A ideia de que a globalização levaria o mundo a uma era mais aberta e pacífica não se confirmou. Foi assim que o professor do Insper e coordenador Agro Global, Marcos Sawaya Jank, abriu o painel sobre os desafios do agro para se reposicionar em um novo mundo. No último de São Paulo Innovation Week (SPIW), Jank afirmou que o contexto atual força uma adaptação mais rápida do setor em meio à guerra na Ucrânia, conflito no Oriente Médio e disputa entre Estados Unidos e China. “O mundo ficou muito mais conflitivo”, resumiu. Ainda assim, na visão do especialista, a nova configuração global abre uma brecha estratégica para o Brasil. Nesse cenário, o agronegócio deixou de ocupar apenas o lugar de exportador de commodities para assumir um papel geopolítico, pontuou para a plateia no teatro da FAAP. “Quem disse que commodity é ruim?”, provocou, por sua vez, o vice-presidente da BASF Soluções para Agricultura no Brasil, Marcelo Batistela. “Commodity é uma das principais engrenagens das relações internacionais.”Para o executivo, o agro brasileiro passou a se encaixar nas “placas tectônicas do mundo que estão se movimentando”, em um momento em que os recursos naturais ganharam um valor estratégico maior.Em meio à tensão global em torno das commodities, Jank diz que os insumos se tornaram alvo nas disputas geopolíticas. “Commodity virou o centro das brigas do mundo”, afirmou. Outra fragilidade do setor no Brasil é a dependência externa de fertilizantes. Diante desse contexto, a avaliação é de que o problema atual é mais geopolítico do que de escassez de recursos naturais. As tarifas comerciais dos Estados Unidos são um exemplo. Jank criticou a política de tarifas do republicano Donald Trump. “Trump é viciado em tarifa”, afirmou, lembrando que parte das tarifas agrícolas acabou sendo revista após o aumento de inflação.Jank reforçou que o País conseguiu unir os recursos naturais com inovação tecnológica. “O Brasil fez inovação para a agricultura tropical”, afirmou, ao citar que o setor representa cerca de 25% do PIB brasileiro. Além da força agrícola, destacou o posicionamento estratégico brasileiro também na área energética, incluindo petróleo e fontes renováveis.Desafio de inovação no setorEmbora o diferencial brasileiro se sobreponha em relação a outros países, a exemplo de ter 2,2 safras por ano, os painelistas apontaram que há desafios para escalar a inovação no setor. Um deles é conseguir produzir mais com menos, além de garantir a manutenção de um solo produtivo.Como exemplo da diversidade brasileira, Jank citou a expansão do Mato Grosso, o desenvolvimento de variedades adaptadas de soja e a construção de sistemas integrados de produção como parte de uma estratégia iniciada na década de 70.Outra aposta dos painelistas é de que a virada energética global deve ampliar o protagonismo do setor. “A nova configuração do planeta vem com energia renovável, com necessidade de descarbonização e a agricultura pode crescer junto”, afirmou Batistela. Da porteira para dentroNa contramão dos desafios, o Brasil encontra oportunidades na evolução de tecnologias aplicadas dentro da porteira, como agricultura digital, aplicação localizada de defensivos e práticas voltadas ao melhor aproveitamento de insumos, fertilizantes e diesel. ‘Já temos tecnologia para cuidar do ambiente produtivo”, reforçou Batistela.Para além da produção agrícola, o executivo ressaltou que o País precisa avançar na agregação de valor. Uma das frentes é verticalizar cadeias produtivas por meio de biocombustíveis e proteínas vegetais. Na outra ponta, o Brasil precisa se adaptar às regulações e exigências internacionais conforme a legislação de cada país. A terceira envolve novos modelos de negócio e cadeias mais integradas e curtas.São Paulo Innovation WeekO São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até esta sexta-feira, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.No fim de semana, o festival leva uma série de eventos paralelos (side events) gratuitos para quatro Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade, em parceria com a Prefeitura de São Paulo. São eles: Heliópolis, Freguesia do Ó, Papa Francisco (Sapopemba) e Silvio Santos (Cidade Ademar). Não é necessário fazer inscrição; o acesso será por ordem de chegada, sujeito à lotação dos espaços. A programação gratuita reúne nomes como Marcelo Gleiser, Maria Homem e Ivair Gontijo em debates e experiências imersivas.
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