Semanas após protestos xenófobos expulsarem milhares de trabalhadores migrantes da África do Sul, fileiras de máquinas de costura permaneciam paradas em uma fábrica de roupas em Newcastle, um polo de produção no leste da província de KwaZulu-Natal.
A campanha liderada pelo grupo anti-imigração March and March buscava liberar empregos para sul-africanos, um terço dos quais está desempregado. Mas fabricantes locais têm enfrentado dificuldades para preencher as vagas deixadas por trabalhadores estrangeiros.
Proprietários de três fábricas disseram ter perdido entre 12% e 19% de sua força de trabalho durante os protestos. Segundo os empresários, alguns trabalhadores tinham habilidades de costura escassas no mercado, enquanto poucos moradores locais estavam dispostos a aceitar os empregos de baixa remuneração.
“As pessoas não querem trabalhar em fábricas”, disse Mpho Nkosi, uma administradora sul-africana de 29 anos em uma das empresas.
Migrantes normalmente trabalham em setores pouco atrativos para os moradores locais, afirmam analistas. Ainda não está claro o alcance da atual escassez de mão de obra, mas também houve relatos de vagas não preenchidas em plantações de cana-de-açúcar.
Um porta-voz do Departamento de Emprego e Trabalho disse desconhecer a existência de escassez de trabalhadores e orientou os empregadores a buscar auxílio do órgão para recrutamento.
Disputa sobre falta de qualificação
Meses de marchas e ataques de grupos nacionalistas contra imigrantes culminaram em um prazo estabelecido em 30 de junho pelo March and March para que migrantes sem documentação deixassem o país, levando muitos a fugir.
O grupo afirma que os imigrantes são responsáveis pelos problemas econômicos da África do Sul, especialmente pelo alto desemprego, embora pesquisadores contestem essa afirmação. A organização argumenta que empregadores preferem estrangeiros que aceitam salários mais baixos.
Donos de fábricas contestam a acusação e afirmam que empregam principalmente sul-africanos, embora alguns trabalhadores qualificados de países vizinhos, como Eswatini e Lesoto, sejam necessários por sua experiência no setor de confecção.
“Não podemos substituir imediatamente essas habilidades por trabalhadores locais”, disse Alex Liu, proprietário de uma fábrica em Newcastle.
Outro empresário, Ronghua Yan, iniciou um curso de treinamento para sete funcionários locais após perder cerca de 40 trabalhadores estrangeiros em junho. Segundo ele, restrições financeiras não permitem ampliar o treinamento.
O Sindicato dos Trabalhadores do Setor de Vestuário e Têxtil da África Austral estima que 15% dos 15 mil trabalhadores têxteis de Newcastle deixaram a região durante os protestos.
O representante sindical Siyabonga Ntombela contestou a ideia de falta de qualificação e disse que os empregos não estão sendo preenchidos porque os salários são baixos demais para os sul-africanos.
“Temos muitos operadores de máquinas qualificados na África do Sul”, disse ele, acrescentando que os custos de transporte também afastam trabalhadores locais, enquanto em algumas fábricas os migrantes moravam no próprio local de trabalho.
O pesquisador do mercado de trabalho Siphelele Ngidi afirmou que atrair sul-africanos para empregos industriais exigiria uma iniciativa do governo para revitalizar o setor.
“Não é apenas o salário, mas também as condições de trabalho e a possibilidade de crescimento profissional”, disse Ngidi.
Salários baixos, menos pedidos
A maioria das fábricas de roupas de Newcastle pertence a cidadãos chineses que vivem na África do Sul há décadas.
Elas produzem roupas para varejistas nacionais em um setor que o governo tem incentivado para reduzir a dependência de importações e que é fundamental para a economia de Newcastle.
Mas os trabalhadores geralmente são pagos por peça produzida, o que significa que apenas os mais produtivos conseguem atingir o salário mínimo nacional de 30,23 rands (R$9,88) por hora. Muitos recebem menos.
Os proprietários das fábricas disseram que não conseguem aumentar os salários porque os varejistas pagam pouco pelas peças produzidas. Uma calça jeans começa a custar 11,50 rands (R$3,80), enquanto uma camiseta pode render menos da metade desse valor.
O setor sofreu uma perda em fevereiro, quando inspeções do governo identificaram práticas ilegais de trabalho em algumas fábricas.
Liu disse que a maioria das fábricas perdeu pedidos de varejistas como resultado das inspeções, ressaltando que nem todas eram igualmente responsáveis. Embora isso tenha reduzido a urgência de substituir os trabalhadores que saíram, o impacto combinado dos problemas pode levar algumas fábricas ao limite, causando mais perda de empregos para sul-africanos do que novas oportunidades, afirmou.
Liu disse que sua empresa opera atualmente com prejuízo e que pretende reavaliar até dezembro se encerrará as atividades.
“No momento, todos estão esperando para ver o que acontece. Acho que há uma possibilidade de termos muitos fechamentos nos próximos meses”, disse o proprietário.
noticia por : UOL


