Entrar na eleição para mostrar que eleições não resolvem nada. Essa é, mais ou menos, a missão do rapper e professor de História Hertz Dias, pré-candidato à Presidência da República pelo PSTU.
Em entrevistas e podcasts, o maranhense de 55 anos define sua campanha como uma “tribuna política”. O objetivo, ele diz, não é ser “eleitoreiro”, mas sim utilizar o espaço para denunciar a “podridão do sistema”.
Para Hertz, estamos longe de conhecer de verdade a “festa da democracia”. Pelo contrário: vivemos numa ditadura da burguesia e do capital. No máximo, somos peças de uma “democracia dos ricos”, em que sobra para os trabalhadores apenas o direito de escolher, a cada dois anos, quem serão seus “carrascos”.
Professor da rede pública em São Luís, Hertz Dias não é exatamente um novato na política. Já disputou diferentes cargos ao longo dos anos, porém sempre com o desempenho pífio comum entre os candidatos do PSTU (o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, legenda de extrema esquerda fundada nos anos 90, a partir de uma dissidência do PT).
Em 2018, ele concorreu como vice-presidente na chapa de Vera Lúcia, que teve 0,05% dos votos. Dois anos depois, disputou a prefeitura da capital maranhense e alcançou 0,42%. Em 2022, candidatou-se ao governo do estado, chegando a 0,15% do eleitorado.
Agitação socialista
O PSTU hoje não tem representantes eleitos em nenhum dos níveis da administração pública (federal, estadual ou municipal). Mas quem se importa com resultados?
Para o partido, as eleições são apenas um instrumento de agitação e defesa de uma revolução socialista. Além, é claro, de uma forma de arrecadar dinheiro.
A legenda tem direito a uma fatia do Fundo Eleitoral, o chamado “fundão”, só por existir formalmente no Tribunal Superior Eleitoral. Em 2024, recebeu cerca de R$ 3,4 milhões, um valor pequeno se comparado ao das grandes siglas, porém suficiente para manter campanhas e alguma estrutura mínima.
Já o Fundo Partidário, aquele que banca o funcionamento contínuo dos grupos políticos, não caiu na mão dos trotskistas: sem atingir o desempenho mínimo nas urnas, o PSTU não tem acesso a esses recursos nem ao tempo de propaganda em rádio e TV.
Racionais e Malcolm X
Ciente de que não terá espaço nas mídias tradicionais, Hertz Dias começou a percorrer o circuito dos podcasts de esquerda para esquentar sua candidatura. Nessas entrevistas, ele costuma repetir sua trajetória: a do jovem pobre que encontrou no rap uma forma de se expressar e transformou sua experiência em militância política.
Nascido em São José de Ribamar, na região metropolitana de São Luís, filho de um motorista e de uma auxiliar de enfermagem, Hertz realmente é um dos pioneiros do cenário do hip-hop local. Foi um dos primeiros dançarinos de break do estado, fundou um movimento chamado Quilombo Urbano e é vocalista do grupo Gíria Vermelha.
Ele conta que largou a escola na adolescência por sofrer racismo. E só voltou depois de ouvir o grupo Racionais MCs e conhecer as ideias de Malcolm X (contato que também o aproximou do marxismo revolucionário). Mais tarde, formou-se em História pela Universidade Federal do Maranhão e seguiu para o mestrado em Educação.
Fim da propriedade privada
Essa mistura de rap, questão racial e marxismo está no centro de sua visão de mundo. E é por esse filtro que Hertz interpreta praticamente tudo.
Para ele, o racismo não é um desvio do sistema, e sim parte dele. “O capitalismo produz e reproduz cotidianamente o racismo”, afirma. E mais: a verdadeira libertação da população negra, na sua leitura, só acontece junto com o fim da propriedade privada.
O pré-candidato defende tomar as fortunas dos bilionários brasileiros, a estatização completa do sistema financeiro, a fusão dos bancos sob controle estatal e a suspensão imediata da dívida pública. No campo, a proposta é ainda mais radical: “expropriação sem indenização e sob o controle dos trabalhadores”.
As instituições atuais também entram na sua mira. O Congresso e o STF, por exemplo, são encaradas por ele como estruturas “inimigas da classe trabalhadora”.
No lugar da democracia representativa, Hertz propõe conselhos populares. Ou seja, decisões tomadas diretamente por trabalhadores em seus locais de convivência e trabalho.
Direita é “chorume da política”
Diante desse pacote de ideias, não é difícil entender o isolamento político do PSTU. O partido funciona quase como um fiscal ideológico geral, que critica tudo e todos ao redor.
“A extrema direita bolsonarista é o chorume da política brasileira”, diz Hertz. Mas seus alvos preferidos no campo conservador são os chamados “negros de direita” — especialmente políticos e influenciadores, que ele define como “intelectuais orgânicos subservientes a brancos racistas burgueses”.
Já o governo Lula é um gestor da “decadência do capitalismo”, que “governa para a burguesia”. E mesmo figuras mais jovens da esquerda, como Guilherme Boulos e Anielle Franco, são acusadas de “transformismo político” (quando, segundo ele, lideranças populares entram no sistema e acabam ajudando a mantê-lo).
Sobra ataque até para a turma woke que vê “racismo estrutural” em tudo. Para Hertz, o conceito popularizado por Silvio Almeida virou um “álibi” confortável: aponta o problema para uma lógica meio abstrata, mas não deixa claro de quem é a culpa (a elite econômica, é claro, inimiga de sempre do marxismo).
Confronto total
Na política internacional, o padrão é o mesmo: de confronto total. Começando pela defesa da destruição de Israel, que Hertz chama de “Estado escorpião” e “plataforma militar dos EUA”.
Sobre a guerra na Ucrânia, o rapper mantém uma posição curiosa. Ele apoia a resistência contra a “agressão imperialista da Rússia”, mas recusa qualquer apoio ao governo de Zelensky.
Aliás, ele também considera a China uma perigosa potência imperialista. Embora veja os americanos como “inimigos principais”, Hertz afirma que os chineses não são mais aliados da classe trabalhadora, e critica sua expansão comercial agressiva pelo mundo.
Em resumo, tudo para Hertz Dias passa pelo mesmo raciocínio: é preciso lutar a todo custo contra o capitalismo, que ele vê como o grande problema da humanidade. E nada de consenso ou moderação nessa jornada. “É impossível salvar o planeta tentando salvar o capitalismo. Tem que ser com revolução socialista”, afirma.
“Burguesia batedora de carteira”
Em entrevista à Gazeta do Povo, Hertz Dias explicou por entra em eleições que considera uma farsa. Para ele, estar na corrida é uma forma de contestá-la por dentro.
“Parte dessa batalha é denunciar o processo eleitoral, desigual e antidemocrático, onde o povo é apenas chamado a votar e não a governar, a tomar decisões”, afirma.
Sobre a proposta de acabar com a propriedade privada, o pré-candidato garante que seu alvo não é o dono do mercadinho, ou o trabalhador autônomo — e sim “o grande capital internacional, em que a burguesia brasileira entra como sócia menor e batedora de carteira”.
Pequenos empresários, ele diz, seriam até beneficiados, com acesso a crédito público e juros próximos de zero. No lugar do sistema atual, sua promessa é implantar uma “economia planificada, voltada para atender as necessidades do nosso povo”.
Questionado com relação aos riscos práticos de suas propostas, como a fuga de capitais ou a desorganização da economia, Hertz foi direto: empresas que ameaçarem sair do Brasil podem ir sem impedimentos.
“Mas todo o maquinário ficará em nosso país como forma de reparação por todos os anos de superexploração dos nossos trabalhadores, das nossas riquezas e de destruição do meio ambiente”, afirma.
Excesso de traições
Por fim, ao comentar o cenário político atual, o rapper e professor reforçou suas críticas à direita e à esquerda petista. Segundo ele, o Brasil segue preso entre dois projetos que servem à burguesia.
De um lado está o lulismo, “responsável pela decadência do país e que quer continuar administrando essa decadência”. Do outro, o que ele chama de “extrema direita”, cujo objetivo é “aprofundar a entrega de todas as nossas riquezas numa velocidade muito superior, nem que para isso seja preciso acabar com todas as liberdades democráticas”.
A esperança, segundo Hertz, está nos trabalhadores. Mas só se eles tiverem uma liderança à altura. “O maior problema da classe trabalhadora brasileira não é a falta de luta e ousadia, mas o excesso de traições impostas por direções que se renderam às benesses dos grandes palácios”, diz.
noticia por : Gazeta do Povo




