Exibido no último dia do Festival de Veneza, “Retorno a Buenos Aires” trouxe ao Lido Adriano Giannini, um ator conhecido do público italiano e filho de um dos grandes nomes do cinema local, Giancarlo Giannini.
A coprodução brasileira e italiana tem ainda a atriz brasileira Paula Cohen no elenco e parte de uma história argentina para tocar num ponto sensível a respeito da ditadura, a culpa e a dor de quem precisou transgredir seus próprios princípios para continuar vivo.
Adriano Giannini interpreta Mariano Guerra, um médico que deixou o país há 33 anos, refez a vida na Itália e retorna a Buenos Aires para testemunhar no julgamento dos militares que o sequestraram, torturaram e mantiveram escravizado durante a ditadura argentina, que durou de 1976 a 1983.
Mariano sobreviveu à custa não apenas de colaborar com o regime perverso da ditadura, delatando conhecidos, mas efetivamente trabalhando como enfermeiro em um centro de tortura.
Ele ajudava a reanimar os prisioneiros torturados além da conta e aplicava sedativos nos que saíam para os voos da morte, em que eram atirados vivos de um avião que sobrevoava o oceano.
No hotel em que é colocado junto de outras vítimas antes do julgamento em Buenos Aires, Mariano reencontra sobreviventes, volta a lugares ligados à sua história e revive episódios que passou décadas tentando esquecer.
Também se conecta à filha de uma ex-companheira que só conheceu recentemente a verdade sobre os seus pais, ambos mortos pela ditadura. A jovem busca desesperadamente entender o que aconteceu com a mãe, e a história de Mariano está diretamente ligada à dela.
O cineasta Marco Bechis, que foi sequestrado pela polícia argentina em 1977 e levado a um centro clandestino de detenção, não conta sua história pessoal neste filme, mas encontra na trama uma maneira de falar de um assunto que nunca o abandonou, como vivem os sobreviventes das atrocidades do regime militar. Como essas pessoas aprendem a conviver com um passado terrível.
Bechis não faz do julgamento um thriller, nem de Mariano um herói. Os encontros entre os sobreviventes, as esperas, os depoimentos e, principalmente, os silêncios são cheios de culpa e remorso.
Adriano Giannini interpreta um Mariano Guerra sempre desconfortável, numa atuação precisa e econômica. Este é um homem que sabe que sobreviveu porque observa muito e fala pouco, e continua vivo porque se esforça para não olhar para trás. Mas agora se vê obrigado a ultrapassar seus próprios limites mais uma vez e reviver tudo o que passou grande parte da vida tentando esquecer.
Paula Cohen interpreta a juíza Desideria Losada e se junta a um elenco formado principalmente por argentinos e italianos, numa produção que também cruza as duas cinematografias.
“Retorno a Buenos Aires” não acrescenta imagens de horror a uma história que o cinema argentino já contou muitas vezes. Este é um filme contido, frio até, que não tenta fechar velhas feridas nem propor reconciliações. E aí está sua força.
noticia por : UOL


