Durante a pandemia de Covid-19, quem questionasse lockdowns, fechamento de escolas, restrições ao direito de ir e vir, vacinação compulsória ou passaportes sanitários era frequentemente colocado diante de uma escolha aparentemente simples: ou confiava na “ciência”, ou era um negacionista irresponsável.
A discussão pública foi, em muitos momentos, reduzida a esse falso dilema. Os diários de Anthony Fauci, divulgados pelo senador americano Rand Paul, ajudam a mostrar que a realidade era consideravelmente mais complexa. E, nesse aspecto, reportagens e editoriais publicados pela Gazeta do Povo entre 2020 e 2022 sobreviveram ao teste do tempo.
Não é certo dizer que Fauci estava errado em tudo. Os documentos não permitem concluir que todas as medidas adotadas durante a pandemia foram inúteis. O que eles ajudam a revelar é algo diferente: muitas das decisões que afetaram mais profundamente a liberdade, a educação e a economia foram tomadas em um ambiente de enorme incerteza.
O maior dos problemas é que algumas dessas decisões dependeram da influência pessoal de autoridades que, longe das câmeras, reconheciam a existência de dúvidas que não apareciam com a devida intensidade no discurso feito por essas mesmas autoridades ao grande público.
Liberdades individuais foram atingidas durante pandemia
E por que essa distinção é importante? Porque essa foi uma pergunta feita rotineiramente pelo jornal ainda enquanto a pandemia acontecia. Em 29 de março de 2020, quando governadores brasileiros começavam a bloquear estradas e restringir a circulação entre estados e municípios, o editorial “Os bloqueios contra o coronavírus e o direito de ir e vir” advertia que algumas dessas ações poderiam estar “cruzando um limite perigoso em relação aos direitos individuais”.
A Gazeta não negava a existência da doença nem a necessidade de medidas sanitárias, mas sim questionava de forma clara a transformação da emergência em autorização para restringir liberdades básicas sem critérios claros.
Menos de dois meses depois, a crítica ganhou um contorno ainda mais claro. Em outro editorial, “As liberdades na UTI e a proporcionalidade como remédio”, publicado em 24 de maio de 2020, a Gazeta atacava a falsa oposição entre preservação da vida e respeito à lei.
O argumento era essencialmente jurídico: não é porque uma medida foi adotada por um governo durante uma emergência sanitária que essa medida se transforma automaticamente e inquestionavelmente em algo legítimo. As restrições, principalmente em momentos conturbados, precisam obedecer ao princípio da proporcionalidade.
Hoje, os registros privados de Fauci tornados públicos pelo senador republicano Rand Paul permitem olhar para aquele período sob uma perspectiva interessante. Em uma anotação de 8 de fevereiro de 2020, ainda nas primeiras semanas da crise, Fauci registrou uma conversa com Tom Frieden, ex-diretor do CDC, na qual os dois avaliavam que o vírus se comportava, em termos de transmissibilidade, como uma “gripe ruim”.
Na conversa, Fauci considerou que a taxa real de letalidade poderia estar na faixa de 0,2% a 0,3%, principalmente por conta da subnotificação. A diferença para os dados oficiais é importante: a Organização Mundial de Saúde (OMS) chegou a divulgar que entre os casos reportados, cerca de 2% eram de casos fatais.
A letalidade real da Covid, como se viu ao longo da pandemia, variou conforme idade, população, variante, vacinação e outros fatores. Mas o registro é relevante por outro motivo: ele demonstra que, muito antes de lockdowns e fechamentos generalizados, uma das principais autoridades sanitárias americanas já considerava plausível que a letalidade real fosse substancialmente inferior às primeiras taxas calculadas a partir dos casos conhecidos.
E isso ressuscita uma pergunta que era tratada quase como uma heresia em 2020: quanto das ações de resposta à pandemia adotada pelos governos estava baseado em fatos conhecidos, e quanto estava baseado em hipóteses, projeções e precaução desmedida diante do desconhecido?
Gazeta alertou para efeitos do fechamento das escolas
A resposta fica ainda mais interessante quando se olha para as escolas. Em 15 de março de 2020, Fauci registrou em seu diário que havia conversado com o então prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e que o havia convencido, com base no que vinha dizendo publicamente, a fechar as escolas da cidade.
O especialista avaliou que considerava uma interrupção de apenas 30 dias inadequada e que uma saída prematura das medidas de mitigação poderia ser um “desastre”. Segundo os registros divulgados no senado norte-americano, Fauci também pode ter exercido influência sobre outras autoridades estaduais e municipais durante aquele período.
Isso é especialmente relevante porque uma das críticas mais persistentes da Gazeta durante a pandemia dizia respeito justamente às escolas. Em julho de 2020, o jornal publicou um podcast – “O efeito colateral das escolas fechadas para as crianças e o país” – chamando atenção para o debate internacional sobre a duração dos fechamentos e seus custos. O programa lembrava que a reabertura estava ficando para o fim da fila em vários lugares, e questionava o custo-benefício da medida.
Dias depois, a posição do jornal quanto à essa questão ficou ainda mais explícita: o editorial “Um amplo pacto pela reabertura das escolas” argumentava que, se escolas continuavam fechadas enquanto diversas outras atividades já funcionavam, era porque governos e sociedade não haviam incorporado na prática a ideia de que educação é atividade essencial.
O jornal citou estimativas do Banco Mundial segundo as quais o fechamento prolongado poderia elevar dramaticamente a parcela de estudantes sem condições adequadas de leitura e produzir aumento da evasão escolar.
VEJA TAMBÉM:
Dados oficiais mostram que os custos do fechamento não foram meramente abstratos. Houve perda de aprendizagem, agravamento das desigualdades, problemas de saúde mental e aumento da evasão escolar. A própria Gazeta publicou, em março de 2021, um levantamento da Reuters mostrando que distritos escolares americanos relatavam forte aumento de indicadores de estresse mental entre estudantes durante o período de fechamento.
Manter as escolas abertas não era uma decisão trivial em março de 2020, nem nunca foi. A questão é que uma política com custos enormes como essa deveria ter sido submetida a uma análise de custo-benefício proporcional à sua dimensão. E os diários de Fauci tornam difícil sustentar que as respostas adotadas eram simplesmente a consequência direta de uma ciência que já sabia exatamente tudo o que deveria ser feito.
Lockdowns e os “estados de exceção” criados por estados e municípios
Os diários, de forma reveladora, mostra que Fauci não era apenas um comentarista científico distante das decisões políticas. Ele aconselhava diretamente governadores, prefeitos e autoridades de saúde e, segundo suas próprias anotações, teve participação ativa na defesa de medidas de fechamento.
Em novembro de 2020, por exemplo, ele registrou um telefonema de uma autoridade de saúde de Los Angeles que buscava seu apoio para um novo fechamento de três semanas diante do aumento de casos e da pressão sobre os hospitais. O apoio veio.
Isso não torna Fauci o único responsável pelos lockdowns adotados nos Estados Unidos. Governadores, prefeitos, legisladores e outros especialistas tomaram suas próprias decisões. Ainda assim, esses registros derrubam uma narrativa confortável segundo a qual as restrições eram apenas a tradução neutra de uma ciência distante da influência política. Havia escolhas, aconselhamento e pessoas defendendo determinadas estratégias. E havia discordâncias sobre elas.
A Gazeta também chamou atenção para um problema que depois ganharia uma dimensão grave: o uso de medidas administrativas para restringir o direito de ir e vir. Em março de 2021, ao tratar dos “toques de recolher”, o jornal questionou a base legal dessas medidas e lembrou que a Constituição estabelece regras específicas para restrições extremas à liberdade de locomoção: decretos estaduais e municipais poderiam simplesmente criar, por conta própria, uma espécie de estado de exceção?
Gazeta criticou punições civis propostas aos não vacinados
Depois veio a vacinação. Em dezembro de 2020, ao analisar a decisão do STF sobre imunização compulsória, o jornal fez uma distinção que acabou se tornando central: o Supremo não havia determinado que todos deveriam ser vacinados, mas reconhecido a possibilidade de vacinação obrigatória acompanhada de determinadas “restrições civis”.
Em novembro daquele ano, a Gazeta já havia alertado para o perigo de transformar uma decisão individual de vacinação em uma espécie de sistema de punição civil. O editorial “Vacinação obrigatória, ‘restrições civis’ e a liberdade individual” questionou propostas que poderiam impedir os não vacinados de obter passaporte, documento de identidade ou empréstimos em bancos públicos. A preocupação era clara: medidas sanitárias arbitrárias poderiam acabar criando uma categoria de cidadãos com menos direitos.
Os imunizantes também provocaram efeitos colaterais, mas esse risco sempre foi minimizado por Fauci, como mostram seus diários. Apesar de ter reconhecido a existência de preocupações de segurança relacionadas à miocardite, especificamente em homens jovens, o especialista classificou como “absurda” uma alegação de que as vacinas de mRNA causariam mais casos de trombose do que as outras opções.
Uma reportagem da Gazeta de novembro de 2021 trouxe luz a essa preocupação, mostrando os resultados de uma pesquisa feita pelo Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências em Washington. O estudo mostrou que há reações adversas em vacinas há muito tidas como plenamente seguras, como a tríplice viral e a vacina contra a catapora.
Se posicionar contra as vacinas, como revela a reportagem, era um problema principalmente de “muitas das mentes mais de elite, ricas e progressistas” dos Estados Unidos “que sofrem de um falso senso de crer que têm conhecimento especial da verdade”. Isso foi identificado em 2018.
Menos de meia década depois, os ativistas antivacinas (“antivax”) passaram a ser estereotipados como “direitistas” e eleitores de Trump e Bolsonaro de baixa escolaridade. Aquela elite agora chama “antivax” qualquer um que ouse discutir possíveis efeitos colaterais de vacinas.
Ainda sobre as vacinas contra a Covid, em outubro de 2021, a Gazeta se posicionou com o editorial “Passaporte de vacina, uma imposição desnecessária”. O jornal observava que vacinados poderiam continuar infectados e transmitir o vírus, o que tornava mais problemática a ideia de tratar o não vacinado como uma ameaça ambulante.
O texto ainda argumentava que, quando a vacinação já era amplamente aceita voluntariamente pela população, transformar o comprovante em requisito para entrar em estabelecimentos, participar de eventos ou frequentar determinados espaços deixava de ser uma necessidade sanitária e passava a funcionar como coerção indireta.
Poucos meses depois, em dezembro de 2021, a crítica chegou ao Supremo. A Gazeta questionou a decisão que estabeleceu a exigência de comprovante de vacinação para entrada de viajantes no Brasil e voltou a diferenciar essa medida de exigências internas de passaporte vacinal. O editorial afirmou que fazer da vacinação uma condição para acessar serviços e espaços criava, novamente, cidadãos de segunda classe.
É justamente nesse ponto que os documentos de Fauci ajudam a recolocar a questão da proporcionalidade. Uma intervenção médica não deveria ser acompanhada de mecanismos de coerção social cada vez mais amplos quando os objetivos sanitários poderiam ser atingidos por meios menos restritivos. A distinção entre eficácia de uma vacina e legitimidade de qualquer política de vacinação obrigatória é fundamental — e foi frequentemente apagada no debate público.
O mesmo vale para as máscaras. Os diários de Fauci mostram que as recomendações sobre a proteção evoluíram ao longo da pandemia e que havia intenso debate dentro do governo americano sobre a comunicação dessas recomendações. Isso não prova que máscaras fossem inúteis, nem que as recomendações seguintes fossem fraudulentas. Mas revela novamente um cenário de conhecimento ainda em evolução, nunca um consenso científico imutável desde o primeiro dia.
Esse é, talvez, um dos pontos mais importantes dos documentos agora divulgados. A ciência não desaparece quando existe incerteza. Por outro lado, a incerteza deveria tornar o poder público mais humilde, não mais autoritário. Quanto menos se sabe sobre uma doença, mais importante deveria ser testar hipóteses, comparar custos, rever políticas e principalmente admitir erros.
Hipótese de origem laboratorial do vírus foi tratada como tabu
A questão da origem do vírus reforça a mesma conclusão. Os documentos e o histórico das discussões em torno de Fauci mostram que a hipótese de um acidente de laboratório não era simplesmente uma fantasia inventada anos depois.
O próprio governo americano continuou investigando a origem do vírus, e documentos obtidos anteriormente por meio da Lei de Liberdade de Informação já haviam mostrado que cientistas ligados ao especialista discutiam privadamente a possibilidade de um vazamento laboratorial. O senador Paul sustenta que documentos do início da pandemia revelaram preocupações privadas de Fauci sobre pesquisas em Wuhan, cidade chinesa considerada como o epicentro da contaminação global.
Isso, novamente, não prova de forma clara e inequívoca que o SARS-CoV-2 tenha escapado de um laboratório. A origem da pandemia permanece uma questão histórica e científica que precisa ser resolvida com pesquisa e informação, e não por frases de efeito. Mas mostra como foi inadequado transformar essa hipótese plausível em tabu. Ainda em novembro de 2020, uma reportagem da Gazeta do Povo explicou que seria inadequado descartar uma possível origem laboratorial do vírus.
Se uma possibilidade de uma origem artificial do vírus era digna de discussão privada entre cientistas e autoridades, deveria ser digna também de investigação pública — especialmente porque a resposta à pandemia dependia muito de saber como o próximo surto poderia ser evitado.
VEJA TAMBÉM:
Tratamento precoce
Outro tabu abordado pela Gazeta durante a pandemia foi o tratamento precoce. Em junho de 2021, uma reportagem argumentava que a busca por intervenções fora do ambiente hospitalar para alguns pacientes não deveria ser tratada como pseudociência simplesmente porque as evidências disponíveis eram inicialmente incompletas.
O artigo fazia uma distinção importante entre investigar tratamentos e afirmar que determinado medicamento funcionava: defendia que médicos precisavam ter liberdade para buscar alternativas diante de uma doença nova, enquanto os estudos clínicos avaliavam quais delas efetivamente produziam benefícios.
O jornal encampou uma crítica que permanece relevante, uma vez que a simples ideia de procurar e testar possíveis tratamentos precoces se transformou em sinônimo de negacionismo e charlatanismo. O mesmo passou longe da abordagem de Fauci, como mostram os registros de seus diários.
O especialista confrontou diretamente o presidente Trump e outros membros do governo dos EUA em relação à hidroxicloroquina. Para Fauci, todos os dados que mostravam o medicamento como um potencial tratamento precoce da Covid não passavam de “anedotas”.
Além de levar o governo a recuar na decisão de não disponibilizar a hidroxicloroquina para “uso compassivo”, Fauci também classificou os defensores desse uso “off label” como “psicopatas” e “delirantes”. O conselheiro Peter Navarro, por exemplo, foi classificado pelo especialista como um “idiota assustador”.
VEJA TAMBÉM:
Posicionamento da Gazeta exigiu proteção das liberdades individuais
Há, assim, uma ironia histórica na cobertura da Gazeta do Povo em relação à Covid. Em 2020, quando a atmosfera pública favorecia medidas excepcionais e quem questionava sua necessidade podia ser acusado de irresponsabilidade, o jornal insistia que preservar vidas exigia não abandonar a proporcionalidade, a liberdade individual e o Estado de Direito.
Em 2021, quando o debate migrou para a vacinação compulsória e passaportes sanitários, a mesma preocupação reapareceu. E hoje, quando documentos privados ajudam a reconstruir o ambiente ambíguo de decisões daquela época, algumas dessas perguntas feitas pelo jornal parecem menos problemáticas do que pareciam no auge da pandemia.
A Covid matou milhões de pessoas, provocou uma crise sanitária real e exigiu respostas extraordinárias. Muitas das intervenções foram justificadas. Algumas salvaram vidas. Outras provavelmente foram tomadas como necessárias diante das informações disponíveis naquele momento.
E é justamente por isso que essa revisão é importante. Uma emergência não pode ser usada para transformar todas as decisões tomadas como algo acima de qualquer questionamento. Se havia incerteza, e os diários de Fauci mostram como essa era a rotina, as dúvidas deveriam ter sido explicitadas.
Se uma medida tinha custos enormes, como o fechamento das escolas, esses custos deveriam ser contabilizados. Se uma autoridade exercia influência excepcional sobre governos, isso deveria ser conhecido do público em geral. Se uma política produzia efeitos colaterais graves, ela deveria ser revista.
Os diários de Fauci não absolvem todos os críticos da pandemia, assim como não condenam automaticamente todas as autoridades que adotaram medidas restritivas. O que eles fazem é algo mais útil: tornam visível a distância entre o mundo complexo das decisões reais e a versão simplificada que muitas vezes saiu dos gabinetes das autoridades e chegou ao cidadão comum.
E é justamente nessa distância de tempo que a pergunta feita pela Gazeta do Povo desde os primeiros meses da pandemia ganha força. Quando o Estado diz que está agindo “pela ciência”, quem fiscaliza a ciência que está orientando o Estado?
Em março de 2020, essa pergunta parecia bastante inconveniente. Em 2026, depois da abertura de documentos, da revisão de políticas e da publicação de registros privados dos principais responsáveis pela resposta à Covid, ela parece simplesmente indispensável.
noticia por : Gazeta do Povo


