Longe dos holofotes fixados no Irã, na Ucrânia, no Líbano e em outros conflitos globais, Mianmar, uma nação do Sudeste Asiático com cerca de 50 milhões de habitantes, entrou em colapso de forma silenciosa.
Por todo o interior de Mianmar, onde uma guerra civil se desenrola feroz e esquecida, grupos rebeldes estão em desvantagem de armas e de pessoal.
Os civis que os apoiam enfrentam ataques implacáveis dos militares, que deram um golpe de Estado em 2021.
Os generais de Mianmar devolveram o país à ditadura militar, fraturaram a nação e desencadearam uma crise humanitária.
Recentemente, a reportagem do jornal americano New York Times viajou com o dr. Lone Lone, líder rebelde há cinco anos, para uma região controlada pelos rebeldes. Era em Anyar, uma parte do centro de Mianmar onde os rebeldes dizem que nenhum jornalista estrangeiro havia ido desde que os militares derrubaram o governo civil e apagaram as reformas políticas e econômicas.
Após o golpe de 2021, forças antimilitares se levantaram e tomaram o controle de mais da metade do país. Alguns dos grupos rebeldes dizem que estão lutando para que Mianmar se torne uma democracia.
Grupos rebeldes trabalharam com um governo no exílio para estabelecer escolas e hospitais em territórios que chamam de “Mianmar Livre”. Eles esperavam que essas zonas liberadas se expandissem e se fundissem até que os militares, que mantêm Mianmar acuado desde que tomaram o poder pela primeira vez de um governo democraticamente eleito em 1962, fossem forçados a ceder o controle.
Anyar, na região central árida do país, é um dos redutos mais formidáveis de resistência armada contra os militares. Desde o golpe, a equipe do New York Times reportou de regiões fronteiriças onde insurgências de minorias étnicas fervilham há décadas. Embora essas zonas sofram ataques frequentes dos militares de Mianmar, elas também têm linhas de abastecimento para outros países. Armas e inteligência —e a ocasional repórter— podem entrar.
Em contraste, Anyar está isolada, mesmo enquanto sofre o peso da fúria militar. A área é lar da maioria étnica Bamar e foi historicamente a fonte de apoio aos militares, que também são predominantemente Bamar. Mas o golpe, que arrastou o país de volta a uma era mais sombria, fez com que muitas pessoas em Anyar ficassem contra os militares. O custo dessa deslealdade tem sido devastador.
Cinco anos após o início da guerra civil, longe do alcance de grupos de ajuda internacional, a reportagem encontrou um interior que parecia perdido em um apocalipse. Dos céus acima de vilarejos empoeirados e retalhos de terras agrícolas aradas por bois emaciados, os instrumentos de morte dos militares de Mianmar matavam com impunidade caótica. Em seu isolamento, Anyar sofre também com a escassez paralisante de armas, de guerrilheiros e, cada vez mais, de esperança.
Para manter seu controle sobre o poder, Min Aung Hlaing, o líder da junta militar, deixou o cargo de chefe do Exército em março para poder assumir o posto como presidente. Ele supervisionou eleições encenadas nas quais o partido fantoche dos militares era efetivamente a única opção. Em abril, Aung San Suu Kyi, a líder civil que ele depôs, foi transferida para prisão domiciliar, segundo os militares.
No mesmo mês em que Min Aung Hlaing se preparava para assumir a Presidência, grupos de direitos humanos colocaram o número mensal de mortes de civis em Mianmar no patamar mais alto desde o golpe. Em todo o país, nos últimos cinco anos, mais de 90 mil civis e combatentes foram mortos, e 3,7 milhões de pessoas, deslocadas, segundo as Nações Unidas.
Além dos territórios palestinos, Mianmar foi o lugar mais afetado por conflitos no ano passado (embora não o mais mortal), de acordo com o monitor de conflitos Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos).
O general Zaw Min Tun, porta-voz militar, disse ao New York Times em uma entrevista que os ataques aéreos foram ordenados porque foram obtidas “informações sólidas” de alvos militares legítimos.
“Que tantas pessoas, pessoas civis, foram mortas em ataques aéreos é apenas propaganda”, disse ele.
Morte ao longo de estradas perigosas
Em várias paradas ao longo de nossa rota, bombas caíram pouco antes de chegarmos ou logo depois de partirmos —uma medida de quão comuns são os ataques aéreos em Anyar. Girocópteros, uma aeronave leve semelhante a um helicóptero, atingiram um vilarejo a alguns quilômetros de onde estávamos em determinado momento.
Drones lançaram cargas mortais sobre uma comunidade onde havíamos passado a noite. Perseguimos os rastros de caças e olhamos para o céu procurando parapentes motorizados armados.
Em março, cerca de 240 ataques aéreos militares de Mianmar mataram mais de 400 pessoas, muitas em Anyar, segundo a Acled. Em meados de abril, dois girocópteros atacaram um vilarejo no município de Monywa, em Anyar, matando pelo menos 17 pessoas.
Durante nosso tempo no centro de Mianmar, confirmamos pelo menos nove assassinatos de civis que não haviam sido registrados por grupos de direitos humanos. Esse tamborilar diário de morte passa quase despercebido pelo mundo exterior.
“Os estrangeiros sabem o que está acontecendo conosco?”, perguntou-me um morador de Anyar chamado San Nyaung, enquanto varria os escombros das ruínas de sua casa, que havia sido queimada por soldados de Mianmar.
Para chegar à linha de frente em Anyar, a reportagem viajou à noite e camuflada. A equipe levou três dias para percorrer o que normalmente seria uma viagem de cerca de três horas. Percorreu de carro, motocicleta, barco e a pé, por estradas secundárias, trilhas de montanha, rios e trechos de rodovia que estavam a menos de um quilômetro das linhas de frente.
Muitos lugares que a reportagem visitou em Anyar quase não tinham contato com o mundo exterior por causa dos bloqueios militares —sem sinais de celular confiáveis, sem internet.
Cerca de 200 casas no vilarejo de San Nyaung, que como a maioria dos lugares que a reportagem visitou não foi nomeada por razões de segurança, haviam sido destruídas pelo fogo. Então bombas caíram. Três pessoas foram mortas por essas detonações, incluindo um monge budista.
Os militares haviam deixado uma última surpresa: minas terrestres plantadas perto de casas e templos budistas, para garantir carnificina após a partida dos soldados.
San Nyaung começou a chorar, suas lágrimas grossas e verdadeiras. “Eu sei sobre a Ucrânia, Gaza. Sinto muito por eles”, disse ele. “Compartilhamos a mesma tristeza.”
De estetoscópios a armas
As raízes da guerra civil de Mianmar remontam a 1962, quando um general tomou o poder, argumentando que o Exército era necessário para evitar que o país se fragmentasse com as incursões de milícias étnicas.
Essas insurgências, nas quais minorias étnicas exigiam autonomia ou mesmo independência, perduraram por décadas, incluindo uma que é considerada uma das revoltas étnicas mais longas do mundo. Mas, neste último surto de guerra civil, a rebelião da maioria étnica Bamar espalhou o conflito por todo o país.
“O Exército não consegue aceitar que desta vez os Bamar também estão contra eles”, disse dr. Lone Lone. “É por isso que eles são os mais cruéis conosco.”
Dr. Lone Lone, 41, nunca pretendeu comandar um batalhão de 120 soldados. Não era apenas sua miopia, asma ou dor crônica nas costas que tornavam sua carreira como rebelde armado tão improvável. Nascido em uma cidade de Anyar famosa por seus elefantes de trabalho, ele estudou medicina e depois administrou sua própria clínica.
Em 2021, dr. Lone Lone estava prestes a fazer uma grande viagem pela Europa quando o golpe interveio e a junta prendeu os líderes eleitos de Mianmar. Dr. Lone Lone participou de protestos pacíficos. Mas quando os militares reprimiram, matando centenas de manifestantes desarmados —incluindo crianças pequenas— com tiros na cabeça ou no coração, ele escapou para uma região de fronteira. Lá, milícias étnicas deram treinamento básico a profissionais urbanos como ele.
“Eu era bom em segurar um estetoscópio, não uma arma”, disse dr. Lone Lone.
Ainda assim, dr. Lone Lone comandava respeito. Ele dirigiu um corpo médico antes de convencer voluntários de sua cidade natal a formar um batalhão das Forças de Defesa do Povo, uma coalizão de milícias vagamente organizada sob o governo de Mianmar no exílio. Seus soldados nos contaram sobre a vida no que chamavam de era A.G. —antes do golpe.
Um estava no segundo ano de seu curso de física na faculdade. Outro trabalhava em marketing. Alguns dos combatentes eram adolescentes quando pegaram em armas. Dois ainda tinham apenas 17 anos. Os soldados mais velhos haviam suspendido a vida normal —encontros românticos, casamento, filhos, colheitas, férias na praia— pelo que chamavam de “a revolução”.
No entanto, alguns hábitos da era A.G. perduraram. Um soldado dirigindo uma caminhonete em estradas de terra continuava usando a seta, embora houvesse pouca razão para tal polidez perto da linha de frente.
Os soldados do dr. Lone Lone haviam chegado a esta linha de frente apenas uma semana antes. No final de dezembro, uma batalha de sete meses no norte do estado de Shan terminou com o recuo de 15 batalhões rebeldes, incluindo o do dr. Lone Lone.
Os militares de Mianmar compram suas armas da Rússia e da China, e os rebeldes há muito desistiram da esperança de que o Ocidente pudesse financiar sua luta, como na Ucrânia. Os combatentes do dr. Lone Lone recuaram tão rápido que tiveram de deixar para trás seus preciosos elefantes de guerra, uma lembrança do passado marcial de Mianmar, quando paquidermes eram convocados para o serviço.
“Estamos com falta de munição”, disse dr. Lone Lone. “Fico deprimido com a nossa revolução porque não temos apoio dos Estados Unidos e da Europa, mesmo lutando por uma democracia federal.”
‘Há morte em todo lugar’
Houve um ataque aéreo na semana passada, outro na semana anterior e mais um na semana antes dessa, disseram os moradores. Houve outros que nem foram mencionados. Era impossível listar todos. Não havia mais lágrimas para derramar, disse uma mulher que conhecemos em um restaurante.
Sentamos para comer tigelas de macarrão. A vila controlada pelos rebeldes é um centro de transporte de onde combustível e outros suprimentos são distribuídos para as forças guerrilheiras. Essa é uma das razões pelas quais os militares têm devastado essas vilas.
Ainda assim, as pessoas precisam comer. O macarrão estava bom. Os clientes sorviam o caldo enquanto rádios sobre as mesas crepitavam com uma enxurrada de informações de inteligência. O abrigo antiaéreo ficava nos fundos. Não parecia grande o suficiente para acomodar todos os clientes.
Perguntei a Wah Wah, a dona da loja de macarrão, se tinha havido algum ataque nos últimos dias. Ela balançou a cabeça negativamente. Então ela se lembrou. A menos de três quilômetros dali, tinha havido um ataque aéreo. Seis pessoas morreram.
Quando foi, perguntei?
“Ontem”, ela respondeu. “Esqueci porque há morte em todo lugar.“
Ponto de ruptura
A reportagem continuou viajando por um interior aterrorizado. Alguns dias depois da visita à loja de macarrão, a equipe seguiu por estradas secundárias em motocicletas durante seis horas. O motorista da motocicleta, com um rifle pendurado no ombro e uma granada presa ao cinto, acelerou o motor.
De repente, a reportagem viu um sedã preto, estranhamente limpo, parado na estrada. Paramos também. Do carro saiu um homem com uma longa barba e cabelos grisalhos presos em um rabo de cavalo. Ele usava uma camiseta verde-militar e um sarongue, com um revólver na cintura. Eu não fazia ideia de quem ele era. Também não fazia ideia de onde estávamos.
O homem sorriu e estendeu a mão.
“Pode me chamar de Irmão Zero”, disse ele. “Minha unidade é a Força Guerrilheira Zero.”
Irmão Zero, também conhecido como Thet Gyi, opera em território controlado por rebeldes nos arredores de Myingyan, perto de Mandalay, a segunda maior cidade de Mianmar. Artista, ele pegou em armas após o golpe. Sua esposa, que foi capturada em território controlado pela junta militar, foi condenada a 25 anos de prisão por causa de sua ligação com ele. O rosto dela está tatuado em seu braço.
Em fevereiro, um comandante rebelde de Anyar que havia brigado com outros líderes guerrilheiros se rendeu ao Exército de Mianmar. Logo depois, ataques precisos contra as forças de resistência de Anyar aumentaram, presumivelmente alimentados por informações de inteligência fornecidas por ele.
Em meados de março, após nossa viagem a Anyar, os combatentes rebeldes perderam Tagaung, uma cidade estratégica que haviam capturado em 2024. Os homens do dr. Lone Lone foram forçados a recuar da linha de frente no topo da colina que havíamos visitado.
Seu batalhão agora tem metade do tamanho de quando o conhecemos. Seu vice-comandante, que praticamente me abraçou quando dei a ele alguns sachês de caramel latte da Starbucks, sua bebida favorita, desertou. Assim como um ex-professor que havia me dito com sinceridade que estava resignado a morrer se isso significasse erradicar o regime apoiado pelos militares.
Uma noite durante nossa jornada de reportagem, acordei sobressaltado na traseira de um caminhão e descobri que havíamos parado, esperando passar mais um possível ataque aéreo. Dr. Lone Lone sorriu para mim. Ele ria muito para um comandante em uma guerra que parecia sem esperança. Então parou de sorrir.
“Se eu não conseguir vencer a revolução, então me tornarei monge”, ele me disse. “Estou tentando meditar sempre, mas às vezes, neste mundo, é difícil demais.”
noticia por : UOL