Michael Jordan na camisa da seleção brasileira escancara a mercantilização da amarelinha

Para além do apelo estético bastante duvidoso, a nova camisa reserva da seleção brasileira, tradicionalmente em tom azul, reacendeu uma (velha) discussão sobre identidade nacional e a influência do mercado.

O novo uniforme foi lançado no último dia 12 de março, em evento que contou com a presença de Ronaldinho Gaúcho. Na camisa, do lado direito do peito, à mesma altura do escudo da Confederação Brasileira de Futebol, está a marca do ídolo americano Michael Jordan. É o símbolo chamado de “Jumpman”, uma referência aos saltos do ainda hoje maior jogador de basquete de todos os tempos (há quem sustente que é LeBron James, mas essa é outra polêmica).

Imediatamente, houve forte reação de torcedores e da imprensa especializada. Em especial, por causa da influência estrangeira e pela mercantilização da farda do escrete canarinho. A reação é compreensível. Mas, faz sentido? Ou é apenas o mais recente capítulo de um processo que transformou a seleção em produto global já há muitos anos? 

O incômodo não é só estético 

A nova camisa reserva da seleção brasileira foi lançada pela CBF em parceria com a Jordan Brand, marca da NIKE Inc., ligada ao ex-jogador de basquete. Segundo a própria Nike, trata-se da primeira vez que o Jumpman aparece no uniforme de uma federação nacional de futebol. A estreia está prevista para o amistoso contra a França, em 26 de março, em Boston.

Isso ajuda a entender por que a discussão explodiu tão rápido. O problema, para muita gente, não é apenas a camisa ser feia, estranha ou excessivamente “fashion”. O que incomoda é a mensagem que ela carrega.  

No peito da seleção brasileira, um dos símbolos esportivos mais reconhecíveis do mundo, aparece agora a assinatura visual de uma marca associada ao basquete americano, ao streetwear e à cultura global de celebridades. Um deslocamento simbólico que, compreensivelmente, não podia passar sem reação. 

Jordan não tem nada a ver com o Brasil 

Michael Jordan é um ícone global do esporte, da publicidade e da cultura pop. Mas isso não significa que ele tenha vínculo orgânico com o imaginário do brasileiro médio da mesma forma que nomes, símbolos e referências do próprio futebol nacional.  

Para a maior parte do público brasileiro, especialmente aquele que se relaciona com a seleção por memória afetiva e identidade cultural, a camisa do Brasil remete antes a Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Neymar do que a um astro da NBA.  
 
Jordan pode ser universal como marca, mas não é espontaneamente brasileiro como referência emocional. Sua presença no uniforme não nasce da tradição popular da seleção, e sim de uma estratégia internacional de branding desenhada para ampliar mercado, desejo e circulação global do produto. 

O vídeo de apresentação da camisa, aliás, é constrangedor. A nova camisa da seleção não está sendo apresentada como uniforme do futebol brasileiro, mas como uma peça subordinada ao imaginário de Michael Jordan. A campanha exagera na presença do astro do basquete e empurra a seleção para um papel quase secundário dentro da própria propaganda.  

Em vez de a camisa exaltar a história do futebol brasileiro, ela parece se apoiar numa referência estrangeira, com direito à frase “O que é grandeza? São 5 estrelas, são 6 anéis”, aproximando os cinco títulos mundiais do Brasil dos seis títulos da NBA de Jordan. 

A reação da torcida faz sentido 

A camisa da seleção é um elemento da identidade nacional e o símbolo-maior de um Brasil vencedor. A camisa atravessou Pelé, o tricampeonato, o tetra, o penta e boa parte do imaginário popular do país. É natural o estranhamento quando esse símbolo passa a dialogar de maneira tão explícita com referências externas ao futebol brasileiro, como o universo da NBA e dos esportes americanos.

Não se trata de xenofobia estética nem de purismo excessivo. Mas de reconhecer que certos símbolos nacionais continuam sendo percebidos como a cultura do país. E, quando um patrimônio emocional parece falar mais a linguagem do branding global do que a da própria tradição que o consagrou, a resistência era previsível.

O problema não é só o Jordan 

A nova parceria não compreende apenas uma camisa. A Nike apresentou o lançamento como um encontro entre “duas culturas de grandeza” e incluiu, junto com o uniforme, uma coleção de streetwear, calçados e peças casuais.  

O kit traz ainda a estampa “Elephant Print”, criada para o Air Jordan 3, em 1988, uma das versões do tênis inspirado pelo astro. Não é apenas uma peça esportiva, mas um pacote completo de marca, estilo e consumo. 

É aí que a crítica ganha força. O torcedor não reage apenas ao Jumpman como desenho. O Jumpman representa a seleção brasileira sendo reposicionada mais como uma plataforma global de lifestyle do que como um time de futebol. 

A “estrangeirização” existe — mas ela não começou agora 

Falar em “estrangeirização” não significa dizer que a seleção deixou de ser brasileira. Significa reconhecer que ela passou a ser gerida como marca global, capaz de circular entre mercados, linguagens visuais e referências culturais que vão muito além do futebol nacional. 

Essa mudança acompanha a transformação do próprio futebol em indústria. Estudos acadêmicos sobre o tema já descreviam há anos a crescente mercantilização do esporte.  

A própria CBF apresentou em 2019, com a Ernst & Young, um relatório segundo o qual a cadeia produtiva do futebol representava 0,72% do PIB brasileiro, com impacto estimado em R$ 52,9 bilhões.  

O futebol deixou há muito tempo de ser apenas paixão popular. Ele também é negócio pesado ou, como preferem os entendidos do ramo, é tudo “soccer business”.  

O mercado já estava na seleção em 1970 

Um dos sinais mais claros dessa transformação aparece ainda na Copa do Mundo de 1970. Há mais de meio século, Pelé, o maior jogador de futebol da história, já era tratado como garoto propaganda de uma marca internacional e ativo central na disputa por mercados.   

No tricampeonato no México, o camisa 10 fez questão de utilizar, e exibir, as chuteiras da sua patrocinadora de material particular. O Rei fez quatro gols no Mundial usando um calçado da marca alemã Puma, enquanto todos os outros companheiros de time detinham um acerto com outra fornecedora germânica, a Adidas.    

Ou seja, o ídolo já servia ali, há 55 anos, como um espaço de valor comercial.  

Há, ainda, outra história famosa sobre esse momento, que sugere que Pelé teria parado para amarrar as chuteiras diante das câmeras como uma jogada publicitária. Até hoje, há quem garanta ser verdadeira, e quem diga que o golpe de marketing de guerrilha é pura lenda. E como o Rei não está mais entre nós…  

A camisa como estandarte comercial 

Se em 1970 a publicidade ainda se concentrava no astro, nos anos 1980 ela avançou para o próprio uniforme da seleção. A Topper passou a patrocinar a equipe brasileira nas Copas de 1982 e em 1986 o logo da empresa argentina pintou pela primeira vez no fardamento nacional em um Mundial. E em 1990, ainda era a Topper.   

Esse passo foi simbólico e decisivo. A camisa continuava sendo emblema nacional, mas passava a funcionar também como espaço de exposição comercial e instrumento de construção de marca. O que se vendia ali já não era só desempenho esportivo. Vendia-se também a associação simbólica com o time mais prestigiado do planeta. 

A explosão com a Nike 

A grande virada veio em 1996, quando começou a parceria entre CBF e Nike. Foi aí que a seleção brasileira entrou de vez numa engrenagem multinacional de branding, distribuição e licenciamento. Da terra do marketing esportivo, a empresa americana alçou a exploração do valor da marca “Brasil” a outro patamar. 

A mudança foi tão drástica que esse contrato virou até objeto de escrutínio em Brasília, em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Havia suspeitas de que a Nike poderia influenciar na escolha de adversários, locais de amistosos e, até mesmo, na escalação do escrete canarinho.   

As investigações não chegaram a nenhuma conclusão especialmente relevante. Mas, ao menos, a ação dos parlamentares deixou alguns episódios de vergonha alheia. Como quando um deputado perguntou ao jogador Ronaldo Fenômeno, convocado a depor, sobre quem deveria ter marcado Zidane na final do Mundial de 1998 (o carequinha francês fez dois gols na decisão, vencida pelos donos da casa por 3×0).  

De toda sorte, com a Nike o fardamento do Brasil virou um ativo comercial ainda mais sensível e poderoso.  

Pacote comercial completo 

Nos anos 2000 e 2010, o negócio deixou de se concentrar só na camisa e passou a engolir o entorno inteiro da equipe. A seleção brasileira passou a assinar contratos multimilionários com empresas capazes de explorar as mais diferentes facetas do que se convencionou chamar de “soccer business”.  

Como, por exemplo, a marcação exclusiva de amistosos da seleção, a exploração comercial das partidas, a venda de bilheteria e a negociação de direitos de TV no exterior. Mais do que nunca, o time nacional virou um produto. E altamente rentável.  

A camisa, entretanto, seguiu como o aspecto mais visível, mas desde então de uma engrenagem muito maior. Em 2014, o uniforme verde e amarelo era avaliado em US$ 1,6 bilhão para a Nike. 

Talvez essa seja a melhor síntese do problema. A camisa da seleção não perdeu seu valor simbólico. Ao contrário, foi justamente por causa dele que se tornou tão valiosa comercialmente. A expressão ainda não era tão corrente na época como nos dias atuais, mas tudo relacionado ao futebol brasileiro, a começar por seus símbolos, passou a ser “monetizado”.   

Camisas de US$ 100 milhões por ano 

A renovação do vínculo entre CBF e Nike, anunciada em dezembro de 2024, deixa claro o estágio atual desse processo. O acordo foi prorrogado até 2038 por US$ 100 milhões por ano, agora com royalties sobre a venda das camisas, além da possibilidade de licenciamento de produtos e abertura de lojas da seleção no exterior. 

O detalhe dos royalties é especialmente revelador. Agora, a própria CBF participa de maneira mais direta da cadeia global de consumo da camisa brasileira. Em outras palavras, o símbolo nacional passou a ser administrado de modo ainda mais assumido como propriedade comercial. 

O Jumpman é só mais uma ideia 

É por isso que a polêmica atual precisa ser lida com algum cuidado. Sim, a reação do torcedor é legítima. Sim, faz sentido resistir quando um símbolo nacional parece falar com sotaque de marca estrangeira.  

Mas também é preciso reconhecer que essa mercantilização não nasceu agora. Ela vem de longe. Passou por Pelé e Puma, pela Topper, pela globalização da Nike, pela venda estruturada de amistosos e chega hoje à fase dos royalties, do licenciamento e das lojas pelo mundo afora. 

O Jumpman de Michael Jordan não criou o problema. Só o escancarou. O que antes ficava mais escondido nos contratos, nos bastidores do marketing esportivo e nas planilhas de licenciamento agora aparece estampado no peito da camisa mais importante do futebol mundial.  

VEJA TAMBÉM:

noticia por : Gazeta do Povo

terça-feira, 17, março , 2026 09:32
Mais previsões: Tempo 25 dias