O que é a Quinta Emenda americana, que permitiu silêncio de Fauci no Congresso

Quando o senador Josh Hawley pediu a Anthony Fauci que dissesse a cor da própria gravata e a do carpete sob seus pés, o médico devolveu a frase que já repetira dezenas de vezes: por orientação de seus advogados, recusava-se a responder com base nos direitos que a Quinta Emenda da Constituição lhe garante. Fauci, ex-diretor do instituto americano de alergia e doenças infecciosas e rosto da resposta dos Estados Unidos à pandemia, invocou a mesma fórmula 111 vezes ao longo da audiência de quarta-feira, 29 de julho, na Subcomissão de Segurança Interna do Senado. O episódio mostra a Quinta Emenda em sua forma mais incômoda: o poder de não entregar nada ao Estado, mesmo quando calar, aos olhos de todos, parece equivalente a fazer uma confissão.

Ele estava ali por causa de um diário. Semanas antes, o senador Rand Paul, que preside o comitê, tornou públicas centenas de páginas das anotações pessoais do médico. Paul o acusa de ter mentido ao Congresso e de ter escondido a hipótese de que o vírus escapou de um laboratório. Em mais de 250 comparecimentos ao Congresso ao longo da carreira, Fauci nunca havia recorrido ao silêncio. Desta vez disse, na abertura, que a única finalidade da convocação era arrancar dele alguma frase capaz de confirmar a promessa pública de Paul de vê-lo atrás das grades.

A câmara estrelada

A garantia que Fauci acionou 111 vezes nasceu de uma recusa parecida, quatro séculos antes. Em 1637, o panfletário puritano John Lilburne foi levado diante da Câmara Estrelada (Star Chamber), tribunal inquisitorial que respondia apenas ao rei. Antes de ele conhecer as acusações, as autoridades exigiam que jurasse responder a qualquer pergunta sobre qualquer assunto. Lilburne recusou o juramento, foi açoitado e preso, e saiu da cadeia como símbolo. Nenhuma consciência, dizia ele, deveria ser torturada por juramentos impostos.

O princípio que ele defendeu tem um nome latino que os juristas repetem até hoje, nemo tenetur seipsum accusare: ninguém é obrigado a acusar a si mesmo. Quando os fundadores americanos redigiram a Declaração de Direitos, em 1791, a memória da Câmara Estrelada estava fresca. Escreveram na Quinta Emenda que nenhuma pessoa poderia ser obrigada, em processo criminal, a servir de testemunha contra si mesma.