Tolices: punir por pichar estátua com batom? Golpe é pior do que homicídio?

Como é? Débora Rodrigues dos Santos estava numa praça qualquer, viu lá uma estátua e lhe deu na veneta: “Quer saber? Vou escrever nessa coisa aí ‘perdeu, mané'” Alguém até a indagou a respeito: “Mas o que isso significa?…” Ela não soube responder porque atendeu a um impulso, desses a que qualquer um estaria sujeito, como a reagir a uma mensagem do além. Foi assim que aconteceu? A julgar por certa argumentação tosca que anda por aí, inclusive e especialmente em setores da imprensa, sim. Ocorre que não.

Trata-se de um juízo vergonhoso. Dado o ato individualizado, indago:
– que estátua era aquela?;
– qual o seu significado?;
– em que circunstância se deu a pichação?;
– o que a tal senhora fazia naquela local?:
– que relação a sua conduta, comprovada e inequívoca, tinha com os eventos daquele dia?;
– por que aquelas pessoas estavam lá?:
– qual o sentido daquela frase?

O ataque às respectivas sedes dos Três Poderes foi brutal. A suposição de que se tratou de uma irrupção sem nenhuma organização e sem conexão com a tramoia golpista já foi devidamente desmoralizada pelos fatos. Alguns dos figurões da intentona malsucedida tinham contato direto com os acampados e com suas lideranças. Nesse contexto, o batom na estátua entra como um emblema dos eventos daquele dia. E, não por acaso, era um também emblema do Judiciário que se estava conspurcando. É uma estupidez, uma aberração e uma agressão à democracia e à independência do Poder Judiciário que se resuma o episódio a “batom numa estátua”.

“Ah, mas a pobrezinha, mãe de duas crianças, nem sabia direito a importância daquilo tudo e o que estava fazendo…” É mesmo? Vale lembrar. O ministro Roberto Barroso, presidente do Supremo, estava em Nova York no dia 15 de novembro de 2022 quando foi importunado por um bolsonarista, que o filmava num celular. Incomodado, o ministro respondeu: “Perdeu, mané, não amola!” Era o mês em que a conspiração golpista fervia.

O “perdeu, mané” na estátua que simboliza a Justiça e o próprio tribunal tornou-se, dado o contexto, uma espécie de retaliação e de anúncio revanchista. O “mané” ali era o tribunal, era a Justiça, era o estado de direito. A autora da mensagem, embalada por outros golpistas, desafiava a institucionalidade: “Vocês todos perderam; nós ganhamos; tanto é assim que estamos aqui, quebramos tudo, e agora vou deixar uma mensagem para os legalistas que acabamos de derrotar: ‘perdeu, Mané!'”.

“Ah, mas se trata de uma cabeleireira!” E daí? Isso deveria nos dizer alguma coisa? Ao escolher o alvo Débora sabia o que estava fazendo, não? Afinal, aquela pichação em si, mais do que o ataque a outras obras de arte e a depredação das instalações e dos móveis, indicava que a pretensão era não apenas derrubar o presidente, mas cassar também a autoridade do Supremo — coisa que Bolsonaro procurou desde o primeiro dia de mandato.

noticia por : UOL

segunda-feira, 6, julho , 2026 05:52
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