Não há possibilidade de que o Brasil tenha uma transição ecológica sem uma transição do sistema agroalimentar. A ideia é defendida pelo diretor-científico do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Arilson Favareto, que afirma que, diante do agravamento da crise climática, é preciso rever o modelo de financiamento ao setor agropecuário.
“Acho absurdo que, num contexto em que tanto se discute equilíbrio fiscal e eficiência do gasto público, não se depurem os gastos com o sistema agroalimentar brasileiro“, afirma, em entrevista à Folha.
Segundo o sociólogo, não se pode imaginar que a produção possa ocorrer da mesma forma que há 50 ou 60 anos. “Na prática, [isso] representa uma transferência de renda da maior parte da sociedade para o setor.”
Para Favareto, a discussão pós-COP30 —cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática realizada em Belém no ano passado— deve priorizar a disputa pelo sentido da transição.
“Há 10, 15 anos, práticas regenerativas eram vistas como conversa de ambientalista; hoje, é palavra de ordem. Algo se moveu no discurso, mas não com a mesma intensidade nas práticas.”
Ele é um dos organizadores do livro “Caminhos para a Transição do Sistema Agroalimentar – Desafios para o Brasil”, lançado em outubro passado. Elaborada em parceria com o pesquisador Ricardo Abramovay, da USP (Universidade de São Paulo), a obra analisa como a monotonia alimentar se tornou predominante no dia a dia.
Como a monotonia alimentar se manifesta no Brasil?
É uma alimentação cada vez mais monótona, baseada em ultraprocessados e menos numa alimentação diversificada, com alimentos in natura ou minimamente processados. Setenta e cinco por cento das calorias vegetais consumidas vêm de apenas seis alimentos: cana, arroz, trigo, soja, milho e batata.
Na produção agropecuária, o traço marcante também é o da monotonia. A maneira de cultivar essas poucas espécies se baseia na monotonia genética, e as tecnologias de cultivo se apoiam na eliminação da diversidade da microbiologia dos solos.
Quais são os impactos socioambientais desse modelo?
Do lado ambiental, temos olhado muito para emissões de gases de efeito estufa. Existe uma correlação direta entre a expansão da agropecuária e o desmatamento, que são as principais fontes das emissões brasileiras. Mas as emissões são só um dos impactos. Para dar alguns exemplos: a erosão da biodiversidade global, [que se reflete na perda de] biodiversidade dos solos das áreas onde se produz. Um outro limite do planeta em níveis críticos é o da disponibilidade de água doce, dos recursos hídricos. Ou seja, não há possibilidade de termos uma transição ecológica sem uma transição do sistema agroalimentar.
E do ponto de vista social, quais são os principais impactos?
O primeiro deles é a consequência para a saúde humana. Temos hoje um número muito expressivo de doenças diretamente relacionadas ao nosso padrão alimentar, como a epidemia global de obesidade, o crescimento de alguns quadros de diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
O segundo é o avanço da fronteira agropecuária sobre áreas onde vivem populações indígenas e comunidades tradicionais, que são afetadas, por exemplo, pelo uso de agrotóxicos. Em 2025, o Brasil bateu o recorde na liberação de agrotóxicos.
Um outro ponto sensível é que, ano após ano, há uma diminuição da população ocupada no campo, apesar do mito de que o agronegócio gera empregos.
E o outro componente é o risco econômico de o Brasil depender cada vez mais de um setor, de um produto e de um mercado. Hoje, quase metade das exportações brasileiras depende do complexo soja e praticamente 8 a cada 10 toneladas de soja vão para a China.
Como apoiar a transição da produção da agricultura familiar?
Parte da agricultura familiar mais inserida em mercados reproduz o modelo produtivo convencional. Precisamos rever isso, fazer um exame crítico e cuidadoso do que alcançamos com os últimos 30 anos de políticas para a agricultura familiar. O Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) é uma política bem-sucedida, mas não necessariamente do ponto de vista ambiental.
Um dos grandes gargalos para uma transição é que não temos uma oferta razoável de assistência técnica e de pesquisa alinhadas com essa ideia. Existe um déficit gigantesco de profissionais capacitados para conciliar produção, produtividade e conservação. Os currículos das universidades não estão atualizados, e os profissionais que saem delas acabam reproduzindo uma visão de inovação que não está necessariamente alinhada com a sustentabilidade.
Não seria o caso de considerar também os impasses da questão fundiária do país?
A questão fundiária é central. Se a gente não resolver isso, trava toda uma agenda de transição séria. O que está sendo feito em relação [à regularização perante] ao Código Florestal precisa ser resolvido. Não estou falando de reforma agrária, mas de resolver o imbróglio fundiário. Isso é básico, elementar e um requisito de eficiência no setor público e no setor privado. E nós ainda não conseguimos fazer isso.
Quais resistências internas do agronegócio dificultam o processo de transição?
A gente não pode tratar o agronegócio como uma coisa só. Existem aqueles que aceitam ajustes de conduta e práticas alinhadas à agenda ambiental, aqueles que só farão isso se tiver rentabilidade, e aqueles que usam a terra como forma de especulação ou de dominação local.
A sociedade brasileira precisa dizer o seguinte: os setores que aceitam ajustar seus comportamentos aos requisitos de um sistema agroalimentar do século 21 têm que ser privilegiados com financiamento, incentivos, infraestrutura etc. Aqueles que transferem para a sociedade o custo de práticas incoerentes com esses requisitos têm que ser penalizados. Essas diferenças internas ao agro precisam ser intensificadas, não aplacadas. Essa unidade se assenta numa equação ruim para a sociedade, mas que tem garantido privilégios ao setor agropecuário. Ele é muito beneficiado.
Como avalia as decisões sobre a transição do sistema agroalimentar na COP30?
O tema ganhou mais espaço, mas não teve a força que gostaríamos. Estamos, entretanto, num momento de virada interessante. Setores do agro estão reconhecendo que a necessidade de ajustes existe. Há 10, 15 anos, falar em práticas regenerativas era visto como conversa de ambientalista. Hoje, agropecuária tropical regenerativa virou a palavra de ordem.
Qual é o risco? Uma apropriação muito rebaixada desse conceito. Algo se moveu no discurso, mas não com a mesma intensidade nas práticas.
Tenho usado a expressão usos fortes e usos fracos da ideia de agropecuária regenerativa. Não é só fazer plantio direto, como tem se dito agora. Faz plantio direto, e depois usa uma grande quantidade de agrotóxicos? Isso não é regenerativo. Ah, mas também usa bioinsumos. Usa bioinsumos, mas defende o desmatamento? Não, isso não é regenerativo. A discussão no pós-COP deve priorizar o sentido da transição.
Raio X | Arilson Favareto, 55
Sociólogo, professor titular da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da USP. É também professor da área de Planejamento Territorial da Universidade Federal do ABC, pesquisador e diretor científico do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), onde criou e dirige a área de sustentabilidade.
noticia por : UOL


