O Brasil evangélico mudou muito nos últimos 50 anos, mas nem todas as igrejas tomaram a mesma direção. Enquanto as grandes denominações pentecostais cresceram em ritmo acelerado, uma parcela mais discreta do protestantismo escolheu manter sua tradição, identidade e rigor. É o caso dos presbiterianos, que acabam de eleger seu novo líder no país.
Pastor da Igreja Presbiteriana de Curitiba, o reverendo Juarez Marcondes Filho, de 66 anos, acaba de assumir a presidência do Supremo Concílio, o órgão máximo da denominação. Ele chega ao comando num momento em que a instituição precisa encarar debates que vão muito além de sua rotina interna: polarização política, disputas culturais, o avanço de novos movimentos religiosos e a defesa da vida.
Fundada no Brasil em 1859, a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) hoje conta com cerca de 700 mil membros — é a décima maior entre as igrejas protestantes do país. Mas sua influência extrapola os cultos. Conhecida por uma presença forte na área da educação, a IPB mantém mais de 200 escolas e a Universidade Mackenzie, uma das instituições de ensino superior mais tradicionais do país.
Na entrevista a seguir, o reverendo revela seus planos e comenta temas como a militância ideológica em sala de aula, aborto e eutanásia, o movimento Legendários e a presença de presbiterianos em posições de poder — como o ministro André Mendonça, do STF.
Parte da imprensa e alguns grupos nas redes sociais afirmaram que sua eleição ocorreu em meio a “tensões políticas e doutrinárias”, enquanto o senhor negou que exista uma divisão na igreja. Como explica essa diferença de percepções?
A igreja não é uma coisa só. Há tendências internas e algumas delas são tendências extremadas, tanto para uma vertente como para outra. Mas o grosso da igreja, posso assegurar, é muito equilibrado. Eventualmente, esses setores mais extremados, por meio das redes sociais, exacerbam os ânimos às vésperas do Supremo Concílio. E aí quem captura isso na internet pensa: “Está havendo uma tensão, vai haver uma divisão”. Não houve nada disso. Nossas reuniões são muito democráticas.
Mas isso também reflete as polarizações que vivemos no mundo de hoje, que são ideológicas e políticas. A igreja às vezes é chamada para esse front, para ser extremada. Mas a igreja tem um papel de conciliação, não de polarizar cada vez mais.
Na mesma reunião em que o senhor foi eleito, o Supremo Concílio recomendou que os membros não participem do movimento Legendários. O senhor concorda com essa decisão? O que torna o grupo incompatível com a tradição presbiteriana?
É importante entender como esse assunto chegou ao Supremo Concílio. Não foi uma decisão tomada do nada. Chegaram consultas de concílios inferiores. Em algumas igrejas locais, homens participaram do Legendários e, quando retornaram, começaram a ter determinados comportamentos e a criticar muito a igreja: “Aqui os homens não são como deveriam ser”. Mas é importante esclarecer uma coisa: um membro da Igreja Presbiteriana que participa do Legendários não será disciplinado simplesmente por ter participado. Não existe isso de “você participou do movimento, está excomungado”.
Participar do movimento pode levar o homem presbiteriano a pensar: “Se eu não tiver essas experiências, não serei um cristão tão fervoroso”. E há aspectos que nos parecem incompatíveis, como algumas exigências exacerbadas de subir à montanha e passar por privações para descobrir a verdade da fé. Não entendemos que essa seja a nossa jornada. Jesus tirou das nossas costas todo o peso de culpa, todo o peso desnecessário. Jesus disse: “Vinde a mim, vocês que estão cansados e sobrecarregados”. E nós vamos colocar uma canga no pescoço dos outros? Não precisa disso.
O Legendários tem forte presença entre homens mais jovens. Essa decisão não pode criar um distanciamento entre a ala mais tradicional da IPB e uma geração que encontrou nesse movimento uma forma de viver a fé? Há risco de a igreja perder esses membros?
Temos uma União Presbiteriana de Homens que se reúne para projetos muito consistentes na vida espiritual, na oração, no testemunho, na evangelização, na missão e na obra social. Os homens são muito fortes na nossa igreja. Então nós já temos isso dentro do nosso movimento. O que nos parece é que existe uma concorrência. Vem um movimento de fora para concorrer com o que já temos dentro.
Outros movimentos já tiveram, em outras épocas, essa avalanche e passaram. Vou ser bem franco: Legendários é uma moda hoje. Não estou vislumbrando que daqui a dez anos estaremos falando sobre esse assunto. Já a Igreja Presbiteriana tem 167 anos. Se Jesus não voltar antes, daqui a dez anos estaremos falando dela, porque é muito mais sólida do que movimentos.
O senhor falou, antes da eleição, sobre a necessidade de impedir que a militância ideológica em sala de aula subverta valores bíblicos. Que tipo de militância tinha em mente?
O Mackenzie é uma instituição confessional [orientada pelos princípios doutrinários da denominação] da Igreja Presbiteriana do Brasil. Nós não temos um índex dizendo: “Esse professor não pode dar aula aqui porque pensa assim”. Não entendemos dessa forma. Mas qualquer colaborador, quando assume uma cátedra lá, subscreve um compromisso com a nossa confessionalidade. Não exigimos que ele se torne membro da Igreja Presbiteriana, faça profissão de fé ou seja batizado. Seria impositivo. Mas não podemos permitir que ele, de posse da sua cátedra, desdenhe daquilo que é nossa base doutrinária e espiritual.
Temos uma chancelaria que acompanha o movimento da universidade e das escolas. Nos colégios, praticamente não temos problemas. Quando chegamos às faculdades e à universidade, precisamos ser mais cautelosos para que os docentes não usem o espaço que abrimos para eles para desdenhar da nossa fé ou fazer publicidade de sua militância. Seja militância de esquerda, seja de direita, o professor tem que dar aula, apresentar a matéria e não fazer prosélitos para seu partido político ou sua ideologia.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, é pastor presbiteriano em exercício. Qual deve ser a relação entre a formação oferecida pela igreja e a atuação de seus membros em instituições do Estado?
O ministro André não é representante da Igreja Presbiteriana do Brasil no STF. A igreja nunca solicitou à Presidência da República um cargo para alguém. Ele era funcionário de carreira da Advocacia-Geral da União havia 20 anos e, depois, foi ministro da AGU e da Justiça. Quando surgiu a vaga no STF, foi conduzido. Nós ficamos felizes porque conhecemos a qualidade do trabalho dele. É uma pessoa especial e acho que tem trazido uma contribuição muito boa. Mas ele não é representante do presbiterianismo no cargo que ocupa.
O que a Igreja Presbiteriana procura fazer é trabalhar valores e princípios com sua membresia para oferecer à nação os melhores quadros. Nós queremos que o membro da nossa igreja seja o melhor médico, o melhor engenheiro, o melhor professor, o melhor político. Isso vale para os níveis federal, estadual e municipal. Sempre tivemos pessoas ocupando esses espaços, mas elas não estão lá para representar a igreja.
A IPB entende que seu papel na defesa da vida se limita à formação dos fiéis ou a igreja também deve atuar publicamente contra o aborto?
Não podemos ficar restritos à nossa rotina e ao nosso programa doutrinário. É um tema muito caro. E eu colocaria ao lado do aborto a questão da eutanásia, porque vivemos num mundo em que se descarta o feto e se descarta o idoso. Nós adotamos uma postura antiaborto porque entendemos que a vida começa na concepção. Tudo aquilo que alguém vai ser depois de vir à luz já está presente desde o primeiro encontro das células. Hoje temos a possibilidade de ver imagens de como isso acontece. É algo extraordinário. Negar que existe vida ali é tapar os olhos.
Mas a igreja não precisa atuar sozinha. Já fomos signatários de muitas iniciativas nesse sentido e participamos de movimentos. Também destacamos pessoas da área da saúde, da biologia, da medicina e da teologia para participar desses movimentos. Não nos furtamos a isso. E não é só no aborto. Outros assuntos também levam a igreja a atuar publicamente. Porque entendemos que não são temas meramente doutrinários de uma linha teológica. É vida. E vida não tem cor partidária nem cor ideológica.
A Igreja Presbiteriana do Brasil tem um crescimento mais lento do que outras grandes denominações evangélicas. Isso é uma limitação natural do modelo presbiteriano ou uma escolha consciente por um crescimento mais moderado e estável?
Quando fazemos uma linha histórica da Igreja Presbiteriana, vemos um crescimento continuado. Não é um crescimento exacerbado, mas é constante. Nos últimos 20 anos, tivemos um crescimento da ordem de 60%, algo entre 2% e 3% ao ano, já descontadas as defasagens. É um crescimento seguro e histórico.
Não precisamos crescer 10% em um ano e cair 20% no seguinte, como infelizmente acontece com algumas denominações cujo crescimento é fruto de cisões. Não estamos preocupados em ser menores que determinadas igrejas. Quando olhamos para as igrejas históricas, estamos numa boa média. Essa questão do crescimento precisa ser analisada por vários fatores, e não apenas por estatísticas. Não basta dizer que uma igreja cresceu mais. É preciso perguntar como ela cresceu.
Como funciona o sistema de governo da Igreja Presbiteriana?
O nome “presbiteriano” vem de presbítero. Literalmente, na língua grega, significa idoso, velho. Mas na igreja ganhou o sentido de maduro: é o líder que a própria comunidade conhece, reconhece e elege, juntamente com seus pares, para representá-la. Nosso sistema difere do episcopal — como o da Igreja Católica, da Metodista e da Anglicana — e do sistema congregacional, como o Batista. A força de decisão da igreja é a assembleia local. E uma das coisas mais importantes que ela faz é eleger seus presbíteros, seus representantes, que passam a tocar a igreja e depois prestam contas à comunidade. É muito parecido com o modelo democrático das nações. Você elege um deputado para representá-lo na Câmara. Tudo é representação.
Seu antecessor, o reverendo Roberto Brasileiro Silva, ficou 24 anos na presidência. O senhor defende uma liderança tão longa ou pretende estimular uma maior rotatividade?
Meu antecessor ficou 24 anos, mas não foi em um único mandato. Foram seis mandatos de quatro anos. Quando terminava um mandato, as lideranças diziam que ele deveria continuar, e ele foi ficando. Fui eleito agora para quatro anos e espero cumpri-los bem para passar o bastão a outro. Sou da teoria de que devemos estimular novas lideranças. Afinal, nós passamos, mas a instituição fica. Costumo dizer que você tem três alegrias quando recebe um mandato: uma quando é eleito e duas quando entrega. “Graças a Deus terminei, estou vivo e deixei bem.”
O que fez o reverendo Roberto permanecer tanto tempo na presidência? E o que o senhor pretende fazer de diferente agora que assumiu o cargo?
Ele foi uma peça importante na unidade da igreja. Porque temos tendências internas e, como eu disse anteriormente, algumas dessas tendências são mais extremadas. E ele, com seu jeito muito tolerante e condescendente, fez uma integração nacional e abriu caminho para que continuássemos.
Uma das coisas que sinto necessidade de fazer é uma integração maior dos vários órgãos da igreja. Temos órgãos na educação, principalmente na educação teológica, com mais de 200 escolas no Brasil. Também temos um trabalho missionário e de ação social muito forte. Mas às vezes me parece que falta um pouco de integração. Hoje, com as plataformas digitais, temos condições de reunir regularmente todos numa mesma plataforma e integrar as ações. Isso melhora a comunicação e permite que um órgão apoie o outro.
O senhor fez de questão dizer, logo após a eleição, que continua pastor da Igreja Presbiteriana de Curitiba. Como pretende conciliar o pastorado com a presidência do Supremo Concílio?
Já estou no Supremo Concílio há 20 anos. Exerci a secretaria de atas, depois a vice-presidência e a secretaria executiva, o órgão que mais empreende ações e faz a igreja se movimentar. Agora fui guindado à presidência, que tem uma representatividade muito intensa, com solicitações para estar aqui, ali e acolá. Mas eu diria que a secretaria executiva é mais exigente do que a presidência. Então já estou nessa rotina, e continuo tocando a igreja de Curitiba com total apoio do conselho local e da minha família. Também é importante lembrar que o cargo de presidente do Supremo Concílio é voluntário. Não sou um assalariado, não sou um executivo da igreja.
noticia por : Gazeta do Povo



