Pode um jornalista entrevistar uma criança em luto? Bianka Carvalho mostra que sim

Qualquer pessoa que tenha navegado pelas redes sociais nesta semana cruzou provavelmente com um vídeo que fez muita gente chorar e acalentou a criança interior de tantos adultos: a garota Antonela, de 8 anos, falando sobre a morte da mãe para a repórter Bianka Carvalho, da Globo em Pernambuco.

O episódio levantou um questionamento: afinal, uma jornalista pode entrevistar uma criança em luto?

A resposta curta é sim. O trabalho da repórter Bianka Carvalho, aliado a pesquisas do campo da comunicação, mostra que essa escuta atenta é, na verdade, uma forma de garantir a agência e a cidadania da criança.

A entrevista que subverteu a lógica da exclusão das vozes das crianças nos espaços de decisão e debate público ocorreu na edição do telejornal NE1 de quinta-feira (16), durante a cobertura da Festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife.

Bianka conversou com a pequena Antonela, que acompanhava a celebração religiosa. Era o sonho da menina aparecer na televisão. Ao ser abordada, não apenas confidenciou esse desejo, mas viu credibilidade naquela adulta. Em um mundo onde as mídias digitais são tão onipresentes, é extremamente simbólico que a criança tenha confiado seus sentimentos a uma jornalista empunhando um microfone tradicional, tendo a certeza de que estava sendo ouvida.

Essa conduta é descrita pelo jornalista Pedro Paz como uma legítima aula de jornalismo. Pesquisador do CRIAS (grupo de pesquisa Criança, Cultura e Sociedade da UFPB) e um dos autores do estudo Minha mãe não morreu. Ela continua viva, mas no meu pensamento”: O luto para crianças e adolescentes em orfandade pela Covid-19, Pedro alerta que o jornalismo frequentemente cai na armadilha de uma proteção que, na prática, atua como controle. “Em um mundo adultocêntrico, legitimar a agência infantil é reconhecer que as crianças habitam, observam e refletem sobre si mesmas e suas relações com mundo”, diz.

O episódio de Bianka e Antonela desconstrói esse silenciamento. Com uma consciência dolorosa de que a mãe está morta e de que quer e precisa viver esse luto, a menina relatou a perda recente. A mãe morreu em maio, antes de a criança fazer aniversário.

“Fiz 8 anos sem a minha mãezinha.” Bianka consolou a garota, validando o sentimento a partir da mesma matriz religiosa que envolvia o evento. Amparada pela fé de sua cultura, a menina afirmou: “Ela está me vendo em todos os lugares. Mesmo não vendo, ela me vê”.

A condução não surpreende vindo de Bianka Carvalho. Jornalista reconhecida por seu olhar sensível e pela linguagem humanizada, possui conexão com o cotidiano da população pernambucana —o que já lhe rendeu até homenagem junto aos bonecos de Olinda. Bianka tem legitimidade pelo trabalho sério, mas também porque se coloca próximo de seu público.

Diante do contexto de programa “ao vivo”, a repórter priorizou o tempo da emoção em detrimento do imediatismo. Em entrevista à GloboNews, explicou que ambas precisaram daquele tempo: “Foi tão impactante, que demorou muito para a ficha cair, e a ficha foi caindo enquanto eu elaborava e ela também elaborava o que estava sentindo”.

No texto “A importância de falar sobre morte com as crianças“, a psicóloga clínica especialista em luto, Ana Lúcia Naletto, explica que ao falarmos sobre o fim com os pequenos, podemos ajudá-los a nomear os sentimentos. “O apoio ao luto não deve ter como objetivo tirar a dor do outro, mas sim ajudá-lo a viver o luto da forma mais saudável possível, criando canais de comunicação, de compreensão e acolhimento, para que a criança possa expressar a raiva, a dúvida ou a dor”, aponta a especialista.

No jornalismo brasileiro, a autorização prévia e expressa dos pais ou responsáveis legais é obrigatória para entrevistar, fotografar ou gravar vídeos de crianças e adolescentes. Essa exigência baseia-se no princípio do melhor interesse e no direito à preservação da identidade e dignidade estabelecidos pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). Com frequência, porém, a imprensa recua ou silencia as vozes infantis sob a justificativa de protegê-las.

As pesquisadoras Thais Furtado e Juliana Doretto apontam, no artigo A ‘invasão’ das crianças no discurso jornalístico: a representação não desejada da infância”, que a representação infantil segue padrões rígidos. Para as autoras, a capacidade infantil de elaborar pensamentos complexos, refletir criticamente e participar de debates é frequentemente negligenciada. A dor e as vivências das crianças são raramente reconhecidas como legítimas, consolidando um modelo em que apenas os adultos detêm a prerrogativa de validar emoções e decisões.

As crianças vivenciam perdas estruturais que exigem profunda atenção. Elas são afetadas por crises, pandemias e lutos que demandam escuta multissetorial. Mesmo com o coração chorando e uma compreensão tão jovem da morte, a criança tem o direito de usar sua voz para manter quem ama vivo, mantendo-se inteira, cidadã e genuinamente ouvida. Bianka não tentou diminuir a dor de Antonela. Bianka ouviu e deu espaço. E, talvez, essa seja a “ferramenta” mais importante do jornalismo.


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noticia por : UOL

terça-feira, 21, julho , 2026 08:57
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