Antonio Tabet passou boa parte da carreira fazendo humor justamente onde muita gente recomendaria cautela. Nos tempos do Kibe Loco, ainda nos primórdios da internet brasileira, o comediante ganhou notoriedade com montagens, provocações e brincadeiras que colocavam políticos, celebridades e até veículos de imprensa na mira.
Depois, como um dos criadores do Porta dos Fundos, ajudou a transformar a sátira religiosa em uma das marcas do grupo, com vídeos que fizeram de Jesus, Maria, Deus e episódios bíblicos matéria-prima para um humor de gosto no mínimo duvidoso — e provocaram reações de grupos católicos e evangélicos.
É por isso que uma publicação recente de Tabet, em setembro de 2026, chamou a atenção. Em meio à falsa informação de que Flávio Bolsonaro pretenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, o humorista recorreu justamente à defesa da imagem da santa para atacar a família Bolsonaro. A postagem acabou impulsionando uma disputa judicial sobre a retirada do ar de conteúdos relacionados ao episódio.
A contradição fica explícita nesse episódio. O homem que participou de sátiras pesadas contra figuras centrais do cristianismo, ora retratando Jesus como homossexual namorado de Lúcifer, ora retratando Maria como uma adúltera desbocada, agora invoca Nossa Senhora em uma briga política. Nada era sagrado para os especiais do Porta dos Fundos, do qual Tabet é um dos fundadores. Agora, ele pede respeito à imagem da mãe de Jesus.
Mais recentemente, Tabet parece ter descoberto que a vida pública exige mais do que fazer piada. O humorista passou a se aventurar com frequência no comentário político e assumiu uma defesa explícita das iniciativas do Supremo Tribunal Federal no combate às chamadas fake news.
Não por acaso, em agosto de 2025, Tabet foi um dos influenciadores convidados para o “Leis e Likes”, programa promovido pelo próprio STF para aproximar a Corte de criadores de conteúdo e discutir Justiça, cidadania, direitos fundamentais e influência digital. A visita rendeu imagens bem diferentes do antigo Tabet do Porta dos Fundos: diante dos ministros e das câmeras do Supremo, o humorista passou a falar como uma espécie de comentarista político informal.

A origem do Kibe Loco e o humor sem freios
Antes de colocar uma das maiores referências do catolicismo brasileiro no centro de uma crítica política, Tabet foi o responsável pelo portal de humor Kibe Loco. Criado na década de 2000, o site ficou conhecido por trazer montagens, sátiras e brincadeiras com personalidades públicas. Na época, provocar, constranger e testar os limites do humor era justamente parte do negócio.
A falta de preocupação de Tabet com os direitos autorais levou à criação de uma palavra nova na internet para se referir a quem copia e posta conteúdos alheios: o verbo “kibar”, justamente por causa do site gerido por ele. Em uma entrevista à revista Trip, o humorista disse que “isso é coisa de hater” e que os críticos fazem parte “da caixa de gordura da humanidade, do chorume”.
Na TV, Tabet seguiu explorando o constrangimento como humor
Com o sucesso na internet, Tabet foi para a TV fazer parte do Caldeirão do Huck com o quadro o quadro “Kibe Loco TV”. No papel, o humorista dizia que pretendia fugir das fórmulas tradicionais da televisão e provocar reações diferentes no público, apostando no improviso. Na prática, o quadro trazia câmeras escondidas e constrangimento alheio como mote das piadas. A parceria durou cinco anos.
As pegadinhas também foram o motor de outro projeto de Tabet na TV, o “Kibe Show”, apresentado no canal pago TBS entre os anos de 2015 e 2017. Nas três temporadas, o humorista criava “armadilhas” para seus convidados na forma de uma conversa supostamente informal, feita antes da gravação para valer.
Atores fingiam ser eletricistas, maquiadores ou diretores atrapalhados que sempre faziam algo para confundir o entrevistado. O clima descontraído servia para deixar os convidados à vontade para acabar revelando opiniões, fofocas ou confidências que jamais seriam ditas em entrevistas normais. E eram justamente esses trechos que iam ao ar no programa, expondo os entrevistados ao ridículo.
Kibe Loco fez montagem de senadora do Psol na capa da Playboy
Estabelecer limites entre o engraçado e o constrangedor nunca foi um dos pontos fortes de Tabet. Um dos episódios que mostra o quão turva era essa fronteira ocorreu ainda no começo da carreira dele, quando Tabet publicou em seu site uma montagem da então senadora pelo Psol de Alagoas Heloísa Helena em uma capa falsa da revista Playboy.
“Finalmente tiramos a camisa branca de Heloísa Helena e colocamos essa ‘máquina pública’ para funcionar”, dizia a chamada da falsa capa, emulando o tom utilizado pela revista real em suas edições.
A “piada” não foi bem recebida pela vítima da montagem. Helena chorou durante uma sessão no Senado e chamou a “brincadeira” de Tabet de “montagem horrorosa e desqualificada”.
“Isso é um escândalo. Há 20 anos sou vítima de perseguição implacável da imprensa. Eu sei o quanto de machismo e preconceito há nisso. Sou uma mulher digna e uma mãe de família exemplar”, protestou, em lágrimas.
Internet se tornou campo fértil para Tabet e suas “piadas” com a religião
O campo de provocação foi ampliado de forma exponencial com a criação do Porta dos Fundos. O grupo foi a forma encontrada por Tabet e seus colegas de empreitada para divulgar materiais que seriam impublicáveis na televisão, aberta ou fechada. E uma das matérias-primas desses vídeos era a religião.
Tabet nunca escondeu que foi criado em uma família católica e educado em uma escola ligada à Igreja. Mas nem mesmo essa fundação impediu que a religião se tornasse um dos alvos recorrentes do Porta dos Fundos. E a partir de 2013 o grupo passou a transformar seus especiais de Natal em uma espécie de tradição anual.
O primeiro já apresentava uma releitura satírica da vida de Jesus. Tabet fazia José, enquanto Gregório Duvivier interpretava Jesus e Júlia Rabello, Maria. A própria descrição oficial do Porta dos Fundos apresentava a produção como uma “videografia não autorizada” da vida de Jesus e fazia questão de classificá-la como obra de humor e sátira religiosa.
Tabet tentou recontar a história da Arca de Noé, uma releitura da história bíblica recheada de referências contemporâneas e situações absurdas, e chegou a adaptar a passagem da Santa Ceia como uma paródia do filme “Se Beber Não Case”, onde os apóstolos acordam de ressaca e percebem que Jesus desapareceu.
Especial de Natal de 2019 gerou protestos
Em 2019, porém, o Porta dos Fundos levou a sátira religiosa ao extremo com o especial “A Primeira Tentação de Cristo”. O curta, feito em parceria com a Netflix, apresentava Jesus aos 30 anos retornando do deserto e recebendo a revelação de que José não era seu pai biológico. A produção também introduzia um relacionamento homoafetivo envolvendo Jesus. Tabet fazia parte do elenco e interpretava Deus.
O especial provocou protestos de grupos cristãos e uma petição pela retirada da produção chegou a reunir milhões de assinaturas. Em dezembro daquele ano, a sede do Porta dos Fundos foi atacada com coquetéis molotov. Ninguém ficou ferido, e a polícia passou a investigar a relação do atentado com a produção.
Tabet, entretanto, nunca tratou o especial como um erro. Em entrevista à revista Veja em 2024, o humorista reconheceu que “pisou na bola” com algumas piadas. Mas disse que o grupo não pesou a mão nos vídeos satíricos com a religião. “De jeito nenhum. Os especiais de Natal têm sempre alguma ligação com religião. Já fizemos uma sátira com um Jesus festeiro e ganhamos o Emmy. Para nós, o fato de o personagem ser ou não gay não faz diferença e não deveria fazer para ninguém”, afirmou.
A reportagem procurou o humorista Antonio Tabet para que ele desse sua versão sobre alguns dos fatos trazidos nessa reportagem, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestações.
Tabet achou que pedido de retirada de postagem por ministro do STF era piada
Em meio à controvérsia sobre uma informação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, Tabet publicou no X uma imagem da santa acompanhada da frase: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!” A postagem não citava nominalmente Flávio Bolsonaro.
A campanha de Flávio pediu a retirada do conteúdo. O ministro André Mendonça, do TSE, determinou a remoção e estabeleceu multa em caso de descumprimento. Posteriormente, o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou a decisão e autorizou a republicação. Tabet voltou a publicar o conteúdo. Posteriormente, o ministro Luiz Fux derrubou a decisão de Dino e restabeleceu a medida tomada por Mendonça.
O próprio humorista passou então a sustentar que o problema central era a liberdade de expressão. Em entrevista ao UOL, afirmou ter inicialmente pensado que a retirada da postagem era uma piada e depois demonstrou indignação com a decisão. Também questionou enfaticamente a classificação das publicações como fake news.
Tabet tenta deixar passado de pegadinhas para trás
Agora, a pose de comentarista sério adotada por Tabet chegou a um teste mais incômodo. Depois da publicação, Tabet gravou um vídeo para explicar por que aquilo não deveria ser tratado como fake news.
A postagem original não citava nominalmente Flávio, mas estava inserida numa onda de publicações ligadas à narrativa falsa e desmentida pelo próprio candidato. O gancho para a fake news se baseava na reciclagem de um projeto de 2007, arquivado em 2008 e sem nenhuma relação com qualquer projeto ou proposta do candidato do PL.
No vídeo, Tabet tenta reconstruir a história com a solenidade de quem está apresentando uma tese jurídica, recorrendo a uma sequência de distinções e raciocínios para afastar de sua própria postagem a responsabilidade pela narrativa que ajudou a alimentar.
É um exercício retórico curioso: o humorista que durante anos viveu justamente de caricaturar a política agora aparece diante da câmera para explicar, com ares de professor, por que aquilo que publicou não deveria ser chamado de fake news.
Tabet tenta se apresentar como uma figura pública responsável e deixar o humorista das pegadinhas no passado. Mas o caso de Aparecida mostra que ele não mudou tanto assim.
noticia por : Gazeta do Povo






