A EFB Regimes Especiais, liquidante do Banco Master, apresentou à Justiça dos Estados Unidos detalhes sobre como o dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro era utilizado fora do Brasil. Na sexta-feira (13), os advogados do liquidante relataram as compras e tentativa de venda de quatro obras de arte avaliadas em quase US$ 20 milhões (R$ 103,9 milhões pela cotação atual).
Entre os quadros mais valiosos estão a obra Mousquetaire, de Pablo Picasso, adquirida por Vorcaro em 2019 por US$ 6,4 milhões (R$ 33,2 milhões). Outras duas são do artista Jean-Michel Basquiat, sem título: uma comprada em 2021 por US$ 5 milhões (R$ 26 milhões) e outra em 2024 por R$ 4,5 milhões (R$ 23,4 milhões). A quarta obra, o quadro Tulip Fever, de Frederic Anderson, foi adquirida por Vorcaro em 2022, por US$ 25,2 mil (R$ 130,9 mil).
Segundo os documentos peticionados no Tribunal de Falências do Distrito Sul da Flórida (EUA), Vorcaro utilizou três empresas nas negociações: a Old Fort Financial (posteriormente renomeada de Mosaic Financial) e a Artress Ltd., ambas sediadas nas Bahamas; e a Kodiak Trust Company, empresa registrada no Alasca.
A intermediadora de Vorcaro nessas compras era Luciana Junqueira, uma design de interiores de luxo baseada em Miami, e o consultor jurídico Andreas Toth, que organizava os contratos. Era Junqueira quem fazia a ponte com galerias de arte, principalmente a Van de Weghe (onde as obras foram adquiridas), pesquisando obras que pudessem interessar o ex-banqueiro, que era seu cliente.
Segundo o liquidante, o dinheiro saía do Brasil por meio de fundos de investimento ligados a Vorcaro e o Banco Master. Especificamente na documentação de compra de um dos quadros de Basquiat, o liquidante encontrou referências a uma conta da Mosaic que já recebeu US$ 80 milhões diretamente do Banco Master.
Procurada pela reportagem, a defesa do ex-banqueiro não quis se manifestar .
No processo estão anexos diversos prints de conversas entre Junqueira e um dos funcionários da galeria Van de Weghe. Ela relata quais quadros Vorcaro tinha interesse e o preço que ele indicava disposição de pagar.
Em uma das conversas, Junqueira brinca que Vorcaro queria saber qual era o significado de uma das obras de Basquiat que ele estava considerando comprar, com fundo preto e um desenho central que se assimilava à imagem de um demônio.
Em outro trecho, Junqueira pede ao funcionário da galeria que ele apresente mais opções de quadros, pois Vorcaro queria uma apresentação dela para definir quais obras comprar. O ex-banqueiro também teria relatado interesse nas obras de Andy Warhol.
“O problema é que ele não sabe o que quer. Ele me pediu para enviar opções e, se gostar, vai comprar”, escreveu a designer de interiores em uma das mensagens.
Em setembro de 2025, cerca de dois meses antes da liquidação do Master e da primeira prisão de Vorcaro no Brasil, Junqueira solicitou à galeria Van de Weghe uma avaliação de mercado das quatro obras.
Ela não cita explicitamente o interesse de Vorcaro nas vendas, mas vale lembrar que até aquele momento o ex-banqueiro tentava viabilizar a venda do Banco Master e levantar dinheiro para pagar dívidas da instituição.
O quadro de Picasso foi avaliado em US$ 7,8 milhões (R$ 40,5 milhões), os Basquiat receberam valores de US$ 6,5 milhões (R$ 33,7 milhões) e US$ 5,5 milhões (R$ 28,6 milhões) e o Tulip Fever em US$ 35 mil (R$ 181,8 mil).
Cerca de um mês após a conversa, em 14 de outubro, Junqueira voltou a procurar a galeria para informar que Vorcaro queria vender as quatro obras. Foram assinados contratos de consignação para os quadros de Basquiat e as obras foram transferidas de Miami para um depósito da galeria em Nova York.
Entre a consignação e a prisão, surgiu uma oferta de US$ 4,7 milhões (R$ 24,4 milhões) por um dos Basquiat, mas Vorcaro negou o valor e disse que só aceitaria valores acima de US$ 5 milhões. Mais adiante, já no dia 16 de novembro, um dia antes da prisão de Vorcaro, o ex-banqueiro recuou e disse à Junqueira que aceitaria os US$ 4,7 milhões.
Junqueira também relatou nas mensagens que tinha um comprador brasileiro para o Mosqueteire, de Picasso, e o negociava por US$ 8 milhões (R$ 41,5 milhões). Ela indicou que a compra estava quase garantida, mas ainda faltavam detalhes para fechar o negócio.
Após a prisão de Vorcaro, as negociações esfriaram. O representante da galeria de Nova York disse que seria necessário realizar um encontro com o representante jurídico de Vorcaro, pois a companhia estaria, naquele momento, em uma “situação delicada”.
Em 1º de dezembro, a designer escreve “nosso cliente está fora”, indicando que Vorcaro foi solto, e explicou que ele seguia sob investigação. Ela pede ajuda sobre como eles vão proceder com as vendas, porém, no período, nenhum dos dois conseguiram avançar.
Na virada do ano, em janeiro de 2026, Junqueira comenta que Andreas Toth avisou que eles precisavam concluir as vendas, mas não obteve da galeria um posicionamento claro sobre o caso.
Não existem indicações de que as obras foram vendidas. Até o momento, o liquidante intimou 16 galerias de arte, incluindo as renomadas Sotheby’s e Christie’s, para rastrear o paradeiro exato das obras e identificar se outras aquisições foram feitas por Vorcaro nos EUA.
A EFB tenta mapear todo o patrimônio de Vorcaro nos Estados Unidos. O objetivo é evitar que intermediários do ex-banqueiro façam a venda dos ativos, que serão utilizados no pagamento de credores do Master.
A coluna entrou em contato com Junqueira em seu perfil no Instagram, mas não obteve retorno até o momento.
noticia por : UOL


