Bicampeões brasileiros, eles caminham da praça da Sé ao Vale do Anhangabaú pela campanha das Diretas Já. Quando sobe ao palanque, Magrão, como Sócrates era conhecido, promete permanecer no futebol nacional desde que haja o restabelecimento das eleições diretas no país.
Essa é uma das cenas da nova série documental de Walter Salles, “Sócrates Brasileiro”, que, apesar de ainda não estar finalizada, teve dois episódios exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na noite desta sexta-feira (23). Ao todo, serão quatro capítulos lançados no Globoplay, em data ainda não divulgada.
Um dos jogadores mais importantes do futebol na década de 1980, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira se tornou também uma das figuras mais emblemáticas da política nacional no século passado.
O projeto de Salles reconstrói essa trajetória e revisita a infância do atleta à luz dos chamados anos dourados, período de extrema efervescência cultural em que a sonoridade da bossa nova e a estética do cinema novo redefiniram o imaginário do país. Sócrates foi, portanto, atravessado por uma atmosfera intelectualizada e inquietante, graças também ao pai, um funcionário público autodidata e apaixonado por literatura.
O golpe de 1964, porém, interrompe esse sonho intelectual. Para Sócrates, a imagem do pai queimando livros, com medo da repressão militar, foi traumática e marcou o início do interesse daquele menino de dez anos pela política.
Com depoimentos de outros jogadores, familiares e amigos pessoais do atleta, a série também relembra os anos em que ele atuou nas categorias de base do Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto, no interior paulista. Nessa época, ao mesmo tempo em que se tornava um ídolo futebolístico, Sócrates estudava medicina na USP.
O grande momento de virada na vida do jogador foi a vinda para São Paulo, quando acertou com o Corinthians. O início do período foi marcado por uma forte cobrança da torcida e uma grande dúvida sobre seguir carreira no futebol ou na medicina, mas bastou um ano para que ele conquistasse a torcida com a bola nos pés.
Seu futebol evoluía, agora por jogar num clube mais competitivo, ao mesmo tempo em que sua sede por conhecimento aumentava. Juca Kfouri, jornalista e amigo de Sócrates, relembra na série, em tom bem-humorado, que emprestava livros a ele e que desconfiava da capacidade do atleta de conseguir ler tantos títulos em tão pouco tempo.
Assim, discretamente, ia fazendo perguntas para verificar se as leituras de fato aconteciam. Elas eram sempre respondidas na lata pelo amigo.
“Sócrates Brasileiro”, nos dois episódios exibidos na Mostra, narra ainda a campanha vexatória por parte do Corinthians no Campeonato Brasileiro de 1981. Com isso, o ano seguinte viu o sociólogo Adilson Monteiro Alves ser nomeado diretor da equipe.
Nesse momento, uma mudança começa a acontecer nos gramados do Parque São Jorge. Ao lado de Sócrates, de Wladimir dos Santos e de um jovem Walter Casagrande, Alves implanta uma autogestão inédita em que atletas, comissão técnica e funcionários decidiam tudo no voto paritário —do fim das concentrações às contratações.
Batizado de Democracia Corinthiana, termo cunhado por Washington Olivetto e legitimado após o título paulista daquele mesmo ano, o movimento converteu o vestiário alvinegro em trincheira cívica contra a ditadura.
No ano seguinte, mais um Campeonato Brasileiro para a conta. Na emblemática final contra o São Paulo, os jogadores do Corinthians entraram em campo carregando uma faixa com os dizeres “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.
No começo de 1984, esses mesmos jogadores foram às ruas pelas eleições diretas, na cena que ganha destaque na série de Walter Salles e que traduz a inquietação de um Brasil que dava sinais de que não toleraria mais a ditadura.


