Enxaquekcakzxa

Levem a criança, espero pegá-la amanhã. Ela ainda não fez a lição e seu cabelo está cheio de nós. Cada vez que ela entra no quarto com sua energia invejável de 105 coelhos nenês brincando na primavera, eu preciso de três sublinguais contra enjoo. A última crise de enxaqueca me deixou cinco dias imprestável (foi semana passada), mas não é possível que duas seringas de cortisona não me coloquem de pé.

A médica do pronto-socorro ainda me deu anti-inflamatório, analgésico, relaxante muscular e mais remédio pra enjoo. Nada aconteceu. Até agora nenhuma melhora. Nada. Menti que estava boa, porque eu precisava voltar pra casa e insistir por três horas para que a menina comesse tudo do prato antes de pegar o sorvete de pistache. Durante uma crise de enxaqueca, não faz nenhum sentido ser mãe, não faz sentido a frase “todo o frango, depois o pistache”, mas existe algo em nós, mães, que opera a maternidade a despeito do que faz sentido. Então ela comeu tudo, fez a lição e ainda tiramos os nós do seu cabelo.

Piorei e agora estou meio cega do olho direito. Em cima do olho direito tem uma pata de elefante que esmaga meu cérebro. Minha filha me observa: “a palavra com que defini o papai é engraçado, a sua é cansada. Sempre cansada”.

Antes disso, eu já tinha tomado todos aqueles succinatos de sumatriptanas e cloridratos de naratriptanas e nada. A médica diz que vai dar morfina se eu voltar no hospital e tenho medo de tomar morfina porque sempre acho que, ou vou ficar doida demais e me esquecer de levar a criança na escola, ou vou ficar feliz demais e me esquecer de me levar pra casa pra levar a criança pra escola.

Minha enxaqueca é o Highlander das enxaquecas e fico orgulhosa de seu poder. Fico feliz por ela ser feminina, “a enxaqueca”, e ter essa força inabalável. Na real, só estou grogue de remédios?

Agradeço a quem puder ser filho de meus pais nas próximas horas, caso aconteça alguma emergência. Descubro que uma grande amiga mora a 20 metros da minha mãe e a imagino encoxando mamãe pra salvá-la de um pedaço de carne entalado na goela. Desde que se aproximaram dos 80 anos, os vejo como bebês prestes a cair do berço e entro em desespero se preciso me desconectar.

Amanhã e depois gravo seis programas. SEIS PROGRAMAS. Pessoas que vieram pra São Paulo pra serem entrevistadas por mim. É preciso estar de pé. Eu fico de pé, e a cama diz “ô, neném, nas trevas é preciso deitar na dor e esperar. Pensa em tudo e chora e depois se deixa morrer. É o convite do corpo pra você desligar”. Se eu tento lutar contra minha horizontalidade na penumbra, a enxaqueca me esculacha latejando mais forte e em mais lugares.

Meu namorado é jovem e penso que ele gostaria de estar em qualquer lugar que não fosse na penumbra de meu quarto, apertando um ponto do meu pé que é o ponto do fígado e eu berrando palavrões. Queria ser uma jovem sem dores, e então iríamos a festas com as piores coisas do mundo: luzes, sons, cheiros, muita gente. Então, se você puder namorá-lo somente hoje, salvá-lo de mim, me mande um recado, sei lá, mas eu não vou ler nem responder. Não chegue perto dele.

Essa foi uma crônica escrita da cama, com um mínimo de luz, peço desculpas por não ser das melhores, eu sinto que estou morrendo, que não existe prazer em nada, que pra sempre cavalos noturnos selvagens farão passeios e feridas abertas em minha cabeça. Ainda assim, eu vim aqui presentear vocês com algumas letras. Respeito.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

noticia por : UOL

sexta-feira, 8, maio , 2026 12:16
Mais previsões: Tempo 25 dias