Perdidos e Perdidos

Fui ao Achados e Perdidos da academia procurar pela minha garrafa térmica lilás. Tudo meu é dessa cor desde que tive uma enxaqueca pesada em Guarujá em 1991 (por conta da minha pressão que cai demais em qualquer cidade litorânea, e só mais tarde descobri que tenho disautonomia, que vem a ser um mau funcionamento do sistema nervoso autônomo) e minha mãe me levou para tomar sorvete (bons tempos em que eu não havia desenvolvido disbiose, que vem a ser um desequilíbrio na microbiota intestinal) em um quiosque e estava tocando “A Paz”, na voz de Gilberto Gil (e pensei o quanto eu amava a minha mãe bem na hora da estrofe “Onde o fim da tarde é lilás”).

A garrafa térmica lilás tem canudo integrado, porque li que a sucção ativa um mecanismo automático no cérebro ligado à infância, e essa sensação de prazer fundante, associada a um comportamento repetitivo como roer unhas, faz com que a gente beba mais água (e eu preciso aumentar meu consumo de líquidos pra não terminar o dia inchada a ponto de a mesma roupa que coloquei pela manhã não me servir mais no fim da tarde).

O fato é que cheguei ao Achados e Perdidos da academia e, enquanto o mocinho Dênis, de 19 anos, procurava minha garrafinha, contei todas essas coisas para ele. Contei ainda que minha mãe usou um vestido longo lilás no casamento da minha tia Ivone, e isso foi no mesmo ano em que a música “A Paz” tocava sem parar no rádio.

Dênis entrou em um site em que constavam umas trinta garrafinhas perdidas desde 2021. Em 2021 eu estava na merda, Dênis. Foi o ano em que me separei, fui demitida da Globo e arrumei encrenca naquela empresa gringa que me proibiu por contrato de mencionar seu nome.

Ele parecia interessado na quantidade indecente e inapropriada de dados e intimidades que eu soltava, contudo, tentei ir mais fundo em sua alma e, talvez por ser persecutória (um traço familiar que atravessa gerações e divide os parentes entre os que se mantiveram na mania de perseguição e os que cruzaram a fronteira se tornando paranoicos), fantasiei que Dênis me via como uma mulher meio velha e meio sozinha. Comentei que, na verdade, a depender do dia, sou também meio jovem e meio cheia de amigos. Confessei ainda que estava assim, falando sem parar, por causa da hipomania (diagnóstico que recebi recentemente e fez muito sentido). Já semana passada eu estava afundada numa tristeza esmagadora e desesperançosa, sem conseguir dizer uma única vogal. Eu estava melhor agora. Ele concordou.

Quando ia pedir desculpas a Dênis e antes de me matar de vergonha pelos próximos dias, ele me informou que precisaria ir até o terceiro andar buscar minha garrafinha lilás com canudinho. Mas, no caminho, aproveitaria pra fazer xixi. Contou que o banheiro de funcionários do terceiro andar era mais limpinho e que o xixi dele “andava muito lento”, por isso precisava se sentar no vaso. Disse que está tomando sulpirida há poucos meses (vive extremamente ansioso por conta do trabalho, da namorada que briga demais, da avó com demência, da dificuldade para dormir e de uma síndrome vertiginosa que herdou do pai, “um cara” com quem ele nem tem contato direito), e um dos efeitos colaterais do remédio era a retenção urinária (que vinha a ser, segundo Dênis, “mijar em pinguinhos”). Ele me trouxe a garrafa 37 minutos depois e sorrimos, concordando que o efeito do remédio era mesmo desagradável.


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noticia por : UOL

quinta-feira, 19, março , 2026 10:13
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