Feijão nenhum desse nosso Brasil é temperado com folhinhas de “loiro”. Por outro lado, uma pessoa pode ser loura ou loira, tanto faz.
Chama variação livre isso —e pode ter as mais diversas origens nos idiomas. Até porque nem sempre as mudanças fonéticas que geram as palavras de uma língua são cem por cento regulares.
A história do português, como não podia deixar de ser, está cheia desses exemplos de regras com resultados variáveis. O caso do ditongo latino “au” é exemplar. Por vezes ele gerou um “ou”: como no caso de “aurum”, que deu em ouro (ou “ôro”, na pronúncia). Em outras situações, virou “au”: como em “causam”, que se transformou na nossa “coisa”.
E a gente sabe também que esses resultados, além de tudo, variaram ao longo da história. Machado de Assis ainda escrevia “cousa”, e Sousândrade decantava o brilho do “oiro”.
Agora, vamos supor que a gente não tivesse esses dados todos, em textos mais antigos, para provar que um dia essas palavras tiveram pronúncias e grafias diferentes das que têm hoje.
Nessas situações, muito frequentes na história antiga dos idiomas, a gente pode apelar pra uma série de procedimentos de reconstrução de pronúncia. Com isso chegamos, por exemplo, a determinar a pronúncia real de línguas antigas como o latim e o grego.
Outro recurso útil é tentar encontrar registros de empréstimos, situações em que a palavra de um idioma vai parar em outro e, nessa nova casa, fica congeladinha com uma grafia que representava sua pronúncia no momento da chegada.
Ainda no século 16, marujos portugueses começam a visitar a ilha de Maurício, que fica no oceano Índico, a leste de Madagascar. Com isso, falantes da nossa língua devem ter sido os primeiros europeus a conhecer uma curiosa ave da família dos pombos que era endêmica dali e que, depois da chegada dos holandeses, em 1598, foi caçada até ser extinta. E essa extinção, infelizmente, mal levou um século.
O tal do bichão da ilha era curioso, manso e não tinha predadores naturais (daí não ser arisco e se aproximar tranquilamente daqueles pérfidos bípedes não plumados que desciam das embarcações).
Como não voava, ele caminhava de um jeito que os europeus achavam engraçado, meio esquisito. E era a soma dessas características que determinava a facilidade com que as aves eram mortas, já que iam se achegando tranquilas e rebolantes, apenas para tomar uma traulitada ou um tiro.
Aqueles pombões não pareciam ser muito bons da cabeça, nem aos olhos dos portugueses, que achavam que eles eram “malucos”, nem na opinião dos holandeses, que se apropriaram da palavra que ouviam os portugueses pronunciarem quando se referiam ao bicho: “doudo”.
O curioso é que, apesar de essa história toda ter começado com uma palavra do português, o nome que usamos até hoje para falar da tal ave saiu primeiro do holandês pro inglês, e foi dessa língua que voltou ao português, de novo como empréstimo (essas coisas acontecem). E o negócio é que um falante de inglês, quando ouve doudo, escreve “dodo”.
E pronto. Abracadabra. Foi assim que acabamos ficando, nós, com uma palavra nova, dodô (ou dodó), que ainda serve para mostrar que nosso “doido” um dia teve mesmo outro som, outra pronúncia mais “douda”.
Fato bônus: ninguém sabe a origem de “doido”, ou “doudo”. Mas é bem provável que seja uma derivação do latim “doctus”, o mesmo que nos deu a palavra “douto”. É mole?
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noticia por : UOL


