O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu, nesta quarta (18), reduzir a Selic em apenas 0,25 ponto percentual (de 15% para 14,75%), ritmo menor do que o esperado em janeiro, com a expectativa de uma queda de 0,5 ponto percentual. O Brasil continua com uma das maiores taxas de juros reais do mundo.
A cautela foi justificada pelo cenário internacional incerto e pela potencial pressão inflacionária decorrente da guerra no Oriente Médio. A intensificação dos conflitos nas últimas semanas levou ao aumento do preço do petróleo acima de US$ 100 por barril e gerou mais incertezas quanto ao rumo da inflação brasileira. Mas será que a manutenção da Selic em um patamar tão elevado é a melhor resposta?
A política monetária brasileira funciona de acordo com o chamado regime de metas de inflação. Nesse sistema, o Banco Central estabelece a taxa básica de juros da economia, a Selic, com o objetivo de manter a inflação no centro da meta. De acordo com os fundamentos, as pressões de demanda são a principal causa da inflação. Isso significa que, sempre que a demanda supera a oferta, espera-se que os preços aumentem.
Assim, a manutenção de altas taxas de juros torna o crédito caro e, ao mesmo tempo, adia as decisões de consumo das pessoas, que tendem a optar pela poupança.
O efeito esperado é a contração da atividade econômica, acompanhada pelo aumento do desemprego, pelo desaquecimento da demanda e por menos pressão nos preços.
O conflito no Oriente Médio, contudo, impacta a inflação pelo mecanismo dos custos de produção, e não pelo de excesso de demanda. Por um lado, a guerra provoca um aumento dos preços dos combustíveis, elevando o custo de produção em vários setores, especialmente os dependentes de transporte e logística.
Por outro lado, a guinada de um conflito internacional aumenta a incerteza global, levando investidores a buscar riscos menores. A posição periférica do Brasil na hierarquia de moedas provoca uma fuga de capitais, gerando uma depreciação cambial. O câmbio também é um fator relevante para os custos, uma vez que determina os preços de diversos insumos e máquinas importados necessários à produção.
E como os juros podem afetar essa inflação de custos? Em relação ao primeiro mecanismo —o dos preços dos combustíveis—, a manutenção de juros altos tem pouco a contribuir para frear a inflação, já que ela decorre de um choque nos preços definidos internacionalmente. Já no segundo, a manutenção de juros altos pode frear a saída de capitais, ao oferecer uma remuneração elevada, atenuando, assim, o efeito do câmbio sobre a inflação.
O problema aqui é que a persistência de juros elevados gera ônus para a economia. Estes são maiores na medida em que o impacto da taxa de juros sobre a pressão inflacionária não é rápido nem efetivo. Juros altos reduzem o nível de atividade econômica, elevam o desemprego e tendem a provocar efeitos distributivos perversos: aumenta-se a remuneração dos instrumentos de renda fixa que seguem a Selic, e que estão nas mãos dos mais ricos.
Complementarmente, poderíamos pensar em soluções que vão diretamente ao encontro da origem dessa pressão inflacionária. A medida provisória adotada pelo governo na última quinta-feira (12), por exemplo, segue essa lógica. Ao zerar o PIS e a Cofins do óleo diesel e estabelecer o pagamento de subvenção a produtores e importadores, a medida busca atacar diretamente a inflação decorrente do aumento dos custos de combustíveis.
Já para atenuar o efeito inflacionário decorrente do câmbio, o Banco Central poderia recorrer a políticas macroprudenciais. Muito discutidas na literatura, especialmente após a crise de 2008, essas políticas visam reduzir a volatilidade do mercado de capitais por meio de controles de fluxos, requisitos de capitais e outras restrições quantitativas aos balanços das instituições financeiras.
Desse modo, diante de uma inflação que não tem origem nas pressões de demanda, a decisão do Banco Central de manter juros elevados no Brasil impõe custos desnecessários e não representa a melhor estratégia para mitigar as pressões inflacionárias. Alternativas, como medidas fiscais direcionadas e políticas macroprudenciais, oferecem caminhos mais eficientes que atendem à raiz do problema, preservam o crescimento e evitam uma piora distributiva.
noticia por : UOL


