A difícil vida das mulheres no transporte público

Ninguém está satisfeito em passar horas nos deslocamentos pelas metrópoles brasileiras. Quem mora em periferias e depende do transporte público sofre mais. E as mulheres, mais ainda.

Saiu uma bela tese de doutorado da UFF (Universidade Federal Fluminense) que aborda a mobilidade na região metropolitana do Rio de Janeiro, sob o ponto de vista das mulheres.

“A (i)mobilidade das mulheres no cotidiano urbano”, da pesquisadora Clarisse Cunha Linke, explica como as opções urbanísticas da cidade criaram um abismo entre as regiões centrais e as periferias. A pesquisa destaca como esse histórico de descaso e desigualdade tem impacto direto na mobilidade atual e especialmente no grupo de mulheres de classes sociais mais baixas, moradoras dos subúrbios.

Parte das dificuldades aflige qualquer passageiro: trens e ônibus lotados, caros e mal-cuidados, horários irregulares, atrasos e congestionamentos históricos entre a Baixada Fluminense ou a zona oeste e os bairros centrais do Rio, onde estão os empregos.

Mas, se todo mundo tem que passar por isso, por que o cotidiano das mulheres é pior?

Porque há diferenças fundamentais.

Para começar, como elas são responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas, seus deslocamentos não são apenas da casa para o trabalho e vice-versa. A lida cotidiana depende de trajetos flexíveis, como levar um filho até a creche, comprar carne no açougue, ajudar a mãe que ficou doente, tudo isso em meio a jornadas de trabalho longas e horários erráticos.

Mulheres que trabalham como empregadas domésticas nos bairros da zona sul do Rio, por exemplo, são obrigadas a acordar às 3h, andar sozinhas e esperar num ponto de ônibus escuro, fazer duas ou três baldeações sem sentar e andar até o serviço apenas para chegar a tempo de fazer o café da manhã dos patrões.

O medo faz parte do cotidiano: de assalto no ponto de ônibus, de atrasar, de não ter lugar no vagão e até de tiroteio (muitas mulheres usam grupos de WhatsApp para evitar áreas mais perigosas).

E, para piorar, dentro dos ônibus ou trens lotados, há o receio constante do assédio, importunação e violência sexual. É consternador ler os relatos das mulheres que viveram as experiências tristes e marcantes de homens encostando em seu corpo ou se masturbando num assento ao lado.

A humilhação se mistura ao medo e ao sentimento de que não adianta nem falar com as autoridades ou seguranças. Numa tentativa de aliviar o problema, mesmo sem chegar a discutir suas raízes, o Metrô do Rio criou vagões destinados exclusivamente a mulheres.

A desigualdade é chaga comum às metrópoles brasileiras, mas o caso do Rio de Janeiro é emblemático por ter sido uma espécie de laboratório da vida urbana no país. Desde a implantação da primeira linha de trem, o bota-abaixo de Pereira Passos e a perseguição às favelas e cortiços no centro, a cidade foi afastando as pessoas para cada vez mais longe de seus empregos.

O transporte público de qualidade deveria ser o elo entre essas regiões, mas, além de falho, também depende de uma rede capilar para deixar a estação e andar a pé até o destino final: segurança, sinalização, calçadas, travessias, iluminação. Na ausência disso, ou numa emergência, ou ainda para cobrir distâncias maiores, vans e mototáxis estão ganhando espaço. Não é a melhor solução do ponto de vista coletivo, mas é a maneira que mulheres encontram para dar conta de seus múltiplos afazeres.

As soluções para mudar esse quadro passam por uma série de propostas, mas há uma conclusão inescapável: a de que a formulação do transporte precisa se abrir para acomodar outras vozes e outras perspectivas além da visão tradicional de custos e racionalidade burocrática.

A qualidade, a circulação dentro dos bairros, a segurança, a caminhabilidade e até o preço das tarifas só vão mudar com a inclusão de um ponto de vista novo, talvez mais feminino, nas políticas públicas.


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noticia por : UOL

Ninguém está satisfeito em passar horas nos deslocamentos pelas metrópoles brasileiras. Quem mora em periferias e depende do transporte público sofre mais. E as mulheres, mais ainda.

Saiu uma bela tese de doutorado da UFF (Universidade Federal Fluminense) que aborda a mobilidade na região metropolitana do Rio de Janeiro, sob o ponto de vista das mulheres.

“A (i)mobilidade das mulheres no cotidiano urbano”, da pesquisadora Clarisse Cunha Linke, explica como as opções urbanísticas da cidade criaram um abismo entre as regiões centrais e as periferias. A pesquisa destaca como esse histórico de descaso e desigualdade tem impacto direto na mobilidade atual e especialmente no grupo de mulheres de classes sociais mais baixas, moradoras dos subúrbios.

Parte das dificuldades aflige qualquer passageiro: trens e ônibus lotados, caros e mal-cuidados, horários irregulares, atrasos e congestionamentos históricos entre a Baixada Fluminense ou a zona oeste e os bairros centrais do Rio, onde estão os empregos.

Mas, se todo mundo tem que passar por isso, por que o cotidiano das mulheres é pior?

Porque há diferenças fundamentais.

Para começar, como elas são responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas, seus deslocamentos não são apenas da casa para o trabalho e vice-versa. A lida cotidiana depende de trajetos flexíveis, como levar um filho até a creche, comprar carne no açougue, ajudar a mãe que ficou doente, tudo isso em meio a jornadas de trabalho longas e horários erráticos.

Mulheres que trabalham como empregadas domésticas nos bairros da zona sul do Rio, por exemplo, são obrigadas a acordar às 3h, andar sozinhas e esperar num ponto de ônibus escuro, fazer duas ou três baldeações sem sentar e andar até o serviço apenas para chegar a tempo de fazer o café da manhã dos patrões.

O medo faz parte do cotidiano: de assalto no ponto de ônibus, de atrasar, de não ter lugar no vagão e até de tiroteio (muitas mulheres usam grupos de WhatsApp para evitar áreas mais perigosas).

E, para piorar, dentro dos ônibus ou trens lotados, há o receio constante do assédio, importunação e violência sexual. É consternador ler os relatos das mulheres que viveram as experiências tristes e marcantes de homens encostando em seu corpo ou se masturbando num assento ao lado.

A humilhação se mistura ao medo e ao sentimento de que não adianta nem falar com as autoridades ou seguranças. Numa tentativa de aliviar o problema, mesmo sem chegar a discutir suas raízes, o Metrô do Rio criou vagões destinados exclusivamente a mulheres.

A desigualdade é chaga comum às metrópoles brasileiras, mas o caso do Rio de Janeiro é emblemático por ter sido uma espécie de laboratório da vida urbana no país. Desde a implantação da primeira linha de trem, o bota-abaixo de Pereira Passos e a perseguição às favelas e cortiços no centro, a cidade foi afastando as pessoas para cada vez mais longe de seus empregos.

O transporte público de qualidade deveria ser o elo entre essas regiões, mas, além de falho, também depende de uma rede capilar para deixar a estação e andar a pé até o destino final: segurança, sinalização, calçadas, travessias, iluminação. Na ausência disso, ou numa emergência, ou ainda para cobrir distâncias maiores, vans e mototáxis estão ganhando espaço. Não é a melhor solução do ponto de vista coletivo, mas é a maneira que mulheres encontram para dar conta de seus múltiplos afazeres.

As soluções para mudar esse quadro passam por uma série de propostas, mas há uma conclusão inescapável: a de que a formulação do transporte precisa se abrir para acomodar outras vozes e outras perspectivas além da visão tradicional de custos e racionalidade burocrática.

A qualidade, a circulação dentro dos bairros, a segurança, a caminhabilidade e até o preço das tarifas só vão mudar com a inclusão de um ponto de vista novo, talvez mais feminino, nas políticas públicas.


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