Nova exposição de Cícero Dias joga luz sobre fase de abstracionismo geométrico

Um par de linhas perpendiculares cruza a tela clara, criando um ângulo reto que atravessa o quadro. Mais perto da base, uma das linhas constrói um triângulo escaleno com a ajuda das bordas da tela, cor de marfim na base. No triângulo pipocam umas poucas linhas arredondadas em vermelho escuro e verde-claro, com poucos trechos preenchidos por tons de amarelo.

No meio da tela, um carnaval de amarelos, rosas, laranjas, verdes, beges e azuis explode em quadrados, retângulos e triângulos. Sobre eles, formas que lembram foices ou bumerangues se destacam em azuis, verdes e marrons mais fortes. O abstracionismo geométrico do quadro lembra a obra do russo Wassily Kandinsky. O autor, porém, é Cícero Dias, conhecido no Brasil primeiro com suas obras de cunho surrealista.

A tela “Sem Título” (1948) é parte de uma nova mostra do pintor recifense na galeria Simões de Assis, na capital paulista. “Cícero Dias: Pioneiro da Arte Abstrata no Brasil” fica em cartaz até 18 de julho.

Segundo Guilherme Simões de Assis, diretor da galeria, a ideia da nova exposição é direcionar o público brasileiro ao abstracionismo de Dias. Enquanto viveu no Brasil, até 1937, o artista pintava principalmente com aquarela e num estilo surrealista e figurativo.

A obra que o alçou ao reconhecimento, “Eu vi O Mundo… Ele Começava no Recife” (1926-1929), é um painel de 12 metros de comprimento por quase dois de altura, pintado a guache e a aquarela. Num fundo bege amarelado, o painel mostra em cores sóbrias uma mistura de cenas cotidianas —usinas operando, pessoas pescando, pessoas morrendo— com elementos surrealistas. Vacas voando, um tabuleiro de xadrez com pernas humanas como peças.

É radical a diferença na linguagem adotada por Dias nesse início de carreira e a do período em que se dedicou ao abstracionismo geométrico. Para Simões de Assis, a mudança do artista do Rio de Janeiro para Paris foi um divisor de águas em sua obra.

Dias nasceu em 1907 num engenho de açúcar em Escada, no interior de Pernambuco. De lá foi para o Rio de Janeiro aos 13 anos e lá ficou enquanto cursava a faculdade de arquitetura. O curso acabou abandonado quando Dias embarcou na pintura. Ele conheceu outros artistas que viviam na cidade na época, como Di Cavalcanti, e fez sua primeira exposição individual em 1927.

Foi de Cavalcanti que Dias recebeu o chamado para ir a Paris em novembro de 1936. “Meu Caro Cícero/ Essa carta que te escrevo no Correio de Montparnasse é para te dizer que deves vir imediatamente para Paris”, escreveu o pintor. “É verdade que estou passando momentos maus porque o dinheiro é curto, mas assim mesmo isso aqui ainda é o ideal.”

Em agosto do ano seguinte, Dias embarca no navio para o velho continente. Lá, ele logo conhece Pablo Picasso, Henri Matisse e Fernand Léger e passa a beber do abstracionismo.

As primeiras experiências com a abstração acontecem quando Dias se muda para Lisboa, em 1942, fugindo do nazismo. Ele havia escapado do autoritarismo do Estado Novo de Vargas em 1937 direto para o fascismo europeu. Em Portugal, o pintor começa a experimentar formas abstratas orgânicas, que lembram plantas. Na obra “Galo ou Abacaxi”, dos anos 1940, a superfície espinhosa da fruta se confunde com um padrão de penas. A coroa pode muito bem ser uma crista. É, além da experimentação com novas formas, uma mudança de matéria-prima, que passa da aquarela à tinta a óleo.

A fase é parte do percurso até o abstracionismo geométrico dos anos 1940 enfatizado na nova mostra da Simões de Assis. O diretor da galeria avalia que Dias foi pioneiro nessa linguagem no Brasil, muito pela proximidade com as vanguardas europeias. O concretismo brasileiro só viria nos anos 1950.

A mostra compreende 20 pinturas abstratas feitas nas décadas de 1940 e 1950. No período, Dias alcançou amplo reconhecimento internacional, com participação na Bienal de Veneza e na 1ª Bienal de São Paulo, em 1951.

O estudo da forma que marca as obras, com ângulos bem marcados e sobreposição de linhas retas firmes, não ofusca o comprometimento de Dias com as cores fortes e vivas. Para Simões de Assis e estudiosos do artista, a opção por uma abundância de cores vibrantes é um traço de brasilidade que se manteve na obra de Dias. “Quem nunca viu um canavial nem conhece a luz dos trópicos no Nordeste do Brasil não pode apreender de modo completo a obra de Cícero Dias”, escreve o crítico literário Mário Hélio Gomes de Lima em “Cícero Dias: uma vida pela pintura”.

noticia por : UOL

terça-feira, 23, junho , 2026 02:31
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