Quando menos se espera, vem um versinho explicar o que é beleza

A graça da “crônica”, pro autor, é isso de meio que só fazer sentido você escrever sobre o que está quente, vivo e ativo na tua cabeça.

Não adianta ficar fazendo listas de assuntos futuros, tentar imaginar o que pode vir a ser relevante. Os temas se impõem. E se impõem meio na base do “porque sim”.

Então deixa eu te pedir licença pra, vez por outra, variar o assunto aqui. Hoje? Um versinho.

Uma vez, numa conversa com a minha filha, por alguma razão (coisa da escola?) ela me pediu pra dizer o que era “beleza”.

Eu, pai nerd, fiquei uns dias pensando, até voltar com uma definição que, só depois, eu descobri que tinha um pedigree mais sólido na filosofia: a beleza —sentenciei, paterno, oracular— é aquilo que você nunca tinha imaginado que pudesse existir e que, quando aparece, muda tudo… Fica pra sempre como marca em você e no teu mundo. Igual amor.

A minha cabeça é de músico, sempre foi. E no fundo eu estava pensando no surgimento de um acorde inesperado, maravilhoso e dali pra frente incontornável, numa peça de Johann Sebastian Bach. Mas essa definição funciona bem direitinho também pra literatura, talvez especialmente pra poesia.

Uma rima surpreendente. A definição repentina de algo que você até ali nunca tinha entendido. Uma imagem, metáfora, símile, alegoria.

Pois bem. E o negócio é que agora, no fim de semana, eu estava ouvindo John Prine, um cantor americano que morreu durante a Covid, com meros 73 anos de idade. Ele escrevia umas letras interessantes, com umas rimas inventivas, curiosas, às vezes forçadas daquele jeito estranho que só quem entende muito do riscado consegue fazer.

Tem toda uma arte nisso de usar com virtuosismo o que na mão de um amador pareceria canhestro, inadequado, que de repente, quando empregado com… Como diremos… Sabedoria? Se transforma numa marca definitiva de controle, consciência e, sempre, humor: humor daquele tipo meio sacana, meio piscadela, meio olha só que troço abusado.

Uma das canções que eu estava ouvindo se chama “That’s the Way the World Goes Round” (É assim que o mundo gira). E, na segunda parte da música, ele de repente solta que estava na banheira, de boas, quando o aquecedor pifa e (surrealmente) toda a água congela, a ponto de o camarada logo depois dizer que estava chorando cubinhos de gelo.

Ou seja, tudo muito divertido, de ouvir com um sorriso no rosto o tempo todo. Nada que fizesse você esperar que o teu mundo fosse se iluminar dali a pouco e você fosse ficar pasmado, boquiaberto.

Porque um dos versos dessa cena, pra descrever o desamparo do sujeito ali na banheira, diz que ele estava “naked as the eyes of a clown”.

Chablau!

Você já tinha pensado nisso? Que, no meio de toda a fantasia, daquele monte de maquiagem, os olhos (íris, pupila, esclerótica) são de fato a única parte “nua” de um palhaço? E que força nessa imagem, gente!

A beleza tem dessas. Quando vem, vem “real e de viés”, como dizia outro desses poetas das canções. Te juro que rolou até uma lagriminha na hora.

E eu pensei em vir aqui deixar uma versão pra você guardar. Um tiquinho espichada pra caber num verso do tipo “martelo agalopado”, justo o que o Caetano (o original) usou na canção “O Quereres“, que eu acabei de aspear ali como quem não quer nada.

Guarda essa. Tomara que te faça abrir um sorriso, isso de poder pensar na voz de um compositor de outros tempos, dentro da nossa cabeça, exposto, vulnerável:

“Todo nu como os olhos de um palhaço”.


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noticia por : UOL

quarta-feira, 3, junho , 2026 09:55
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