Neste ano de eleições, mais uma vez o tema da segurança pública ganha protagonismo. Dediquei quase 20 anos da minha vida profissional ao tema. A frustração é real. Não vim aqui para lamentar, mas, sim, propor uma autorreflexão coletiva, porque há caminhos possíveis.
Provocada pelo diálogo com colegas do grupo Derrubando Muros, destaco quatro pontos sobre como ainda podemos virar o jogo.
1. A elite. Ela precisa se ver como parte do problema e encarar segurança como uma questão coletiva. Mexer na segurança pública implica mexer em privilégios muito concretos: a carteirada, o jeitinho, os amigos no lugar certo. E isso se mistura com algo ainda mais difuso: a normalização do que não deveria ser normal; a pequena corrupção, que alimenta a grande, mas não é reconhecida como tal; o preconceito que orienta quem merece proteção e quem não merece.
O cansaço com o que não funciona abre espaço para salvadores da pátria, oferecendo soluções simples, ineficazes ou que só agravam o problema. Para romper esse círculo vicioso, a elite econômica e política deve reconhecer não só que é afetada pelo –tanto que paga por certo grau de segurança própria– mas, principalmente, a sua parte na insegurança pública.
2. Segurança é uma agenda de desenvolvimento. Há uma dissociação a ser superada: a ideia de que segurança é tema de “ordem pública” e que desenvolvimento é outra conversa. O crime organizado não recruta no vácuo, vai onde o Estado falhou, onde a escola não chegou, onde a oportunidade nunca apareceu. Segurança sempre foi pré-condição ao desenvolvimento e, portanto, uma das razões centrais que nos impedem de ser uma potência desenvolvida e não emergente. Enquanto isso não for compreendido de forma ampla, seguiremos tratando sintomas e ignorando causas.
3. Uma autocrítica é necessária. O campo progressista tem lição de casa a fazer. É legítimo denunciar as barbaridades cometidas por agentes do Estado. Mas é preciso se escandalizar com igual vigor diante dos muitos crimes que afetam a vida de pessoas comuns –as que vivem nas periferias, nos condomínios fechados, nas áreas rurais do país. A violência dos assaltos e a escalada de terror e extorsão impostos pelo crime organizado em diferentes territórios precisam ser enfrentadas tanto quanto a cultura de linha-dura dos órgãos de repressão policial. A aplicação da lei é inegociável. A impunidade é grande parte do problema. Vale mais a certeza da pena do que o tamanho dela e, no Brasil, estamos longe de garantir qualquer certeza. Isso tem que mudar.
4. Sim, ainda há muito o que fazer. Há espaço para inovação —e urgência nela. O empreendedorismo nesse campo enfrenta obstáculos que precisamos derrubar. A falta de recursos e a descontinuidade dos programas que dão resultado são alguns deles. O foco excessivo em tecnologia sem governança e sem investimento em qualificação dos agentes da segurança são outros.
As próximas eleições são uma janela real. Segurança pode e deve ser o central no debate, mas com inteligência, não com demagogia. Precisamos de líderes dispostos a se sacrificarem politicamente, mesmo que isso custe a reeleição, para fazer o que é certo: cortar na carne e combater de frente a corrupção policial e institucional, garantir que a lei valha para todos e que o Estado chegue onde o crime se instalou primeiro.
Sou, no fundo, uma pessoa otimista. Não por ingenuidade, mas porque conheço muita gente boa que entende do problema a fundo e sei que, com ética e os instrumentos certos, podemos virar o jogo. Mas para isso é importante entender que a busca pela segurança pública —a segurança para todos— é a solução.
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noticia por : UOL


