Por fora, a Netflix ainda é a líder em assinaturas e domina o mercado de streaming há algumas décadas. Por dentro, a estrutura apresenta rachaduras e os números deixam os investidores em alerta. A crise tem múltiplas explicações, mas uma dela é evidente: a adesão à cultura woke.
Há um ano, a Netflix valia mais de US$ 500 bilhões e, no início deste mês, o valor caiu para US$ 344 bilhões. Investidores otimistas dizem que se trata de uma precificação esperada após anos de crescimento. Mas há outros dados que, analisados em conjunto, podem trazer maior preocupação.
As ações da empresa recuaram 21% neste ano e estão na casa dos US$ 78. Na mesma data do ano passado, as mesmas ações valiam US$ 122. No primeiro semestre deste ano, chegaram ao seu patamar mais baixo: US$ 65.
Além disso, o ritmo de novas assinaturas desacelerou. A empresa teve o seu menor crescimento em anos, estimado em 900.000 novos membros, o que coincidiu com o pior trimestre de audiência de seus 10 principais títulos desde a última greve dos roteiristas.
Em um período de incertezas, uma decisão oficial da empresa foi bastante questionada. A Netflix divulga semestralmente o relatório “O Que Nós Assistimos”, em que revela aos investidores e assinantes as produções mais assistidas e as perspectivas da empresa para o futuro. Porém, na metade deste ano, a companhia decidiu que a divulgação não será mais semestral, mas sim anual. E parar de divulgar dados quando eles pareciam controversos soou mal.
Para piorar, ficou mal explicado o fracasso na compra da Warner Bros. No início deste ano, a Netflix avançou sobre a tradicional empresa com uma oferta de US$ 82,7 bilhões pelos estúdios de cinema e televisão e pelos serviços de streaming HBO Max e HBO. Seria a vitória definitiva da companhia de Los Gatos, Califórnia, que incorporaria produções como Game of Thrones, Succession e a aguardada série de Harry Potter. Porém, a Paramount aumentou a oferta para US$ 100 bilhões e levou a disputa.
Netflix ou YouTube?
Muitos espectadores já estranham o layout da plataforma. Se antes filmes e séries dominavam a tela, hoje eles convivem com jogos de videogame. “Squid Game Unleashed”, “Mini Golf” e o clássico “Tetris” são algumas das opções. Além disso, transmissões ao vivo, como lutas de boxe entre Jake Paul e Mike Tyson, e o show de retorno do grupo sul-coreano BTS são novos atrativos. Na Netflix americana, já são comuns podcasts e até vídeos curtos.
A situação é bem diferente da concorrente HBO, que, neste aspecto, parece um serviço de streaming para adultos. Com um visual mais sóbrio, a plataforma exibe apenas filmes e séries de inegável qualidade, como o premiado Pecadores (2025), Euphoria (2019-2026) e o seu último sucesso, The Pitt (2025), série médica líder de indicações no Emmy deste ano.
A Netflix, aliás, nunca conseguiu traduzir seu domínio no mercado em soberania nas premiações. A rivalidade é acirrada com a HBO e agora também com a Apple TV, que ganha espaço com excelentes produções como Pluribus (2025), O Segredo de Widow’s Bay (2026) e F1: O Filme (2025).
Roteiristas de lado
As pautas progressistas ainda estão muito presentes nas produções e, para alguns, a plataforma virou a “Wokeflix”. Recentemente, o filme “Elize: Sombras de Uma Mulher” (2026) recebeu críticas por relativizar um crime bárbaro e retratar a assassina como vítima de um relacionamento abusivo. O suspense de ficção científica estrelado por Wagner Moura, “A Última Casa” (2026), parece um manifesto ecológico. Até a prestigiada série “Adolescência” (2025) retrata, sob certo aspecto, um episódio de violência de gênero.
No final do ano passado, um texto revelador desse estado de coisas ganhou repercussão. Ele foi publicado no Substack do roteirista Fabio Danesi Rossi, que escreveu séries de sucesso como “O Negócio” (2013-2018, HBO), o filme “Pronto, Falei” (2022, Prime) e a animação “Sítio do Pica-Pau Amarelo” (2012, TV Globo), além de “Julie e os Fantasmas” (2011-2012, Netflix), que chegou a ser vendida para a plataforma americana.
No auge de sua carreira, junto de outros dois roteiristas, Alexandre Soares Silva e Rodrigo Castilho — que também participaram dos roteiros de “O Negócio” e “Pronto, Falei” —, o trio apresentou um projeto para a Netflix que foi o escolhido entre milhares de concorrentes. “Mas ele tinha um problema: havia sido criado por três homens brancos”, lamenta Rossi. Então, a Netflix exigiu a entrada de uma mulher na equipe, o que foi prontamente aceito pelos três. Porém, as exigências seguiram, o interesse da protagonista por arte foi considerado muito “white people problem” (frase cômica e irônica usada para descrever reclamações fúteis de pessoas ricas) e a série não foi para a frente.
Alexandre Soares Silva, em entrevista à Gazeta do Povo, explica que, quando se foca muito em cotas, como no exemplo do caso anterior, a qualidade do produto pode ser prejudicada. “A Netflix virou um pouco sinônimo de baixa qualidade”, resume ele. Entre as produções da plataforma, ele elogia apenas alguns bons momentos em The Crown (2016-2023) e Beef (2023).
O lado ruim da tecnologia
Outra mudança sutil, mas que contribuiu para a perda de qualidade, está nas consequências da tecnologia. Com o maior número de visualizações feitas pelo celular, somado ao déficit de atenção generalizado, foi necessária uma alteração na escrita dos roteiros. É comum que as produções repitam a história central à medida que a trama avança, pois muitos espectadores acabam se esquecendo do enredo.
A reclamação foi endossada pelos consagrados atores Matt Damon e Ben Affleck em entrevista ao podcast de Joe Rogan. Já o prestigiado diretor Martin Scorsese disse que, nos streamings, “a arte do cinema é sistematicamente desvalorizada, marginalizada, rebaixada e reduzida ao menor denominador comum: ‘conteúdo’”.
Agora mesmo, o filme mais visto na Netflix brasileira é “Grand Theft Auto VI: An Extended Look” — que é apenas o trailer do famoso jogo de videogame. Em seguida, “O Homem que Sussurra” (2026), estrelado por Robert De Niro, apresenta uma confusa e problemática trama policial. Entre as séries, nada de muito relevante sobreviveu ao sucesso estrondoso da criativa Stranger Things. Fazer boas recomendações aos conhecidos na plataforma já foi tarefa mais fácil.
noticia por : Gazeta do Povo


