A Casa Branca propôs na quarta-feira (9) deixar de contabilizar, no Censo de 2030, imigrantes sem green card e deixar de fazer perguntas sobre raça e etnia, como parte de uma reformulação que redefiniria quem é considerado residente dos Estados Unidos aos olhos do governo federal.
As medidas abrangentes alterariam radicalmente um processo que ajuda a determinar a distribuição de cadeiras no Congresso, de bilhões de dólares em verbas federais e de políticas destinadas a combater disparidades sistêmicas.
A proposta de regulamentação publicada na internet não contabilizaria na pesquisa os não-cidadãos sem green card, uma mudança significativa em relação ao processo que a Constituição determina que ocorra a cada 10 anos.
Historicamente, o censo pergunta aos americanos sobre raça e etnia e contabiliza todos os residentes do país, independentemente de sua situação migratória.
A reformulação também proibiria o Censo dos EUA de perguntar aos americanos sobre sua orientação sexual.
Embora a proposta provavelmente enfrente contestações judiciais, as mudanças retirariam da contagem populacional oficial usada para determinar as cadeiras no Congresso não apenas os imigrantes em situação migratória irregular, mas também aqueles que estão legalmente no país e ainda não obtiveram o green card ou a cidadania.
Com isso, áreas com maior número de imigrantes, que tendem a votar no Partido Democrata, poderiam perder representação e verbas federais.
A reformulação proposta, assim como a retirada das perguntas sobre raça, etnia e orientação sexual do censo, pode ter grandes implicações para a coleta de dados federais usados para embasar políticas antidiscriminação e de proteções aos direitos civis.
“Se não tivermos os dados necessários para constatar que há problemas, estaremos enterrando a cabeça na areia”, disse Kimball Brace, presidente da Election Data Services, organização que trabalha com governos locais democratas e republicanos em questões relacionadas ao censo e às eleições. “Não veremos o que está acontecendo. Não teremos noção do que aconteceu.”
Uma reformulação da contagem do censo enfrentaria obstáculos significativos. A 14ª Emenda determina “a contagem do número total de pessoas em cada estado”, e não apenas dos cidadãos.
Além disso, a regra afetaria uma contagem censitária posterior à eleição presidencial de 2028, de modo que um novo governo poderia tentar reverter as mudanças. Segundo a Constituição, cabe ao Congresso realizar o censo; no entanto, ele delegou ao Departamento de Comércio as decisões sobre o levantamento.
Mas alguns pesquisadores afirmaram que a decisão de Trump de tentar ressuscitar a iniciativa de seu primeiro mandato para reformular o censo poderia gerar um efeito inibidor e reduzir a participação.
Como parte da proposta, Washington afirma estar considerando incluir no censo uma pergunta sobre a situação migratória dos participantes, algo que, segundo alertas de grupos de defesa dos direitos civis, desestimularia imigrantes com e sem situação regular a preencher o formulário, por medo de retaliações.
“O governo Trump está tentando excluir parcelas da população que não considera verdadeiros americanos”, disse William Frey, demógrafo da Brookings Institution. “E, de muitas formas, reverter algumas das tendências e políticas importantes que entraram em vigor desde o movimento pelos direitos civis da década de 1960.”
A Casa Branca encaminhou as perguntas ao Departamento de Comércio, que não respondeu aos pedidos de comentário do New York Times.
Na proposta de regulamentação, assinada pelo secretário de Comércio de Trump, Howard Lutnick, o governo afirma que está reavaliando a forma como coleta dados sobre raça e etnia depois que “dúvidas substanciais sobre o significado, a relevância e o impacto da tentativa de categorizar pessoas por raça e etnia” surgiram no debate nacional.
A proposta também citou o decreto presidencial de Trump que erradicou do governo federal iniciativas voltadas à diversidade, equidade e inclusão.
A divulgação ocorreu depois que Trump ordenou, no ano passado, que o Departamento de Comércio excluísse do censo os imigrantes sem situação migratória regular. “As pessoas que estão ilegalmente em nosso país NÃO SERÃO CONTABILIZADAS NO CENSO”, escreveu Trump em uma publicação nas redes sociais em 2025.
A proposta desta quarta-feira, porém, foi além ao tentar excluir também os imigrantes em situação regular, mas que não têm green card.
No projeto, o governo argumentou que os imigrantes sem situação migratória regular não são “verdadeiros habitantes” dos EUA por causa “da falta de vínculo e lealdade suficientes” ao país. E, embora alguns imigrantes sem green card tenham situação regular, o governo afirmou na proposta que esse status é “menos duradouro e de duração indefinida”.
Trump iniciou uma iniciativa semelhante em seu primeiro mandato, quando tentou acrescentar uma pergunta sobre cidadania ao Censo de 2020. A iniciativa acabou fracassando.
Um tribunal federal rejeitou a tentativa, e a Suprema Corte se recusou a intervir. Servidores de carreira do Escritório do Censo, órgão que integra o Departamento de Comércio, também resistiram às tentativas do governo de pressionar seu trabalho.
A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, afirmou na quarta-feira em uma publicação nas redes sociais que seu gabinete estava avaliando medidas judiciais para contestar as mudanças propostas pelo presidente.
“A Constituição é clara”, disse James. “Toda pessoa que vive nos EUA, independentemente de sua situação migratória, deve ser contabilizada no censo.”
noticia por : UOL


