Escutei horas e horas de comentários profundos sobre o mais recente atentado contra Donald Trump. E bastou sentar na cadeira do barbeiro para que uma frase iluminasse o meu dia. “Essa juventude não sabe ficar quieta”, disse ele, em tom melancólico.
Disse bem. Logicamente, quem sabe ficar quieto não arruína a própria vida —e a dos outros— com atos criminosos. Mas, no caso de Cole Tomas Allen, há uma camada adicional de sentido.
No manifesto, o rapaz teria deixado uma frase intrigante para justificar seus atos: “Já não estou disposto a permitir que um pedófilo, violador e traidor manche as minhas mãos com seus crimes”.
Curiosa formulação. O problema, para Cole Tomas Allen, não era a existência de pedófilos, violadores ou traidores no mundo —ou, na visão dele, na Casa Branca.
Era o contágio que isso representava para ele: sua inação era cumplicidade. Era preciso eliminar a fonte do mal para que ele se purificasse moralmente. Não matou por ódio. Matou por higiene.
É o tipo de pensamento típico dos fanáticos. Sim, eles têm uma visão pessimista da condição humana; mas ainda acreditam que, por ação própria, é possível redimir o mundo. Não fazer nada é uma opção intolerável.
Não deveria ser —e o filósofo David E. Cooper explica por quê. Conheci Cooper meses atrás quando li, com prazer, o seu “Pessimism, Quietism and Nature as Refuge” —pessimismo, quietismo e natureza como refúgio. Deveria ser oferecido nas escolas para que a juventude, como diria meu barbeiro, aprendesse a ficar quieta.
O filósofo é um pessimista como eu. A palavra ganhou contornos heréticos na insuportável cultura do “pensamento positivo”.
Um erro. O pessimismo é a decorrência natural de olhar ao redor e concluir que a condição humana não é inspiradora. Os vícios, em geral, superam as virtudes. Sempre foi assim. E é improvável que mude de forma significativa.
Se esse é o diagnóstico mais realista, o que podemos fazer?
Segundo David Cooper, o pessimista tem quatro caminhos possíveis: a amnésia, o niilismo, o ativismo e o quietismo.
A amnésia é uma forma de autoengano: para fugir da verdade, mergulhamos nos prazeres, no trabalho, nos vícios —qualquer coisa que nos afaste dessa sombra de melancolia. Funciona enquanto a ilusão dura. Depois, a queda costuma ser pior.
O niilista transforma o pessimismo em negação —e destruição. Se a humanidade não presta, melhor que desapareça de vez. É o tipo de postura que vemos nos “eco-misantropos”: gente que, para salvar a Terra, preferiria que a espécie humana sumisse.
O ativista é um pessimista que se acredita otimista. Pode ser populista, evangelista, pacifista ou “wokista”. O importante é acreditar que tem a chave para consertar o mundo. O rastro de destruição deixado por esse tipo ao longo do século 20 dispensa comentários.
Quem sobra?
O quietista. Aquele que, aceitando a miséria do mundo, não tenta se enganar nem enganar os outros. Sempre teremos políticos medíocres, familiares difíceis, colegas invejosos. E sempre teremos nossas dores, tristezas, frustrações —e um fim que não se recomenda.
Diante disso tudo, o quietista não tenta redimir a humanidade; no máximo, procura preservar a própria alma praticando o que David Cooper chama de “distanciamento irônico”.
É uma espécie de exílio existencial, em que liberdade, tranquilidade e lazer —as três palavras que Montaigne pintou nas paredes da sua torre— são o horizonte desejado.
Isso não significa indiferença em relação aos outros. Significa apenas reconhecer o próprio tamanho no mundo e cuidar, se possível, do seu jardim e do seu “pequeno pelotão”.
Cole Tomas Allen era um pessimista em relação ao destino dos Estados Unidos. Mas esse pessimismo não o levou à postura humilde de ser um melhor filho, professor, cidadão —usando as armas pacíficas da democracia, como o debate, a persuasão e o voto.
Misturando niilismo e ativismo de forma insana, ele acreditou que o futuro do país estava nas suas mãos.
Não soube ficar quieto, como diria o meu barbeiro. Vai aprender isso agora da pior maneira possível.
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noticia por : UOL


