Livros examinam a moral, os mercados e o dinheiro por trás do capitalismo moderno

Em uma época em que a indignação pública pode moldar decisões políticas mais rápido do que nunca, o economista vencedor do Prêmio Nobel e professor de Stanford Alvin Roth apresenta um argumento convincente a favor das evidências em detrimento do instinto no livro “Moral Economics: What Controversial Transactions Reveal About How Markets Work” [“Economia Moral: O que as Transações Controversas Revelam sobre o Funcionamento dos Mercados”].

Roth, cujo trabalho pioneiro em design de mercados transformou sistemas de doação de rins, examina algumas das trocas mais controversas da sociedade moderna, incluindo prostituição, venda de órgãos, drogas e assistência médica para pacientes terminais.

Ao longo do livro, Roth apresenta algumas verdades duras e reveladoras para aqueles que podem pensar que a intuição moral deveria fundamentar toda regulação e legislação.

Ele mostra por que a maioria das decisões políticas envolve dilemas morais inevitáveis e como a proibição de atividades consideradas questionáveis pode resultar em transações sendo empurradas para a clandestinidade (onde se tornam mais difíceis de regular). Ele também defende que mercados de serviços desagradáveis sejam tratados como ferramentas morais, não como falhas.

“Meu objetivo não é dizer o que você deve pensar, mas ajudá-lo a pensar”, escreve na introdução. Ele consegue em grande parte. Esta é uma leitura divertida que abre a mente do início ao fim. Alguns podem achar as discussões sobre tópicos moralmente “repugnantes” um tanto ofensivas —mas esse é justamente o ponto.

Questões sobre a relação entre mercados e valores também animam o mais recente trabalho de Mariana Mazzucato. Em “The Common Good Economy: A New Compass” [“A Economia do Bem Comum: Uma Nova Bússola”], ela defende uma reformulação radical de como governos, empresas e cidadãos interagem.

Em vez de ver o Estado principalmente como um corretor de falhas de mercado ou provedor de bens públicos, Mazzucato argumenta que as instituições públicas deveriam desempenhar um papel mais ativo na moldagem da atividade econômica em torno de objetivos sociais compartilhados.

Recorrendo a estudos de caso, economia política, filosofia e até biologia, ela explora como a cooperação entre governo, empresas e comunidades pode ajudar a enfrentar desafios que vão da desigualdade às mudanças climáticas.


Central em seu argumento está uma crítica ao que ela vê como dinâmicas “parasitárias” e “extrativistas” que caracterizam muitos arranjos econômicos contemporâneos.

Céticos vão se perguntar com que facilidade as sociedades podem definir o “bem comum”, como prioridades concorrentes são reconciliadas e se as instituições públicas possuem a competência e os incentivos necessários para entregar objetivos tão ambiciosos de forma eficiente —ainda assim, mesmo eles encontrarão muito com o que se envolver.

Após “O Estado Empreendedor” (2013), “O Valor de Tudo” (2018) e “Economia da Missão” (2021), o mais recente trabalho de Mazzucato é outra contribuição ambiciosa e instigante para o debate vivo sobre o futuro do capitalismo e as responsabilidades do governo.

Um papel maior para o Estado inevitavelmente levanta uma questão prática: quem deve pagar por isso? Isso está no cerne de “Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar Com Isso”, do economista Gabriel Zucman. O professor da Escola de Economia de Paris —que se tornou uma estrela da esquerda— apresenta um argumento conciso a favor de um imposto mínimo anual de 2% sobre a riqueza daqueles que têm patrimônio de US$ 100 milhões ou mais.

Em cerca de cem páginas, Zucman argumenta que, ao estruturar seus negócios por meio de holdings e depender de ganhos de capital e dividendos, bilionários frequentemente conseguem evitar a carga tributária enfrentada pela população em geral.

Dessa forma, na França, ele estima que a proporção de impostos em relação à renda nacional para bilionários é de cerca de um quarto, comparada a cerca de 50% para a pessoa média. Isso, argumenta ele, justifica tributar pelo menos um terço dos retornos de 6% que ele estima que bilionários possam obter sobre suas fortunas.

Como uma intervenção política focada, o livro é bem-sucedido. No entanto, sua brevidade também expõe suas limitações. O ceticismo de Zucman em relação aos bilionários deixa menos espaço para discutir os benefícios econômicos que a tomada de risco empreendedora pode gerar por meio de inovação, investimento e criação de empregos.

Como resultado, há pouca consideração dos riscos de sua proposta, ou de como uma abordagem com mais nuances —como fechar brechas fiscais flagrantes e fortalecer as regras tributárias existentes— poderia ajudar a alcançar objetivos semelhantes com menos consequências não intencionais.

O último livro desloca nossa atenção dos debates de políticas públicas para um assunto que sustenta toda a economia, mas permanece amplamente mal compreendido: o dinheiro.

Em “Money: The Inside Story” [“Os Bastidores do Dinheiro”], os economistas Rupal Patel e Jack Leslie desmistificam como o sistema bancário cria e administra nosso dinheiro, em um livro acessível que aumentará o juízo de como o dinheiro em nossas carteiras e os fundos em nossos cartões de crédito realmente funcionam.

Os autores explicam como os bancos comerciais operam, o que impede o sistema monetário de descambar para a instabilidade e como os bancos centrais respondem durante períodos de estresse financeiro. Informativo, animado e consistentemente envolvente, esta é outra contribuição inestimável da série de publicações do Banco da Inglaterra.

noticia por : UOL

Em uma época em que a indignação pública pode moldar decisões políticas mais rápido do que nunca, o economista vencedor do Prêmio Nobel e professor de Stanford Alvin Roth apresenta um argumento convincente a favor das evidências em detrimento do instinto no livro “Moral Economics: What Controversial Transactions Reveal About How Markets Work” [“Economia Moral: O que as Transações Controversas Revelam sobre o Funcionamento dos Mercados”].

Roth, cujo trabalho pioneiro em design de mercados transformou sistemas de doação de rins, examina algumas das trocas mais controversas da sociedade moderna, incluindo prostituição, venda de órgãos, drogas e assistência médica para pacientes terminais.

Ao longo do livro, Roth apresenta algumas verdades duras e reveladoras para aqueles que podem pensar que a intuição moral deveria fundamentar toda regulação e legislação.

Ele mostra por que a maioria das decisões políticas envolve dilemas morais inevitáveis e como a proibição de atividades consideradas questionáveis pode resultar em transações sendo empurradas para a clandestinidade (onde se tornam mais difíceis de regular). Ele também defende que mercados de serviços desagradáveis sejam tratados como ferramentas morais, não como falhas.

“Meu objetivo não é dizer o que você deve pensar, mas ajudá-lo a pensar”, escreve na introdução. Ele consegue em grande parte. Esta é uma leitura divertida que abre a mente do início ao fim. Alguns podem achar as discussões sobre tópicos moralmente “repugnantes” um tanto ofensivas —mas esse é justamente o ponto.

Questões sobre a relação entre mercados e valores também animam o mais recente trabalho de Mariana Mazzucato. Em “The Common Good Economy: A New Compass” [“A Economia do Bem Comum: Uma Nova Bússola”], ela defende uma reformulação radical de como governos, empresas e cidadãos interagem.

Em vez de ver o Estado principalmente como um corretor de falhas de mercado ou provedor de bens públicos, Mazzucato argumenta que as instituições públicas deveriam desempenhar um papel mais ativo na moldagem da atividade econômica em torno de objetivos sociais compartilhados.

Recorrendo a estudos de caso, economia política, filosofia e até biologia, ela explora como a cooperação entre governo, empresas e comunidades pode ajudar a enfrentar desafios que vão da desigualdade às mudanças climáticas.


Central em seu argumento está uma crítica ao que ela vê como dinâmicas “parasitárias” e “extrativistas” que caracterizam muitos arranjos econômicos contemporâneos.

Céticos vão se perguntar com que facilidade as sociedades podem definir o “bem comum”, como prioridades concorrentes são reconciliadas e se as instituições públicas possuem a competência e os incentivos necessários para entregar objetivos tão ambiciosos de forma eficiente —ainda assim, mesmo eles encontrarão muito com o que se envolver.

Após “O Estado Empreendedor” (2013), “O Valor de Tudo” (2018) e “Economia da Missão” (2021), o mais recente trabalho de Mazzucato é outra contribuição ambiciosa e instigante para o debate vivo sobre o futuro do capitalismo e as responsabilidades do governo.

Um papel maior para o Estado inevitavelmente levanta uma questão prática: quem deve pagar por isso? Isso está no cerne de “Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar Com Isso”, do economista Gabriel Zucman. O professor da Escola de Economia de Paris —que se tornou uma estrela da esquerda— apresenta um argumento conciso a favor de um imposto mínimo anual de 2% sobre a riqueza daqueles que têm patrimônio de US$ 100 milhões ou mais.

Em cerca de cem páginas, Zucman argumenta que, ao estruturar seus negócios por meio de holdings e depender de ganhos de capital e dividendos, bilionários frequentemente conseguem evitar a carga tributária enfrentada pela população em geral.

Dessa forma, na França, ele estima que a proporção de impostos em relação à renda nacional para bilionários é de cerca de um quarto, comparada a cerca de 50% para a pessoa média. Isso, argumenta ele, justifica tributar pelo menos um terço dos retornos de 6% que ele estima que bilionários possam obter sobre suas fortunas.

Como uma intervenção política focada, o livro é bem-sucedido. No entanto, sua brevidade também expõe suas limitações. O ceticismo de Zucman em relação aos bilionários deixa menos espaço para discutir os benefícios econômicos que a tomada de risco empreendedora pode gerar por meio de inovação, investimento e criação de empregos.

Como resultado, há pouca consideração dos riscos de sua proposta, ou de como uma abordagem com mais nuances —como fechar brechas fiscais flagrantes e fortalecer as regras tributárias existentes— poderia ajudar a alcançar objetivos semelhantes com menos consequências não intencionais.

O último livro desloca nossa atenção dos debates de políticas públicas para um assunto que sustenta toda a economia, mas permanece amplamente mal compreendido: o dinheiro.

Em “Money: The Inside Story” [“Os Bastidores do Dinheiro”], os economistas Rupal Patel e Jack Leslie desmistificam como o sistema bancário cria e administra nosso dinheiro, em um livro acessível que aumentará o juízo de como o dinheiro em nossas carteiras e os fundos em nossos cartões de crédito realmente funcionam.

Os autores explicam como os bancos comerciais operam, o que impede o sistema monetário de descambar para a instabilidade e como os bancos centrais respondem durante períodos de estresse financeiro. Informativo, animado e consistentemente envolvente, esta é outra contribuição inestimável da série de publicações do Banco da Inglaterra.

noticia por : UOL

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