Eu não suporto mais ser tão xingada

Eu não vou. Se quiser, vá você. Comecei assim meu dia. Tentei argumentar que é preciso continuar. É normal. Xingam todos os escritores. Xingam todas as mulheres. É disso que a internet se alimenta para, depois, alimentar de verdade somente um ou dois bilionários. É mesmo? Xingam mesmo? Sei não, querida. Você é mais xingada que a maioria, não acha? Eu não vou. Se quiser, vá você. Usar minha cabeça pra ganhar uma discussão contra a minha cabeça tem me cansado demais. Vamos lá, você tem que escrever. Escreva. Essa é a única coisa que você gosta de fazer. Faça. A única que sabe. Escreva. É o que você faz desde os 13 anos. É o que te mantém razoavelmente sã. É o que te dá fundamento, motivação e localidade. É o que enganou a sua tristeza, a sua mania e o seu pavor de lugares sem palavras. Você é escrever então escreva. Sem isso você é ou faz o quê? Eu não vou, se quiser, vá você.

Me sento na frente do computador e dói a pele, os músculos, os nervos. Tudo em greve: vai você, eu não vou. Aonde eu iria sem a cabeça e o corpo? Quem ou o que em mim iria sem eles?

Há meses frequento um fonoaudiólogo porque comecei a perder a voz. Na terapia descubro que a voz perdeu a vontade da voz. Agora perco a vontade da ideia do texto e então o texto.

Pela primeira vez na vida eu vou dizer: eu não suporto mais ser tão xingada na internet. Eu não suporto mais. Todos os dias há 20 anos. Eu sou xingada todos os dias há 20 anos. Os livros vendem, os cursos lotam, o canal cresce. Ela deve estar ótima! Mas tudo o que eu faço gera uma quantidade imensa de ódio (e eu tento entender o real motivo). Chata tenho certeza de que sou. Mas é preciso atacar a ideia, o pensamento, a intenção. A cara, a voz, o jeito, a família e até a formação universitária.

Eu nunca imaginei que diria isso, eu nunca imaginei que me deixaria ser vista neste lugar tão despreparado e coitadinho. Eu nunca pensei em me expor sem ser pelo humor ou pela desforra. Mas é preciso dizer isso para que a voz e o texto possam dizer qualquer outra coisa que viria depois do que está entalado aqui: eu estou adoecendo, minguando, deformando.

Tirei férias desta coluna. Voltei e pensei em sugerir uma coluna quinzenal. Ensaio um dia pedir demissão de todos os lugares. E são muitas as mulheres que me xingam! Se eu tivesse dinheiro guardado eu desapareceria por um tempo? Quero morar no subsolo de uma casinha no mato. Eu sou uma fortaleza. Eu me esculacho antes e melhor do que qualquer um desses malditos. Eu nunca liguei para essas ofensas digitais. Até a soma de tanta violência por tantos anos se tornar realmente nociva para a minha saúde. Bateram, bateram, até o João Bobo dentro da minha cabeça avisar que não quer mais se levantar.

Ontem postei fotos de amigos indicando meu livro e uma senhora lunática conseguiu enxergar uma afronta em uma mera divulgação de trabalho: “Patética! Você está querendo silenciar quem te critica!”. A internet me apresenta diariamente tantas pessoas doentes que eu estou adoecendo junto com elas.

Você será xingada porque falou mais uma vez de si mesma. E foi dramática. Porque a real literatura não é isso. E você também é feia. E coitada da sua família. Fique quieta. Insuportável. Louca. Eu estou sempre rindo dos xingamentos. Eu estou rindo há 20 anos. Mas hoje eu olhei a faquinha da manteiga e pensei: e se eu fizesse um corte bem pequenininho na minha perna? Não. Eu não vou, se quiser, vá você.


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noticia por : UOL

quinta-feira, 6, agosto , 2026 03:46
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