Onde estão os homens? Onde estão os homens?

Onde estão os homens? Onde estão os homens? Cadê a indignação masculina? Diante da sequência de feminicídios na última semana, percebi um movimento bastante interessante e novo nas redes: muitas mulheres, muitas feministas cobrando os homens e pedindo que se posicionem e saiam do conforto da neutralidade.

Pois é, tem algo de novo no ar no meio dessa barbárie. Na última década, as principais reações públicas de revolta e indignação diante da violência contra mulheres vieram, em grande parte, de outras mulheres. Somos nós que fazemos campanha, lotamos manifestação, escrevemos textos. Eles, em geral, ficam quietos. É um silêncio que pode ser culpa, defesa, medo de falar bobagem –no fim, funciona como omissão.

as eu vou colocar o dedo na ferida. Muitas vezes, o conceito de “lugar de fala” foi usado para impor um “lugar de cale-se”, expressão que rendeu um cancelamento à psicanalista, jornalista e escritora Maria Rita Kehl, que apontou o risco desse tipo de veto. Deixamos de produzir laços sociais e reforçamos a estagnação do diálogo. Em vez de convidar para a conversa, levantamos uma placa de “não entre”.

Dá para entender por que isso aconteceu. Depois de séculos de opressão e apagamento, de sermos interrompidas ou ignoradas, as mulheres quiseram falar sem ter homem para corrigir, explicar, tutelar cada frase. Mas, em muitos espaços, o preço foi empurrar os homens para um canto confortável: “já que não posso falar, não faço nada”.

Silêncio virou álibi.

Lembro de um podcast do qual participei, anos atrás, em que o apresentador perguntou à outra feminista se homens eram bem-vindos na página dela. A resposta veio rápida: “São, desde que não abram a boca”. Não era piada, mas um desabafo que considero compreensível —e, ao mesmo tempo, retrato do impasse. Como queremos que eles mudem se a regra é ficar de fora? Como esperar que eles entendam tantas demandas sociais se não participam do debate? Ilusão achar que eles se candidatariam a alunos ouvintes na aula do feminismo.

É claro que esse “cale-se” não se compara ao silenciamento histórico imposto às mulheres. Homens não perderam emprego, guarda dos filhos ou a vida por terem opinião sobre gênero. Mas muitos se acomodaram numa posição cômoda: não estudam o tema, não confrontam amigos, não questionam piadas, não encaram o próprio machismo. Assistem à discussão de longe, como se fosse um problema das mulheres com outros homens, nunca deles.

Só que não se faz revolução sozinho. Não vamos mudar a cultura da violência sem que os homens se tornem aliados. E aliado não é o sujeito perfeitinho. É o cara disposto a ouvir, recuar, aprender, pedir desculpa, admitir que já errou e, principalmente, intervir quando vir outro homem passando do limite.

Por isso, o chamado que tantas mulheres fizeram nesta semana não é uma cobrança moralista. É um convite. Em vez de “lugar de cale-se”, o que oferecemos é lugar na conversa e, sobretudo, lugar de ação. Não dá mais para ser espectador da barbárie: ou vocês entram na roda, ou a roda não gira.

Nós, mulheres, precisamos abrir essa roda. O discurso de “guerra dos sexos”, hoje embalado por influenciadores red pill, ganha eco porque é ali que muitos homens têm encontrado acolhimento, narrativa, identidade. Se os únicos espaços que os recebem de braços abertos são justamente os que nos odeiam, o resultado não deveria surpreender ninguém.

Quando perguntamos “onde estão os homens?”, estamos dizendo também: estamos aqui. Não para aliviar a responsabilidade deles, e sim para construir uma aliança mínima contra todas as desigualdades, não apenas contra a violência. Uma sociedade melhor para as mulheres é, necessariamente, um lugar melhor para os homens. Que eles atendam a esse chamado não para se justificarem, mas como parceiros dispostos a mudar o mundo em que vivem —e o tipo de homem que escolhem ser.


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noticia por : UOL

domingo, 16, agosto , 2026 04:52
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