Golpe do falso advogado soma mais de 1.520 denúncias em SP; veja como criminosos agem

O golpe do falso advogado já gerou mais de 1.520 denúncias em São Paulo desde o início do ano, segundo dados da seccional paulista da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Os criminosos entram em contato com clientes de escritórios de advocacia, apresentam dados verdadeiros sobre processos judiciais e alegam que é necessário fazer um pagamento para liberar valores de uma ação.

No acumulado de 2025, a entidade registrou mais de 5.600 denúncias. A ordem criou uma força-tarefa para acompanhar os casos e, além disso, afirma ter ajuizado uma ação civil pública contra operadoras de telefonia, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e a Meta (dona do WhatsApp) em busca de medidas para conter as fraudes. A OAB-SP afirma que a maioria quase absoluta dos casos analisados envolve dados do sistema do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

Em nota, a Meta afirma investir em recursos para ajudar usuários a identificar contatos suspeitos e em mecanismos de denúncia dentro do aplicativo. A empresa ainda diz que, por utilizar criptografia de ponta a ponta, não tem acesso ao conteúdo das mensagens trocadas entre usuários. Segundo a companhia, contas que violam os termos de uso podem ser suspensas ou desativadas após denúncias e análises.

Na maior parte dos casos, os criminosos entram em contato por WhatsApp utilizando a foto e o nome de advogados reais. Em seguida, informam que o cliente tem valores a receber em uma ação judicial e pedem uma transferência via Pix para supostos custos processuais ou liberações de pagamento.

Entre maio de 2025 e o início de março de 2026, a Ouvidoria do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) recebeu 88 denúncias do golpe, sendo 74 registradas em 2025 e outras 14 neste ano.

Um servidor público de 57 anos, que pediu para não ser identificado, afirma ter perdido R$ 3.400 após acreditar que estava falando com representantes do escritório responsável por uma ação judicial antiga.

Ele conta que recebeu uma mensagem informando que havia valores a receber. Como a informação fazia referência a um processo real, decidiu continuar a conversa.

Segundo o relato, o golpista orientou a realização de uma transferência via Pix e depois convenceu ele e a esposa a seguir uma série de instruções no celular. Ao final, os criminosos conseguiram acessar as contas bancárias do casal e transferir praticamente todo o saldo disponível.

O advogado criminalista Marcus Gusmão conta que clientes do escritório receberam contatos desse tipo. “Em alguns casos, eles mencionavam nomes completos, número de processos e até o tipo de ação”, diz.

Para ele, os dados podem ter sido obtidos a partir de informações públicas dos processos, combinadas com técnicas de engenharia social. “A principal orientação é desconfiar de pedidos urgentes de pagamento e confirmar qualquer solicitação com o advogado antes de realizar transferências”, afirma.

Pedro Viana, advogado especializado em cibersegurança e governança de dados, afirma que o golpe pode resultar de uma combinação de fatores. Entre eles estão informações processuais públicas, credenciais comprometidas e técnicas de engenharia social. Em alguns casos, há também acesso indevido a sistemas por meio de credenciais obtidas de forma irregular.

Para o especialista, nem todos os casos necessariamente decorrem de um vazamento de dados. “O criminoso já não precisa inventar uma história”, diz. “Ele se apoia em fatos para tornar a abordagem mais plausível.”

Fabio Assolini, líder da equipe global de pesquisa e análise da Kaspersky para a América Latina, avalia que uma das hipóteses prováveis para explicar o golpe é o uso de credenciais que programas conhecidos como “infostealers”, malwares desenvolvidos para capturar logins e senhas armazenados em computadores, roubam.

Segundo ele, os criminosos podem comprar essas credenciais em mercados clandestinos na internet por valores baixos e utilizá-las para acessar sistemas de forma aparentemente legítima.

Para Assolini, mecanismos como autenticação em dois fatores, senhas únicas e gerenciadores de senhas poderiam reduzir significativamente o risco de acessos indevidos. Consequentemente, reduziriam também os golpes que utilizam informações processuais reais.

Em nota, Leonardo Sica, presidente da OAB-SP, e Eduardo Ferrari, coordenador da força-tarefa de combate ao golpe do falso advogado, afirmam que a “maioria quase absoluta” das denúncias recebidas envolve informações provenientes do sistema do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Eles afirmam, entretanto, não ser possível apontar uma origem única das informações utilizadas pelos criminosos.

O projeto de lei 4.709/2025 foi aprovado pela Câmara dos Deputados em março e prevê medidas de prevenção e repressão ao golpe do falso advogado, além de novos mecanismos de segurança para o sistema de Justiça. A proposta ainda precisa ser aprovada no Senado e, depois, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para entrar em vigor.

Como se proteger

  • Desconfie de mensagens sobre liberação de valores judiciais que peçam pagamentos antecipados;
  • Confirme informações diretamente com o escritório por telefone ou canais oficiais;
  • Não realize Pix sem verificar a identidade de quem está fazendo a solicitação;
  • Desconfie de pedidos de urgência ou pressão para concluir operações rapidamente;
  • Não compartilhe senhas, códigos de autenticação ou permita acesso remoto ao celular;
  • Ative a verificação em duas etapas em aplicativos de mensagem e serviços bancários.

noticia por : UOL

terça-feira, 23, junho , 2026 12:18
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