Em mundo saturado por urgências, o futebol resgata o direito à alienação

Como é bom viver alienado pela Copa do Mundo. Desde o dia 11 de junho vivo no torpor anestésico que busco há bastante tempo.

Passivamente, estatelado em meu sofá, não assisto mais ao noticiário. Enquanto me preocupo com a eliminação da Bósnia e Herzegovina, não sei nada sobre questões que até pouco tempo afligiam a humanidade.

Não há guerra da Ucrânia, crime do Vorcaro, escândalo do Banco Master ou eleição polarizada que me tire do marasmo. Não quero saber mais qual banheiro as pessoas trans devem frequentar. Groenlândia, hein? Não foi para a Copa, desconheço. Não tenho mais opinião inteligente sobre o aborto. A Copa é o território ideal da alienação. Nada mais me interessa.

Já percebeu como o mundo do futebol parece um planeta invertido, propício a escapadelas mentais? Nele, as potências mundiais são inexpressivas. China nem se classificou e os Estados Unidos são um modesto time, sobre o qual Trump é incapaz de se gabar. A Rússia, por sua vez, nunca foi lá grande coisa no futebol.

Na Copa, o pequeno Paraguai ganhou da tetracampeã Alemanha. Sorte a nossa! Mesmo se não ganharmos a Copa, continuaremos o único pentacampeão do planeta. Que bênção! É com alívio que atingi este nirvana; não me venha com preocupações mundanas!

Durante muito tempo o futebol foi tratado como alienação das massas. Por décadas, os intelectuais brasileiros sequer se dignaram a estudá-lo a sério, como se fosse algo sem importância no Brasil. De Friedenreich a Leônidas, de Didi a Pelé, nenhum ídolo das massas de nosso futebol despertou interesse nos universitários na época em que atuavam.

Nos anos 1960 e 70, nossos professores, mestres e doutores universitários reproduziam a acusação fácil de que o futebol era o “ópio do povo”, mera alegoria das elites para enganar as massas.

Naquela época, ser acusado de “alienado” era pior que matar a mãe. Significava que você era dominado mentalmente pelo sistema que tanto te explorava. Lembro de um professor de geografia de cursinho, desses militantes em tempo integral, que dizia que o brasileiro deveria ganhar o “troféu hiena”, pois estava sempre rindo, alienado a tudo. A piada é boa, mas o diagnóstico é simplório.

Foi só no final dos anos 1970 que a academia brasileira começou a se interessar pelo futebol. E, para espanto total hoje, uma mulher foi a pioneira. A antropóloga Simoni Lahud Guedes, morta em 2019, defendeu a dissertação de mestrado “O Futebol Brasileiro: Instituição Zero” no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1977.

O trabalho marcou oficialmente o início das pesquisas científicas sobre o esporte no país. Em formato de livro, a obra da professora só foi publicada 46 anos depois da defesa, alguns anos após a morte da antropóloga.

Ainda que fechada nos muros acadêmicos, a obra abriu caminho para que outros intelectuais de peso, como Roberto DaMatta, investigassem o tema, resultando na histórica coletânea literária “Universo do Futebol: Esporte e Sociedade Brasileira”, de 1982, que conta também com participação de Simoni Guedes.

Essas obras pioneiras abriram caminho para se superar a ideia de que o futebol seria mera forma de controle imposto pelo governo da ditadura. Guedes e DaMatta analisaram o futebol não apenas como um jogo, mas como um elemento central de comunicação e organização da sociedade e da identidade cultural nacional.

De lá pra cá, convenhamos, não há um intelectual sério que reduza o futebol ao “ópio do povo”. Mais curioso ainda, a alienação deixou de existir. A digitalização do mundo por meio das redes sociais popularizou o engajamento. Todos temos uma microcausa muito justa. Todos achamos que nosso lugar de fala é fundamental para o resto da sociedade. A revolução não morreu, ela se banalizou na ideia de que todos somos ativos revolucionários de si mesmos.

Como todos têm uma causa justíssima a guiar seu caminho na Terra, ninguém se vê como alienado. Na internet, todos têm uma opinião brilhante para esculhambar e cancelar os discordantes. Todos estão empoderados de sua verdade; não há mais espaço para se alienar.

Justamente por isso é preciso recuperar o poder alienante do futebol. É verdade que, por meio dele, podemos falar da humanidade inteira, da corrupção da Fifa às desigualdades mundiais. Ainda assim, falar apenas de futebol, ou apenas por meio dele, já é uma distração super bem-vinda neste mundo inflado de pautas, questões, escândalos, guerras e polarizações variadas. Viva a alienação do futebol!


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noticia por : UOL

Como é bom viver alienado pela Copa do Mundo. Desde o dia 11 de junho vivo no torpor anestésico que busco há bastante tempo.

Passivamente, estatelado em meu sofá, não assisto mais ao noticiário. Enquanto me preocupo com a eliminação da Bósnia e Herzegovina, não sei nada sobre questões que até pouco tempo afligiam a humanidade.

Não há guerra da Ucrânia, crime do Vorcaro, escândalo do Banco Master ou eleição polarizada que me tire do marasmo. Não quero saber mais qual banheiro as pessoas trans devem frequentar. Groenlândia, hein? Não foi para a Copa, desconheço. Não tenho mais opinião inteligente sobre o aborto. A Copa é o território ideal da alienação. Nada mais me interessa.

Já percebeu como o mundo do futebol parece um planeta invertido, propício a escapadelas mentais? Nele, as potências mundiais são inexpressivas. China nem se classificou e os Estados Unidos são um modesto time, sobre o qual Trump é incapaz de se gabar. A Rússia, por sua vez, nunca foi lá grande coisa no futebol.

Na Copa, o pequeno Paraguai ganhou da tetracampeã Alemanha. Sorte a nossa! Mesmo se não ganharmos a Copa, continuaremos o único pentacampeão do planeta. Que bênção! É com alívio que atingi este nirvana; não me venha com preocupações mundanas!

Durante muito tempo o futebol foi tratado como alienação das massas. Por décadas, os intelectuais brasileiros sequer se dignaram a estudá-lo a sério, como se fosse algo sem importância no Brasil. De Friedenreich a Leônidas, de Didi a Pelé, nenhum ídolo das massas de nosso futebol despertou interesse nos universitários na época em que atuavam.

Nos anos 1960 e 70, nossos professores, mestres e doutores universitários reproduziam a acusação fácil de que o futebol era o “ópio do povo”, mera alegoria das elites para enganar as massas.

Naquela época, ser acusado de “alienado” era pior que matar a mãe. Significava que você era dominado mentalmente pelo sistema que tanto te explorava. Lembro de um professor de geografia de cursinho, desses militantes em tempo integral, que dizia que o brasileiro deveria ganhar o “troféu hiena”, pois estava sempre rindo, alienado a tudo. A piada é boa, mas o diagnóstico é simplório.

Foi só no final dos anos 1970 que a academia brasileira começou a se interessar pelo futebol. E, para espanto total hoje, uma mulher foi a pioneira. A antropóloga Simoni Lahud Guedes, morta em 2019, defendeu a dissertação de mestrado “O Futebol Brasileiro: Instituição Zero” no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1977.

O trabalho marcou oficialmente o início das pesquisas científicas sobre o esporte no país. Em formato de livro, a obra da professora só foi publicada 46 anos depois da defesa, alguns anos após a morte da antropóloga.

Ainda que fechada nos muros acadêmicos, a obra abriu caminho para que outros intelectuais de peso, como Roberto DaMatta, investigassem o tema, resultando na histórica coletânea literária “Universo do Futebol: Esporte e Sociedade Brasileira”, de 1982, que conta também com participação de Simoni Guedes.

Essas obras pioneiras abriram caminho para se superar a ideia de que o futebol seria mera forma de controle imposto pelo governo da ditadura. Guedes e DaMatta analisaram o futebol não apenas como um jogo, mas como um elemento central de comunicação e organização da sociedade e da identidade cultural nacional.

De lá pra cá, convenhamos, não há um intelectual sério que reduza o futebol ao “ópio do povo”. Mais curioso ainda, a alienação deixou de existir. A digitalização do mundo por meio das redes sociais popularizou o engajamento. Todos temos uma microcausa muito justa. Todos achamos que nosso lugar de fala é fundamental para o resto da sociedade. A revolução não morreu, ela se banalizou na ideia de que todos somos ativos revolucionários de si mesmos.

Como todos têm uma causa justíssima a guiar seu caminho na Terra, ninguém se vê como alienado. Na internet, todos têm uma opinião brilhante para esculhambar e cancelar os discordantes. Todos estão empoderados de sua verdade; não há mais espaço para se alienar.

Justamente por isso é preciso recuperar o poder alienante do futebol. É verdade que, por meio dele, podemos falar da humanidade inteira, da corrupção da Fifa às desigualdades mundiais. Ainda assim, falar apenas de futebol, ou apenas por meio dele, já é uma distração super bem-vinda neste mundo inflado de pautas, questões, escândalos, guerras e polarizações variadas. Viva a alienação do futebol!


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