A convicção de que humanos caminharam na Lua entre 1969 e 1972 depende basicamente de em quem ou no que você confia, se no conhecimento acadêmico estruturado ou no senso comum. É o que se depreende, por via indireta, da última pesquisa Datafolha, que sondou a opinião do brasileiro sobre o assunto.
Os resultados revelam que a conexão mais profunda, do ponto de vista demográfico, tem a ver com escolaridade. Há variações correlacionadas a religiosidade e a idade, mas modestas, em comparação. Em resumo, quem estudou por mais tempo tende a acreditar mais que tudo aconteceu conforme reportado nos livros de história e corroborado por toneladas de testemunhos e evidências diretas e indiretas.
A despeito disso, em nenhum grupo esse número chega perto de 100%. Entre os que têm ensino superior completo, apenas 1 em cada 5 (19%) não acredita na realidade das missões Apollo. No outro extremo, para quem tem apenas o ensino fundamental, quase metade (42%) não acredita.
Uma análise de primeira ordem concluiria que a escolaridade, por si só, é a explicação. A pessoa estuda mais, potencialmente tem um alcance científico e cultural mais sofisticado, que a permite avaliar com mais consistência todos os elementos da história a fim de confiar em sua veracidade.
Claro, isso deve mesmo cumprir um papel. Porém, a imensa maioria das pessoas com alta escolaridade não estudou física, astronáutica ou as missões Apollo. O que a pesquisa de fato parece refletir é uma correlação entre o alto nível de escolaridade e uma confiança maior na mediação da realidade oferecida pelo exercício acadêmico.
A pesquisa não permite corroborar essa hipótese, já que não traz detalhes do racional que separa crentes e descrentes. Mas é razoável supor que tenha mais a ver com o fato de acreditarem na boa procedência das evidências (vídeos, fotos, depoimentos) do que em uma análise crítica delas.
Gostemos ou não, a maior parte do que convencionamos chamar de realidade chega a nós de forma mediada –ou seja, por intermédio de terceiros, e não por experiência direta. O que de fato vemos com nossos próprios sentidos é a vida cotidiana, fração qualitativamente importante, mas pequena, diante do universo circundante.
Todo o resto chega até nós por via indireta. Alguém filma o jogo de futebol e o transmite pela TV, um correspondente internacional informa sobre uma guerra distante, um instituto de pesquisa traz sondagens da opinião pública, um órgão governamental apresenta dados da inflação. De todas essas coisas, observamos diretamente apenas consequências distantes, geradas via efeito borboleta –um idiota manda matar o líder supremo de um país, e quando você vê o petróleo dobrou de preço no mundo todo, o que fez a gasolina subir aí no posto da esquina, o único efeito que você observa diretamente de toda a cadeia causal.
As missões Apollo são talvez o maior exemplo dessa experiência indireta da realidade. Ninguém, exceto os próprios astronautas que fizeram a viagem, experimentou diretamente essa realidade. Para todos os outros, dos engenheiros envolvidos no projeto aos que viram tudo que aconteceu décadas depois, passando pelos telespectadores que acompanharam ao vivo as fantasmagóricas imagens transmitidas pela TV, todos nós experimentamos essa realidade indiretamente, de forma mediada.
Claro, há graus de distância. Quem viu o gigantesco Saturn V decolar da costa da Flórida sabe que ao menos o foguete era real e de fato voava; quem trabalhou nas naves e acompanhou da Terra seu desempenho tinha forte motivo para acreditar; quem viu o arquirrival governo soviético reagir ao feito deve ter desconfiado que eles tinham todos os meios para checar a veracidade do fato; quem analisou num laboratório as rochas lunares pôde constatar que vieram de um ambiente estéril, não terrestre; e assim por diante.
Quem consegue compreender a alta improbabilidade de que todas essas pessoas, ao longo de todas essas décadas, estivessem envolvidas em uma conspiração de acobertamento acaba acreditando nas viagens lunares por padrão, sem nem mesmo se debruçar sobre o tema. É simplesmente improvável demais que não tenham acontecido, embora nossa experiência direta com essa realidade seja nula.
Agora, há também aqueles que, não importa o que se diga, vão desconfiar da realidade mediada. Tratarão os vídeos oficiais da Nasa como fonte não confiável, depositando em vez disso sua crença em conteúdos apócrifos de internet com supostas análises e evidências. Ou simplesmente lançarão mão do mais puro senso comum, olhando para cima e julgando impossível que humanos tenham ido até aquela bolinha cinza que aparece no céu.
É um caso em que relações causais entre a realidade mediada e a direta são extremamente difíceis de notar: uma nação decide enviar humanos à Lua e, 50 anos depois, você tem um smartphone no bolso. Quantos vão enxergar a conexão entre uma coisa e outra? Poucos, não importando muito a escolaridade.
A grande diferença é que a turma da alta escolaridade diz acreditar, de uma maneira geral, que aquele conhecimento mediado corresponde à realidade. Respeita as gerações que já fizeram todo o exercício cartesiano de duvidar de tudo, retornar aos alicerces com o “penso, logo existo”, e então reconstruir toda a visão do mundo mediado a partir disso, de forma que pudéssemos herdar conhecimento adquirido e, sobre os ombros de gigantes, enxergarmos mais longe a cada nova geração.
Vivemos uma época em que a noção de que a realidade é mediada ganha contornos dramáticos. Dependendo das fontes, pessoas podem hoje viver em realidades mediadas alternativas as mais diversas, pelos mais diferentes motivos, e em várias delas o homem jamais fora à Lua.
Como o problema não está nos argumentos, mas na questão da credibilidade da mediação, eu a essa altura já desisti de tentar convencer qualquer descrente de que as missões Apollo foram reais.
No dia em que essas pessoas puderem pagar por uma viagem à Lua, transformando-a em realidade não mediada, talvez mudem de ideia.
Até lá, em que você confia?
noticia por : UOL


