Safári, Flávio Bolsonaro e a fraude do INSS

O safári é uma atividade de lazer, mas envolve riscos inerentes à proximidade com animais selvagens em seu habitat natural. A aproximação excessiva dos predadores pode causar problema. Em foto divulgada pelo jornal O Globo, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece numa savana na África do Sul, sorridente e relaxado, quando deveria se preocupar com o seu entorno.

Na foto não se enxergam predadores. Só humanos. Mas há uma fauna que causa embaraço. Como diferentes espécies uniram-se na mesma programação de lazer? Era melhor Flávio ter ficado perto dos leões.

Embora o candidato prometa em seu plano de governo que não poupará “esforços para coibir qualquer nova tentativa de roubar o dinheiro dos aposentados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)“, Flávio aparece ao lado de investigados pela Polícia Federal por escândalos de corrupção do INSS, do Banco Master, da CPI da Covid e até com aliado político do seu arquirrival Lula (PT).

Flávio saiu para a savana com o advogado Willer Tomaz, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e o empresário Carlos Alberto Sá.

Segundo a revista Piauí, a foto foi enviada em março de 2025 do celular de Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal por desvios no INSS. Em uma das fases da Operação Sem Desconto, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, destacou que a estrutura ligada ao advogado “funcionaria como verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico”, posto à disposição de beneficiários, dentre os quais estaria o senador Weverton Rocha.

Flávio é velho amigo de Willer, que emprestou seu apartamento em São Paulo para o candidato usá-lo na campanha. Por coincidência, esse mesmo imóvel era de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, que o vendeu ao advogado por R$ 2 milhões a menos do que seu valor de mercado.

Procurado por esta coluna, o advogado ponderou que “não há nenhuma ilegalidade em viajar com amigos para a África ou para qualquer outro lugar. A viagem foi custeada com recursos próprios, sem dinheiro ou interesse públicos envolvidos.”

Em terra africana, Flávio não hesitou em aparecer ao lado do senador Weverton Rocha, do PDT, histórico aliado do PT e vice-líder do governo Lula no Senado. Em suas redes sociais, o maranhense aparece de rostinho colado ao petista se derretendo: “vote em quem nunca abandonou o Lula”.

Weverton está ligado a pessoas que são pivôs do escândalo dos aposentados. Adroaldo Portal, ex-assessor do senador, foi o número dois da Previdência na gestão de Carlos Luppi, também do PDT. Adroaldo está preso por acusação de envolvimento com o Careca do INSS.

Não bastasse isso, Weverton tem currículo conturbado no Supremo. Desde 2013, há diversos processos na corte decorrentes de inquéritos policiais que apuraram crimes relativos a desvio de verbas, estelionato, apropriação indébita, peculato, corrupção ativa e passiva. Tais processos estão arquivados.

Em nota, o senador afirmou apenas que “Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos”. Nada falou sobre Flávio e os demais.

A Polícia Federal também investiga o senador Weverton por ser o suposto responsável por “formular demandas, indicar beneficiários, cobrar pagamentos, acompanhar repasses, tratar de imóveis, orientar providências e interferir em decisões patrimoniais” no contexto da fraude no INSS.

Na mesma foto na savana aparece o empresário Carlos Alberto Sá, sócio da empresa VTCLog, que constou em 2021 no relatório da CPI da Covid para ser indiciado pelos crimes de corrupção ativa e improbidade administrativa.

Sobre as amizades da viagem estarem envolvidas em investigação, Flávio disse que “a relação de amizade entre as famílias é legítima e qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”.

Se Flávio promete ser uma espécie de caçador da corrupção, não faz sentido ele aparecer ao lado de investigados em escândalos de corrupção. Se eleito, terá isenção para tomar medidas contra as amizades do último safári? Não basta ser correto, é necessário também aparentar sê-lo.


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noticia por : UOL

quarta-feira, 23, setembro , 2026 10:40
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