“Frangos frescos, frangos grandes, frangos de Santa Cruz”, repetia sem parar um autofalante colocado, de forma improvisada, no teto de uma van prateada estacionada ao lado da praça San Miguel, na zona sul de La Paz. Dentro do veículo, uma mulher, sentada, recebia o pagamento de pessoas que formavam uma pequena fila, enquanto outra entregava um superfaturado produto aos clientes.
Naquela sexta-feira ensolarada, a Bolívia entrava no seu segundo mês de protestos que pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz, no cargo há pouco mais de sete meses. Por conta dos bloqueios nas estradas do país, La Paz, a sede do governo, vive uma crise de desabastecimento, que elevou substancialmente o preço de alimentos e produtos básicos.
Um frango inteiro, antes vendido por 50 bolivianos, custava, no “açougue móvel”, 110 bolivianos (o equivalente a cerca R$ 80, pelo câmbio oficial). Dentro do veículo, um amontoado de caixas de isopor brancas estavam empilhadas nos bancos dos passageiros.
Do lado de fora, uma pequena montanha de embalagens vazias se acumulava na calçada —vestígios das vendas feitas nas últimas horas. “Nós temos um custo muito maior de transporte, por isso vendemos a esse preço”, afirma a comerciante, que preferiu não dizer o nome.
Quase sem acesso por terra, parte dos alimentos que suprem a cidade agora chegam por ar. Conforme anunciado pelo precário alto-falante, aquele frango vinha de Santa Cruz de la Sierra, no oriente do país. Na cidade, que é a sede do poder econômico boliviano, o produto pode ser encontrado por cerca de 35 bolivianos, uma diferença de mais de 200%.
Além de ter sido uma das regiões menos afetadas pelos bloqueios, o departamento de Santa Cruz responde por 48,7% da produção pecuária do país, segundo o mais recente relatório do IBCE (Instituto Boliviano de Comercio Exterior), atualizado no começo deste mês. Isso ajuda a explicar por que o Aeroporto Internacional Viru Viru se transformou em uma espécie de mercado aéreo.
Nas esteiras de bagagem dos voos domésticos, caixas de isopor vazias circulam entre as malas dos passageiros. Saindo dali, elas são preenchidas com frango, carne bovina e suína comprados a preços locais e embarcam rumo a cidades onde a escassez transformou alimentos básicos em mercadorias de alto valor.
No saguão, souvenirs para turistas passaram a dividir as vitrines das lojas com as caixas brancas de isopor. Para quem desembarcou sem uma delas, há opções de vários tamanhos. “Começamos a vender porque há demanda. Muita gente tem comprado, principalmente a de 50 litros”, diz Vilma Brito, 28, vendedora de uma das lojinhas do aeroporto, onde uma caixa de 50 litros sai por 175 bolivianos e uma de 25 litros por 95 bolivianos (R$ 130 e R$ 70, respectivamente).
Elas também se fazem notar nas filas do check-in, onde, empilhadas sobre os carrinhos de mão, são levadas até o despacho da bagagem. Ali, passageiros compartilham —canetões azul em alguns casos oferecidos por funcionários das próprias companhias aéreas— para que escrevam seus nomes e não façam confusão quando forem retirar a bagagem no destino final.
Para evitar problemas com as empresas, dizem os comerciantes da crise, os produtos viajam congelados, mas sem gelo, para evitar vazamentos.
A jovem Khelen Maita, 21, era uma das passageiras que levavam suas caixas de isopor para o despacho de bagagem na manhã da última quinta-feira (18). Pela segunda vez em duas semanas ela fazia o mesmo trajeto, que tinha La Paz como destino final. “Hoje eu estou levando pra minha família, mas admito que na semana passada eu fiz isso para vender.”
Ela diz que havia comprado 24 frangos por 37 bolivianos cada. Em La Paz, os revendeu por cerca de 100. “Achei que ia conseguir fazer um dinheiro, mas pagou a passagem, as despesas e sobrou só um pouquinho.” Na Boliviana de Aviación, a principal companhia aérea do país, a passagem para a ponte aérea custa, com alguma antecedência, cerca de 1.200 bolivianos (R$ 900).
Nora Alanoca, 54, uma boliviana radicada na Argentina, aproveitou uma longa escala em Santa Cruz para fazer compras para os parentes que iria visitar. Ela havia chegado de ônibus de Buenos Aires na madrugada daquela quinta-feira, acompanhada do marido e da filha. Como o voo para La Paz partiria apenas à noite, usou as horas livres para encher seus isopores.
“Nossos familiares nos pediram, já que íamos passar em Santa Cruz, para levar algumas comidas”, diz. Nas duas caixas que levavam, havia frango, carne, linguiça e embutidos. “Compramos tudo congelado e já colocamos aqui dentro. Acho que aguenta até de noite. O voo para lá é curto.”
Na última semana, a Bolívia registrou menos de 50 bloqueios em estradas. Nas semanas anteriores, havia mais de cem pontos de interdição pelo país.
Na sexta-feira (19), o presidente Rodrigo Paz assinou um acordo com a Confederação dos Trabalhadores da Bolívia (COB), e, no sábado (20) declarou estado de emergência no país. Ao colocar a Bolívia em estado de exceção, ele pode usar forças militares para liberar os bloqueios, por exemplo.
O desabastecimento ainda afeta diferentes regiões do país. Na terça-feira (16), moradores de La Paz passaram a madrugada em uma fila para comprar frango vendido a 18 bolivianos o quilo.
Segundo o governo, os custos operacionais do transporte aéreo foram cobertos pelos Estados Unidos, o que permitiu a comercialização do produto nesse preço. Longas filas se formaram, houve confusão e nem todos conseguiram comprar.
Até mesmo Santa Cruz, que parecia imune ao desabastecimento generalizado, passou a registrar filas quilométricas em postos de gasolina nos últimos dias. “Essa situação por aqui é nova. Ainda não sei como vou fazer quando precisar abastecer. O país está um caos”, afirma Roy, taxista que trabalha no aeroporto da cidade.
noticia por : UOL


