Claudia Ohana e Priscila Fantin duelam por memória de George Washington

Um mês após a morte de George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos, Martha, a esposa, convida a suposta amante do marido para um encontro que desfaz qualquer protocolo oficial. No Teatro Jaraguá, a montagem dirigida por Darson Ribeiro descarta o realismo histórico para mergulhar em uma estética noir, onde o preto e branco e o jogo de sombras isolam Claudia Ohana e Priscila Fantin em um duelo psicológico. O texto do croata Miro Gavran serve de base para uma investigação sobre a fragilidade dos afetos, conduzida por duas atrizes que transformam o luto em um embate de versões conflitantes sobre o mesmo homem.

Claudia Ohana molda uma Martha Washington que caminha sobre o fio da navalha entre a dignidade institucional e o colapso nervoso. Sua interpretação é construída na base de uma contenção aristocrática, onde o ciúme e o rancor não explodem em gritos, mas vazam por entre os dedos em gestos milimétricos. Ohana explora as camadas de uma mulher que se entende como guardiã de um legado nacional, transformando a cortesia da anfitriã em uma arma de manipulação. A atriz alcança uma profundidade notável ao transitar pela amargura de quem, após décadas de sacrifício público, vê a estrutura de sua vida privada ser desafiada pela presença de uma rival.

Do outro lado, Priscila Fantin assume Sylvia Carver com uma vivacidade singular, funcionando como o estopim que detona a aparente calma de Mount Vernon. Fantin traz para a cena uma vulnerabilidade sem pudores, personificando a mulher que amou à sombra da história e que agora exige ser vista. Sua presença é o contraponto ao rigor gélido da viúva; enquanto Martha protege a estátua do herói, a Sylvia de Fantin busca resgatar o homem de carne e osso, com todas as suas falhas. A química entre as duas é o motor que sustenta a tensão do espetáculo, revelando uma sintonia em que cada provocação lançada por uma encontra na outra uma resposta à altura.

O magnetismo das atuações é amplificado por uma escolha técnica em que a sonoridade da peça emana das vozes das próprias intérpretes, criando uma atmosfera de intimidade quase invasiva. Sob a orientação de Ribeiro, Ohana e Fantin utilizam a prosódia para ditar o ritmo da montagem, fazendo com que o espectador se sinta um confidente de bastidores domésticos que poderiam abalar uma nação. Ao abrir mão de artifícios externos, o espetáculo permite que o talento das atrizes conduza o público por esse labirinto de rivalidade, onde elas disputam a memória de um homem que já não pode se defender.

Três perguntas para…

… Claudia Ohana

Sua Martha Washington é construída sobre uma dignidade gélida que parece estar sempre prestes a trincar. Como foi o processo para encontrar esse ponto exato onde o rancor e a etiqueta aristocrática se encontram, sem deixar que a personagem se torne apenas uma “vilã” traída?

Para mim, a Martha possui uma dureza natural por ser a primeira-dama daquela época e uma aristocrata com muita dignidade. Ela acaba sendo vista como vilã pela sua rigidez, mas, na verdade, é uma mulher que precisa manter as aparências diante de uma traição que, para ela, existiu por muito tempo.

O personagem foi construído junto com o diretor, o Darson, guiado por um texto que sugere essa agressividade. É uma situação desconfortável para ambas as personagens: tanto Martha quanto Silvia são, e não são, vilãs e mocinhas. São duas mulheres fortes que amam o mesmo homem. A Martha acredita ter toda a razão por ser a esposa, mas a Silvia também tem as razões dela.

Martha e Sylvia são opostas, mas compartilham o mesmo “objeto” de afeto. Como foi construir essa sintonia com a Priscila Fantin para que o embate não fosse apenas uma disputa, mas uma descoberta mútua de quem era aquele homem no privado?

Tivemos apenas três semanas de ensaio, então precisamos confiar muito uma na outra. O texto é forte e promove esse duelo, que é também uma descoberta de quem era aquele homem como pessoa, não como o presidente.

A Priscila é uma atriz muito dedicada, honesta e atenta; ela olha no olho e responde a qualquer sinal de mudança ou novo caminho que o tom da cena tome durante o espetáculo. É muito prazeroso, pois são duas mulheres opostas e, ao mesmo tempo, iguais. Tanto que, no final, a peça termina com as duas sentadas no mesmo lugar, muito parecidas.

Embora a peça se passe no século 18, ela toca em feridas muito atuais sobre silenciamento e a construção de mitos. Como você percebe a reação da plateia ao ver essa “desconstrução” dessas figuras em pleno palco?

Acho que a plateia começa esperando uma discussão de época convencional, mas o texto vai surpreendendo e desconstruindo a Martha e o próprio George Washington. Quanto mais se desconstrói um mito, mais o público se identifica, porque um mito nada mais é do que uma pessoa.

Quando humanizamos figuras históricas, mostrando que elas erram e choram, a identificação é imediata. Isso torna o processo muito mais prazeroso para mim e para o público, que se emociona bastante com a peça.

Teatro BDO Jaraguá – rua Martins Fontes, 71 – Consolação, região central. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 19h. Até 17/5. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: Livre. A partir de R$ 75 (meia-entrada) em sympla.com.br


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noticia por : UOL

quinta-feira, 7, maio , 2026 03:51
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