Mulheres acima dos 50 anos usam ensaios fotográficos para resgatar autoestima

Um ensaio fotográfico sensual devolveu a autoestima da engenheira Maria Regina Anizelli Peres, 56, após o fim do casamento em 2020. A sessão de fotos, que ela se deu de presente no aniversário de 54 anos, a reaproximou de sua própria imagem.

Ao ver o resultado, Maria Regina diz ter ganhado segurança imediata: passou a falar com mais firmeza no trabalho, ambiente dominado por homens, e a se sentir mais confiante na vida pessoal. “Ali entendi que tinha em mim uma mulher bonita. Aquelas fotos mudaram minha autoestima de forma absurda. Comecei a me olhar e a me enxergar.”

A demanda por retratos de mulheres maduras tem crescido e traz um novo olhar sobre o corpo e a idade, segundo a fotógrafa Michelle Moll, 45, que há mais de 20 anos trabalha com imagem e nos últimos 14 se dedica a esse público.

Quando as clientes veem o resultado do ensaio pela primeira vez, as reações costumam ser intensas, segundo Michelle. “Elas choram, se emocionam e outras riem. É uma espécie de catarse, porque a mulher vê que está bem.”

Michelle diz que às vezes não basta apenas dizer a uma mulher que ela é bonita. Segundo ela, é preciso que elas se vejam assim, e por isso as fotografias são essenciais em sua opinião. “Na prática, viram o resgate da identidade.”

Os ensaios fotográficos geralmente incluem maquiagem, cabelo, figurino, direção de poses e entrega de imagens digitais tratadas. O pacote básico com 30 fotos, sai a partir de R$ 2.800, a depender do profissional. As sessões duram a partir de três horas e podem ocorrer em estúdio ou em locações externas, o que influencia o valor dos pacotes.

Algumas fotógrafas fazem consulta prévia para selecionar figurinos e referências que dialoguem com a cliente e, assim, combinar diferentes propostas para a sessão, que vira um dia de autocuidado e de descobertas.

No caso de Maria Regina, antes das fotos, mesmo quando o então namorado insistia em enaltecer sua beleza, ela não conseguia aceitar os elogios. “Até aquele momento [antes das fotos], eu cuidava dos outros e me lembrava pouco de mim. Minha filha tinha 15 anos quando me separei. Depois disso, a pessoa com quem me relacionei dizia: ‘você não tem noção da mulher linda que você é’. Mas eu não conseguia me enxergar assim.”

Agora, o ensaio virou um compromisso com ela mesma. Maria Regina passou a refazer as fotos a cada dois anos e na última visita ao estúdio, em maio deste ano, aproveitou para registrar também imagens profissionais para seu perfil do LinkedIn.

“Desde as primeiras fotos, passei a falar com mais firmeza nas reuniões e senti que voltei a ocupar meu espaço. Foi como me reencontrar. Eu continuo sendo mãe e profissional, e também me sinto viva.”

Essas histórias individuais se combinam com iniciativas coletivas. A locutora e produtora de eventos Cátia Cristina da Rocha, 53, retomou o projeto de um calendário iniciado em 2019 que reuniu mulheres roqueiras de idades variadas.

Na época, Cátia organizou o encontro e posou com as participantes em fotos sensuais. Para ela, foi uma forma de suportar o luto depois das perdas que sofreu —a morte precoce do filho e, depois, do marido.

“Bolívia [como era conhecido seu companheiro] deixou um legado valioso. Ele me mostrou a importância de cuidar de mim mesma, de manter minha autoestima elevada e de enfrentar os desafios com determinação. Reunir essas mulheres me ajudou a tornar o sofrimento visível e a recuperar a coragem”, diz Cátia.

A fotógrafa Michelle também relaciona o caráter urgente do registro a uma experiência pessoal. Em 2020 a mãe dela, Maria Concepción, foi diagnosticada com câncer de pulmão e pediu um ensaio que vinha adiando havia anos.

Michelle marcou a sessão para a semana seguinte e fotografou a mãe na pandemia. Três dias depois, o pai dela morreu de infarto sem ter visto as fotos da mulher. Viver a vida com intensidade ganhou contornos de urgência para aquela família.

“Em 2023, minha mãe, minha irmã e eu viajamos para Palma de Mallorca, na Espanha, para conhecer as origens da família”, conta a fotógrafa. Maria Concepción morreu naquele mesmo ano, aos 63 anos.

As motivações para esses ensaios fotográficos cruzam o pessoal e o social. A psiquiatra Priscila Peranovich Rocco, do Hospital Sírio-Libanês, explica que fatores como a chegada de filhos em idade mais avançada, o auge da carreira ao mesmo tempo em que os pais envelhecem e o desgaste conjugal concentram tensões nessa fase da mulher.

“A percepção social do envelhecimento feminino tende a ser interpretada como perda em vez de transformação. Essa fobia de envelhecer traz medo de se tornar invisível”, afirma a psiquiatra.

Segundo Priscila, a fotografia oferece um material concreto para a mulher se situar: escolher roupas, decidir com quem dividir as imagens e pensar os limites da exposição são processos que produzem reflexão sobre identidade.

Ela alerta, porém, para limites: imagens bonitas podem provocar alívio passageiro. Quando há distorção da imagem corporal, trauma ou depressão o ensaio sozinho pode não ser suficiente e pode mobilizar emoções que exigem acompanhamento, segundo a especialista. Por isso, segundo Priscila, equipes devem adotar práticas como sigilo, ambiente acolhedor e ausência de pressões estéticas.

“O amor e o desprezo vêm na mesma proporção, conforme o filtro que a gente usa numa foto postada”, diz ela, lembrando que a exposição permanente transforma a aparência em moeda de validação.

Essa corrida pela eterna juventude, explica Priscila, leva muitas mulheres a não se perguntarem o que significa sucesso para elas nem onde realmente estão na vida. “Se você quer chegar a algum lugar, precisa saber onde está.”

Entre as profissionais que estruturam o trabalho como ritual, a fotógrafa Maria Ribeiro, autora do fotolivro “Nós, Madalenas — Uma Palavra Pelo Feminismo”, prefere falar em “fotomedicina”.

Seu método inclui escuta ativa, exercícios corporais, meditação e celebração ao final e evita manipulação digital. “Quando a gente se reconecta com as nossas imperfeições, a gente consegue se habitar inteira.”

Michelle, que já fotografou mulheres dos 20 aos 90 anos, lembra que baixa autoestima não é exclusividade da idade. “Foto é você se enxergar por fora, por outro ângulo”, afirma ela, citando também experiências sensíveis incluindo clientes que fizeram fotos pós-mastectomia e uma cliente com baixa visão que quis preservar uma memória visual de si antes de ficar cega.

Para muitas mulheres esses ensaios vão além da estética: viram registro, decisão e um instrumento para repensar o próprio lugar no mundo. A ideia encontra eco numa frase de Antoine de Saint-Exupéry no clássico “O Pequeno Príncipe“. “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”

noticia por : UOL

sábado, 23, maio , 2026 02:42
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