaram extraindo DNA antigo de 25 penas para identificar as espécies de aves. Em seguida, compararam os resultados com amostras de penas modernas, incluindo algumas que Olah coletou durante seu trabalho de campo na floresta amazônica.
Eles identificaram quatro espécies nativas da Amazônia: a ara-canga (Ara macao), a arara-vermelha (A. chloropterus), a arara-canindé (A. ararauna) e o papagaio-moleiro (Amazona farinosa). Essas espécies eram geneticamente diversas, sugerindo que as aves foram capturadas na natureza.
A dieta das araras modernas é rica em plantas da floresta tropical. Mas análises químicas das penas antigas revelaram uma alimentação baseada em plantas que prosperam em ambientes quentes e ensolarados, possivelmente milho.
As araras renovam suas penas por meio de um processo natural que pode levar até um ano. Os resultados do estudo sugerem que as aves antigas, capturadas e transportadas através dos Andes até o litoral, provavelmente foram mantidas em cativeiro por tempo suficiente para desenvolver novas penas, alimentando-se de uma dieta completamente diferente.
Essas penas eram parte de práticas rituais sagradas e artefatos muito valorizados. Uma ave viva que pudesse produzi-las ano após ano seria imensamente valiosa, segundo o antropólogo José Capriles, da Universidade Estadual da Pensilvânia (Estados Unidos), que não participou da pesquisa. “Um pássaro é como a proverbial galinha dos ovos de ouro. Mas, em vez de botar ovos de ouro, ele simplesmente produz penas.”
Após realizarem a análise de DNA e química, os cientistas usaram uma modelagem para entender como as aves eram transportadas. Eles estudaram a topografia da região, seus sistemas fluviais, centros arqueológicos conhecidos e entrepostos comerciais contemporâneos aos ichmas, e então calcularam quais rotas poderiam ter sido menos custosas para transportar aves das terras baixas amazônicas até o litoral.
Duas rotas principais se destacaram como possibilidades; ambas coincidiam com caminhos comerciais muito percorridos para os quais os cientistas têm evidências arqueológicas. Uma passava pelo norte; a segunda seguia um caminho mais direto, pelo centro. A cultura Ichma também deve ter dependido de intermediários para obter e comercializar as aves.
Olah viu a pesquisa como uma extensão de seu trabalho paralelo sobre o comércio moderno, ilegal e altamente lucrativo de animais silvestres. “Isso mostra o fascínio por essas aves que são muito inteligentes, coloridas e frequentemente barulhentas”, disse ele.
“Esse fascínio não é algo relevante apenas para os tempos modernos, mas na verdade remonta a muito tempo atrás.”
noticia por : UOL


