O soluço como metáfora nacional

Começa com uma contração do diafragma, depois vem um fechamento brusco da glote que atrapalha o movimento respiratório e acaba com um involuntário hic. A ciência sugere que o soluço pode ser um reflexo ancestral herdado de espécies aquáticas, um resquício dos tempos em que respirávamos por guelras. Em algum ponto da história, pelo jeito, já fomos girinos —isso explica muita coisa.

A vítima segura a respiração, bebe água de ponta cabeça, leva um susto, e nada. O soluço só vai embora quando, e se quiser. Charles Osborne que o diga: passou 68 anos soluçando, de 1922 a 1990. Seus soluços sobreviveram a guerras, passaram pelos Beatles, viram o homem pisar na Lua, celebraram os gols de Pelé e entraram no Guiness Book. Um exemplo de resistência.

Recentemente, a biologia primitiva do corpo decidiu intervir no debate público. Armou uma crise de soluços que suspendeu o discurso de quem tanto se acostumou a interromper. Foi um manifesto, como se dissesse: “Aqui quem manda sou eu. Você fala até onde eu deixar. A narrativa não é sua, agora sou eu que estou com a palavra”. Às vezes, o corpo assume esse papel de opositor e nós somos impotentes para contrariar suas vontades.

Vimos um ex-chefe de Estado reduzido a refém do próprio diafragma. Em uma ligação com um amigo fiel (com o perdão do trocadilho), divulgada quarta-feira (20), o ex-presidente surgiu soluçando a cada três segundos. A conversa, vale dizer, de altíssimo nível, era interrompida por uma série de hic. Ele tentava falar. Mas a vontade própria do corpo vinha lembrá-lo de que até a retórica tem limites físicos. Foi inevitável achar uma certa graça, não da doença, mas da metáfora que a fisiologia ofereceu.

De soluço em soluço, ele tentava emendar frases. Como se a interrupção constante fosse também o retrato de uma vida pública feita de espasmos, arroubos e tropeços. Sem condições de continuar, foi obrigado a cortar a conversa. Talvez o recado seja mais ácido do que o próprio refluxo: por mais barulho que se faça, às vezes o silêncio não vem da censura nem de ordens judiciais, mas de um maldito (ou bendito, dependendo do caso) espasmo. A verdade é que nem a glote aguenta engolir determinados discursos.

Platão já havia notado, no Banquete, a potência de um soluço. Aristófanes, o comediante, é tomado por uma crise durante o simpósio. Não consegue falar e é obrigado a interromper o fluxo solene dos discursos sobre o amor. A imagem é cômica, mas não gratuita: o soluço, entendido como uma crítica velada aos oradores anteriores Fedro, Pausânias, Erixímaco (que enquadraram o amor em definições estreitas), é também um sinal inoportuno e incontrolável que desmoronou toda a pompa do orador. Quando enfim recupera a voz, Aristófanes faz a narrativa mais memorável da noite.

Séculos depois, continuamos a viver sob o mesmo império do diafragma, só que sem discursos memoráveis sobre o amor, sem banquete, sem comédia.

Sempre há um espasmo à espreita, pronto para nos lembrar que o corpo, assim como a história, tem verdades das quais não dá para fugir. Para quem tenta marchar por cima da nossa história e pisotear valores fundamentais, a natureza cuida de dar o seu contragolpe, nem que seja com um desconcertante hic.


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noticia por : UOL

segunda-feira, 3, agosto , 2026 04:38
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