A herança que divide irmãos

Um piano de cauda em uma sala pequena pode ser um presente maravilhoso, mas também um problema. Ele é belo, valioso, mas ocupa espaço e não pode ser dividido. Assim acontece com muitos patrimônios familiares: o bem mais importante é único e indivisível. Aristóteles já lembrava que a justiça não é tratar todos de forma igual, mas dar a cada um o que lhe é devido. Essa frase ganha ainda mais peso quando pensamos em herança.

Recebi ontem a mensagem de uma leitora que traduz bem esse dilema. Ela me escreveu: “Tenho uma bela casa e dois filhos. Um deles já falou que deseja permanecer na casa, o outro não. O que fazer com a herança se não tenho recursos para comprar outra casa e viver?”

A questão não é isolada. Boa parte da riqueza das famílias brasileiras está de fato concentrada em imóveis. Segundo o IBGE, mais de seis em cada dez famílias já vivem em casas próprias, o que torna o imóvel o principal patrimônio em muitas heranças. Isso ajuda a explicar por que a divisão de bens costuma girar em torno da casa da família, e não de aplicações financeiras.

No caso da leitora, a primeira solução possível seria a venda do imóvel. Os recursos obtidos seriam divididos de forma objetiva entre os filhos. Mas essa saída ignora o desejo de um deles de preservar a casa como lar, o que pode gerar frustração e até ressentimento. Adicionalmente, a atual dona também deseja viver em seu imóvel até o fim da vida. Portanto, a venda antecipada não é uma opção.

Outra alternativa é a compensação. O filho que deseja permanecer no imóvel pode comprar a parte do irmão, seja com recursos próprios, seja com financiamento ou até mesmo em parcelas acordadas entre eles. Esse arranjo mantém a casa dentro da família e equilibra a partilha, mas exige capacidade financeira de quem assume o imóvel. O problema é que usualmente aquele que deseja permanecer morando no imóvel costuma ser o que tem menor capacidade financeira, pois ainda nem saiu do guarda-chuva dos pais.

A terceira opção é a copropriedade, com ambos permanecendo donos da casa. Aquele que usa o bem, pagaria metade de um aluguel competitivo pelo uso do imóvel. No papel, parece viável. Entretanto, na prática, essa alternativa costuma ser fonte de atritos: quem paga as contas, como reajustar e renegociar o aluguel em caso de valorização, quem decide reformas e manutenções, quem arca com imprevistos? O risco é que a relação patrimonial se torne mais pesada que o próprio patrimônio.

Existem ainda instrumentos jurídicos que permitem organizar essa transição. Um testamento possibilita que a mãe defina previamente como será a partilha, dentro dos limites da lei. Já a criação de uma holding patrimonial pode facilitar a gestão e reduzir disputas e custos do inventário. Essas soluções exigem planejamento e, muitas vezes, apoio profissional, mas podem trazer clareza e segurança.

Por fim, há o caminho do seguro de vida. Uma apólice pode garantir ao filho que não ficará com o imóvel uma compensação financeira equivalente. Assim, evita-se a venda forçada, mantém-se a equidade e se preserva o desejo de quem quer viver na casa.

No fundo, o dilema vai além das finanças: um filho valoriza o lar como espaço de memória e afeto, enquanto o outro pode preferir liquidez e autonomia. Encontrar equilíbrio entre esses dois mundos é o verdadeiro desafio. Decidir em vida, com diálogo e planejamento, é a forma mais sábia de preservar não apenas o patrimônio, mas sobretudo os laços familiares.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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noticia por : UOL

quinta-feira, 6, agosto , 2026 01:39
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