O chanceler austríaco Christian Stocker afirmou, no último dia 31, ser favorável à proibição do islamismo político por meio de uma lei constitucional. Em entrevista ao jornal Heute, ele explicou porque defende a medida: “Se o islamismo for interpretado sob uma perspectiva política, ele é incompatível com nossa democracia e com nossos valores ocidentais”.
Se a proposta avançar, a Áustria poderá se tornar o primeiro país europeu a proibir o islamismo na política — uma iniciativa que vai além das restrições já adotadas contra símbolos e organizações islâmicas.
A declaração formaliza uma posição defendida há meses pela direita liderada pelo Partido Popular Austríaco, o ÖVP, para quem a fé muçulmana, quando se manifesta como projeto político, não pode conviver com a estrutura constitucional do país. “Defendemos a liberdade religiosa: cada um pode acreditar no que quiser e praticar sua fé. Mas, quando a religião é instrumentalizada politicamente, precisamos nos opor com a máxima determinação”, acrescentou Stocker.
O anúncio foi feito vésperas da entrada em vigor, em 1º de setembro, da proibição do uso do véu islâmico nas escolas por meninas de até 14 anos, coincidindo com o início do ano letivo. A lei nasceu por iniciativa da ministra austríaca da Integração e da Família, Claudia Bauer, que classificou o véu como “não um símbolo religioso, mas de opressão”.
Na Áustria, o uso do véu entre meninas — inclusive com menos de nove anos — envolve mais de 12 mil estudantes, segundo dados citados pelo governo. A justificativa do governo austríaco é de que, segundo a concepção islâmica, o véu cobriria um corpo percebido como possível objeto sexual, e que seu uso por menores representaria sexualização precoce da infância. Em 2018, o então chanceler Sebastian Kurz já havia proibido o véu em creches e escolas primárias.
Segundo o censo de 2021, os muçulmanos representam 8,3% da população austríaca, a maior comunidade religiosa minoritária do país (cerca de 1 milhão de pessoas em uma população de menos de 10 milhões). Foi nesse contexto que Stocker afirmou: “Não quero que nossos filhos e netos cresçam em um Estado islâmico”.
Disfarçado de democracia
O islamismo é oficialmente reconhecido na Áustria desde 1912, quando o imperador Francisco José assinou a Islamgesetz, lei criada após a anexação da Bósnia-Herzegovina. O projeto, apresentado pelo conde Karl Stürgkh em 1909, foi pensado para os cerca de 600 mil muçulmanos sunitas de rito hanafita incorporados ao império com a anexação.
A legislação concedia aos muçulmanos status de comunidade religiosa sob a lei fundamental de 1867, com autogoverno interno, direito a criar fundações religiosas e assistenciais, e ensino da fé islâmica por professores vindos da Bósnia, autorizados pelo Estado — que, em contrapartida, podia proibir cerimônias por motivos de ordem pública e destituir professores condenados por crimes graves.
Essa lei, nunca revogada, segue em vigor. Foi com base nela que, em 2013, a comunidade alevita foi reconhecida como organização autônoma, independente da IGGiÖ, a principal organização sunita do país (que hoje se mobiliza contra a proibição do véu e o projeto de lei sobre o islamismo político).
Foi também a partir dessa estrutura jurídica que, em 2015, o então ministro das Relações Exteriores e da Integração, Sebastian Kurz, promoveu uma reforma após os atentados jihadistas de Paris, Nice e Viena, cortando o financiamento estrangeiro a imãs. A medida, porém, foi contornada: surgiram fundações austríacas que passaram a distribuir recursos vindos da Turquia, do Catar e do Kuwait — países que, segundo autoridades austríacas, usam a diáspora islâmica para apoiar a agenda da Irmandade Muçulmana.
Diante disso, Viena criou o Centro de Documentação sobre o Islamismo Político, dirigido pelo islamólogo Mouhanad Khorchide, que descreveu a missão da instituição: “Negligenciamos o islamismo político, mas suas estruturas estão muito bem desenvolvidas em todo o mundo. O islamismo político se disfarça de democracia e direitos humanos, mas quer obter o poder secular em nome do sagrado”.
O país também passou a exigir que imãs falem alemão fluentemente e usem traduções oficiais do Alcorão aprovadas pelo Estado, sujeitas a monitoramento das autoridades.
“O maior perigo do nosso tempo”
Agora, é a ministra Claudia Bauer quem conduz o novo projeto. Ela apresentou aos parceiros de governo uma primeira versão de um “banimento constitucional do islamismo político” e afirmou que o governo combaterá “o islamismo político e suas organizações na Áustria e na Europa com todos os meios”, classificando-o como “o maior perigo do nosso tempo”.
Não é a primeira medida desse tipo implantada no país. Em 2018, a Áustria expulsou 60 imãs ligados a Erdogan e fechou várias mesquitas. Em 2021, tornou-se o primeiro país europeu a proibir a Irmandade Muçulmana, organização fundada há quase 100 anos no Egito por Hassan al-Banna — desde então, divulgar slogans ou materiais da confraria é crime, com pena de até 4 mil euros de multa e um mês de prisão. Segundo dados oficiais, turcos controlam 58 das 250 mesquitas registradas no país.
Depósito do Hamas
Em novembro de 2025, os serviços de inteligência austríacos descobriram em Viena um depósito de armas e explosivos ligado ao Hamas, que seria destinado a atentados na Europa. As investigações apontaram o envolvimento de Muhammad Naim, filho de Basem Naim, funcionário do escritório político do Hamas em Gaza e próximo a Khalil al-Hayya, presidente do escritório político do grupo.
Segundo as autoridades, a investigação indica envolvimento direto da cúpula do Hamas na expansão de atividades do grupo na Europa.
© 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Original em italiano: L’Austria fa sul serio e vuole bandire l’Islam politico
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noticia por : Gazeta do Povo



