São Paulo
O veto do governo Lula ao funcionamento das bets no Brasil atingiu não apenas a operação das casas de apostas. O banimento afetou também o BTG Pactual, que se tornou o banco das maiores bets do país, enquanto outras instituições financeiras de grande porte preferiram ficar de fora do jogo, segundo apurou a Folha.
O banco de André Esteves dava crédito, fornecia conta-corrente e prestava outros serviços para 14 empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda, mostram documentos regulatórios e registros em juntas comerciais consultados pela reportagem.
Juntas, essas bets controlaram 70% das apostas online, um mercado que faturou R$ 57,1 bilhões de janeiro de 2025 a junho de 2026 —mesma cifra que o setor de produtos para o cabelo ou de franquias de fast food.

O chairman do BTG, André Esteves, durante evento que reuniu CEOs de instituições financeiras em novembro de 2025
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Rafaela Araújo/Folhapress
A suspensão foi efetivada por meio de MP (medida provisória), que precisa ser validada pelo Congresso em até 120 dias. Até sexta-feira (25), quando o documento foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os cassinos online eram legais no país e, portanto, não existiam quaisquer restrições à atividade bancária no setor.
Mesmo assim, a maioria das instituições recusou atendimento por enxergar riscos ligados a compliance, lavagem de dinheiro, checagens das sociedades por trás das bets e incertezas regulatórias, além da questão reputacional de um setor associado à ludopatia, ao endividamento e a operações policiais, segundo porta-vozes do setor bancário ouvidos sob reserva.
Após a publicação da medida provisória que proibiu as apostas online, o BTG disse que está adotando medidas para cumprir a nova legislação. Por questões de sigilo bancário, o banco afirmou que não comentaria seu relacionamento com clientes.
As bets atendidas pelo BTG incluíam multinacionais como Betano, Bet365, SuperBet, SportingBet e Blaze, marcas ligadas ao grupo Globo, como BetMGM e Rei do Pitaco, além da Betnacional, a representante local da Flutter Entertainment, gigante listado na New York Stock Exchange.
O restante do setor trabalhava principalmente com o Banco Genial. A instituição financeira, conhecida por negócios com criptomoedas e contas-bolsões, também tem clientes entre as dez maiores bets, como Bet7k e CassinoPix.
O Genial disse que as bets eram uma atividade regulada, atendidas também por outras instituições financeiras, mediante boas práticas contra lavagem de dinheiro. “A atuação nesse setor não pressupõe ausência de risco nem flexibilização de controles”, disse em nota.
O Banco Topázio atendia empresas menores. A instituição financeira afirmou que o relacionamento foi estabelecido com operadores devidamente autorizados pelo Ministério da Fazenda, observados os processos internos de avaliação de risco, e que adotou as medidas necessárias após a publicação da MP.
Enquanto isso, o PicPay abriu seu próprio site de apostas, o Joga Junto. A empresa decidiu não comentar.
ESTRATÉGIA
O BTG decidiu se posicionar no segmento ainda em 2024, quando o Ministério da Fazenda publicou as regras para depósitos em bets, pagamento de apostas e saque de prêmios. Esses sites ganharam uma autorização provisória, com a regulação efetiva chegando apenas em 2025.
O processo de regulamentação exigia que as bets abrissem uma conta de depósito em um banco e fizessem um aporte de R$ 5 milhões, como garantia para os apostadores em caso de bancarrota.
Para atender às bets, o BTG foi o único grande banco que desenvolveu uma solução de conta-bolsão própria para o setor, aquela com capacidade de abrigar milhares de contas individuais, uma por apostador, como exige a legislação brasileira.
Veja quais das dez maiores bets têm vínculos públicos com o BTG
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Betano
Tem conta e fechou empréstimo de 144 milhões de euros
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Bet365
Indica conta no BTG em documentos da Fazenda
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Superbet
Fez empréstimo com BTG e tem o banco como fiador em imóveis
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SportingBet
Indica conta no BTG em documentos da Fazenda
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Esportes da Sorte
Não indica instituições financeiras de forma pública nos documentos da Fazenda
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Blaze
Tem cinco contas-correntes no BTG
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BetNacional
Teve compra por multinacional financiada pelo BTG
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EstrelaBet
Não indica instituições financeiras de forma pública nos documentos da Fazenda
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CassinoPix
Não indica instituições financeiras de forma pública nos documentos da Fazenda
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Bet7K
Não indica instituições financeiras de forma pública nos documentos da Fazenda
Desde 2025, o banco fechou uma série de contratos, mostram atas registradas em juntas comerciais. Segundo executivos do setor de apostas, os créditos, tomados lo go antes da Copa do Mundo, foram usados para celebrar contratos de patrocínio e de transmissão, além de outros investimentos das multinacionais no Brasil.
Em um empréstimo em abril de 2026 à Betano, maior site de apostas em atividade no Brasil, sob controle do grupo grego Kaizen, o banco fez uma transação de 147 milhões de euros (R$ 874 milhões na cotação atual). O dinheiro foi enviado à sede da Kaizen em Atenas, por meio da filial do BTG em Luxemburgo.
Documentos do último mês de junho na junta comercial de São Paulo também mostram uma dívida da Superbet, o terceiro maior site do país, com o BTG, cujo valor não foi detalhado. A garantia desse contrato, que exigiu o aval do conselho da bet, são faturamentos futuros, com base em um laudo da consultoria empresarial Apsis, que avalia a operação brasileira da multinacional em R$ 1,1 bilhão.
Ata de junho de 2025 mostra o BTG ajudando a Superbet a superar a desconfiança imobiliária —em 2024, ao menos três grandes bets relataram locações rompidas após o locador descobrir sua atividade.
O documento registra aval para garantias de aluguel de salas na Barra da Tijuca, no Rio.
Formulários protocolados na Bolsa de Nova York também mostram que o banco brasileiro financiou a compra de 56% da Betnacional pelo conglomerado de jogo Flutter por R$ 1,981 bilhão.
Documentos entregues pela Flutter ao Ministério da Fazenda indicam que a empresa também usa o BTG para movimentar dinheiro de apostadores durante o jogo.
O balanço financeiro da Blaze obtido pela Folha indica que o cassino online mantém cinco contas-correntes no BTG, que concentram os principais ativos da empresa, e outra no Topázio.
O BTG ainda atende a SportingBet, controlada pela empresa inglesa Entain e dona da quarta maior fatia do mercado brasileiro, segundo documentos entregues à Fazenda. A bet reportou um lucro de R$ 310,7 milhões em 2025.
Documentos ainda indicam uma relação do BTG com a Bet365, segunda marca mais relevante no mercado brasileiro, embora a reportagem não tenha conseguido identificar as transações.
A Bet365 fez operações com o Ouribank quando aumentou o capital social de sua filial no Brasil de R$ 60 milhões para R$ 247 milhões. Em nota, o Ouribank diz que, devido à sua atual política de compliance, não ofereceu contas transacionais para empresas de apostas, mas realiza operações de câmbio —como aporte de capital estrangeiro no capital social das bets e pagamento de fornecedores de tecnologia no exterior.
FORA DO JOGO
Alguns casos ilustram o receio que os grandes bancos mantiveram mesmo depois da regulação. Em 15 de junho de 2026, o ex-CEO da GaleraBet Marcos Sabiá entrou com uma ação contra o Santander após o banco cancelar as contas dele e de familiares. No processo, Sabiá afirma que seu gerente apontou “movimentação incompatível com sua renda ou patrimônio”.
Na defesa, o Santander disse ter encerrado o vínculo por desinteresse comercial, amparado por normas do Banco Central.
Segundo fonte familiarizada com as políticas do banco, o Santander não atende bets nem pessoas ligadas a elas, como Sabiá.
Após operação policial em 2024, o Itaú deixou o setor; a Esportes da Sorte passou ao Banco Topázio.
Procurados pela reportagem por email e telefone para comentar o assunto, Itaú Unibanco e Santander não retornaram. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal disseram que já atenderam companhias do setor, mas passaram a dispensar clientes devido a mudanças em sua política. O Bradesco afirmou que aceitava bets, mas tem regras próprias para o setor, sem especificar.
noticia por : UOL


