PF reforça atuação em portas de entrada de drogas do PCC na Europa, e UE quer mais cooperação

A UE (União Europeia) quer ampliar a cooperação com países da América do Sul no combate ao crime organizado. O continente tem sido um dos principais destinos do tráfico de drogas internacional do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho).

Como parte dessa cooperação, a Polícia Federal brasileira criou neste ano um posto de representação em Bruxelas, sede do bloco, ocupado pelo delegado Guilherme Monseff de Biagi.

A ideia é atuar nas investigações de tráfico nos portos de Antuérpia (Bélgica) e de Roterdã (Holanda), portas de entrada das drogas enviadas pelas facções criminosas a partir dos portos brasileiros, principalmente o de Santos.

A Folha conversou com autoridades europeias sobre o assunto na última semana. Elas avaliam que o combate ao crime organizado na América Latina depende do fortalecimento das instituições estatais, cooperação regional e internacional e da integração entre órgãos de segurança e Justiça.

Em entrevista à Folha, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que o plano é criar novos postos de representação na Holanda, com foco na atuação no porto de Roterdã, além da Suíça e da Alemanha.

“Essa ampliação é parte de um dos pilares de enfrentamento ao crime, de cooperação internacional, prisão de lideranças e [de] retirar poder econômico das facções”, comentou.

Além da atuação no porto da Antuérpia, o delegado em Bruxelas deverá manter contato com autoridades e representantes da União Europeia. “Essa presença física é fundamental para o desenvolvimento de ações”, complementou.

Recentemente, os Estados Unidos classificaram o PCC e o CV como organizações terroristas após reuniões do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro com integrantes do governo Donald Trump.

Embora reservadamente os europeus discordem da mudança de classificação das facções pelo governo americano, a preocupação é crescente com a internacionalização das redes criminosas que atuam na América do Sul e sua presença cada vez mais frequente nas rotas do mercado europeu de cocaína.

As autoridades brasileiras já identificaram a atuação das duas organizações criminosas em cerca de 30 países. Na Europa, o tráfico ocorre tanto por meio direto como por atuação prévia no norte de África.

A cooperação avançou nos últimos anos, mas ainda enfrenta obstáculos operacionais e institucionais, na avaliação de autoridades brasileiras.

O tema ganhou destaque na última cúpula entre a União Europeia e a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), realizada em Santa Marta, na Colômbia, em novembro de 2025. Na ocasião, os dois blocos aprovaram uma declaração sobre segurança voltada ao enfrentamento do narcotráfico, da lavagem de dinheiro e das organizações criminosas.

O fortalecimento da Ameripol (Comunidade de Polícia das Américas) é visto pelos europeus como uma das iniciativas mais relevantes para a atuação conjunta.

A expectativa é que a organização obtenha personalidade jurídica internacional por meio da entrada em vigor do Tratado de Brasília, o que permitiria ampliar o intercâmbio de informações e aprofundar a cooperação com a Europol (Agência da União Europeia para Cooperação Policial). Nessa instituição, policiais brasileiros já estão trabalhando com os pares europeus.

O Tratado de Brasília foi assinado por 14 países, mas ainda depende da ratificação de ao menos três deles para entrar em vigor. Até o momento, apenas o Equador e Chile concluíram o processo.

No Brasil, o processo já tramitou internamente no governo Lula. Segundo o diretor-geral da PF, o texto será enviado em breve ao Congresso para a chancela dos parlamentares.

O recém-assinado acordo entre o Mercosul e a União Europeia prevê, além da questão comercial, cooperação política e institucional, incluindo iniciativas conjuntas em áreas como segurança pública, combate ao crime organizado, tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de pessoas.

A expectativa é que a nova estrutura institucional prevista no acordo facilite a criação de mecanismos permanentes de cooperação regional, complementando programas bilaterais já existentes entre a União Europeia e países do bloco sul-americano.

A proposta é criar canais permanentes de diálogo e coordenação entre os blocos, permitindo o intercâmbio de informações, a aproximação entre autoridades policiais e judiciais e o desenvolvimento de projetos financiados pela Europa.

A visão europeia no combate às organizações criminosas também difere da atuação do governo Trump, de promover ações militares terrestres nos países da região. A intenção é investir nas cooperações entre países, principalmente em ações de inteligência, mas sem operações presenciais, para respeitar a soberania dos países e as normas do direito internacional.

Além dos métodos tradicionais de transporte, como embarcações e contêineres, as autoridades locais afirmam ter observado uma rápida expansão do uso de submarinos pelo narcotráfico. Essas embarcações podem ser construídas em poucas semanas com investimento relativamente baixo, transportando drogas entre continentes.

Um dos exemplos de cooperação e troca de informações foi a Operação Centinela, realizada no âmbito do Clasi (Comitê Latino-Americano de Segurança Interna), mecanismo apoiado pela União Europeia para promover a coordenação entre autoridades de segurança da América Latina e do Caribe.

Realizada em dezembro do ano passado, a operação ocorreu com ações simultâneas contra organizações criminosas, com foco no combate ao tráfico de drogas e ao comércio ilegal de armas.

A operação resultou em 187 prisões, na apreensão de 343 armas de fogo e em mais de 2.200 apreensões relacionadas a drogas.

O jornalista viajou a convite do Serviço de Relações Externas da União Europeia

noticia por : UOL

segunda-feira, 8, junho , 2026 08:25
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