Existe a vida, no céu e no abismo, na carne e menos ainda. Esta é uma Bienal de Veneza cheia de corpos, dilacerados, rastejantes, cheios de flores e galhos que brotam das entranhas. A mais polêmica das edições recentes da mostra italiana, no olho do furacão de uma série de guerras e batalhas geopolíticas, abre as suas portas com trabalhos de uma anatomia na contracorrente.
É um corpo elástico, ou ausente. Guadalupe Maravilla, artista de El Salvador radicado nos Estados Unidos, constrói redes de dormir e carrinhos de bebê, aparatos do descanso e da infância, para denunciar atrocidades contra as crianças detidas nas fronteiras americanas, um protesto contra a violência de Estado na ordem do dia hoje em dia.
Na sequência, Carrie Schneider, uma artista americana, constrói um quilômetro de imagens fotografadas num apartamento feito câmera escura, o corpo no papel fotográfico, num contato tão quente quanto ausente, fantasmas que flanam por aí. É um exercício de estranha intimidade, em que corpos são ao mesmo tempo carne quente e afoita e espectros que desaparecem no ar.
Essa é uma mostra alicerçada na desaparição, para não dizer na morte. Sua diretora artística, a camaronesa Koyo Kouoh, morreu durante o processo de idealização da exposição. Muitos outros morreram em conflitos pelo mundo denunciados pelos artistas escalados por ela, e são ensurdecedores os ecos ouvidos ao redor, gritos de ódio e palavras de ordem contra os artistas americanos, russos e israelenses presentes na mostra, pelas extensas contas de atrocidades que pesam sobre suas bandeiras.
Na mostra principal, ao contrário dos pavilhões nacionais a cargo das embaixadas, esses artistas podem andar sem culpa, no sentido que muitos deles denunciam os próprios países de origem no conforto do exílio. Está tudo bem. Só não deixa de ser doloroso o estado das coisas, um mundo de extrema violência que tem de lidar com fantasmas, os voyeurs da morte certa, os flâneurs à beira do nosso precipício de contradições.
Essa sequência de corpos decadentes se escancara no que os organizadores da mostra chamam de procissão ao longo do Arsenale. O maior espaço da Bienal de Veneza, um longuíssimo pavilhão de pedra à beira do mar que antes foi a fábrica dos navios de guerra da medieval república Sereníssima, se transforma agora numa espécie de cemitério às avessas.
Lá estão os corpos amorfos, totêmicos, de Ranti Bam, artista nigeriana radicada no Reino Unido, as pinturas monumentais do queniano Kaloki Nyamai, em que os corpos imponentes parecem sobrevoar os minúsculos espectadores, os desenhos da francesa Tabita Rezaire, silhuetas vazadas sobre tecidos esvoaçantes.
E há os mortos que florescem, uma ala toda da mostra. O americano Nick Cave criou uma série de corpos, moldados à própria figura, de onde brotam galhos e flores, a morte em Veneza que se converte em vida potente. São figuras engolidas pelo entorno, uma sequência de braços que se agarram solitários no vasto infinito, um homem sentado que se torna raiz de um arbusto feroz, flores raras e estranhas.
É a flora que domina o corpo, uma questão na mostra mais nítida ainda no trabalho da dupla Rajni Perera, do Sri Lanka, e Marigold Santos, das Filipinas, a escultura de argila, material recorrente na mostra italiana neste ano, de uma mulher nua agarrada ao chão, de seios descomunais que tocam o piso, e pernas desatarraxadas do corpo, coxas que se tornam piscinas e aquários de vida nova.
Isso toma um rumo sadomasoquista, couro e tudo, nos corpos-cadáveres costurados pelo sul-africano Nicholas Hlobo. São homens de borracha, madeira e pele, saídos do universo dos machos das oficinas mecânicas, com um pé no fetiche gay, outros corpos aqui rastejantes, clamando por vida, ao rés-do-chão, desconstruídos contra a própria vontade.
Violência é um “leitmotif” vívido da mostra, às vezes muito óbvio, que grita em vez de sussurrar, como gostaria a regente da coisa toda. Há um excesso de poemas e obras que denunciam as atrocidades na ordem do dia —Faixa de Gaza, Ucrânia, Irã—, mas há um contraponto mais fino, que toca nas nossas violências mais mundanas, mais bobas, não menos profundas e dolorosas.
É nesse lugar da dor horizontal, de uma sensibilidade que toca de ponta a ponta a angústia de estarmos vivos, antes de estarmos mortos, que a mostra cresce. É delirante e tocante a sequência de artistas arregimentados agora em Veneza que falam da dura beleza do aqui e agora, a existência agreste de lugares tão díspares quanto Abidjan, Beirute, Los Angeles, Nova York, a capital porto-riquenha de San Juan.
Enquanto a camaronesa Werewere Liking imagina skylines futuristas para as metrópoles africanas, mergulhamos fundo em exercícios de comparação histórica do israelense Avi Mograbi, que justapõe imagens de suas viagens pelo Oriente Médio com seu professor de árabe, numa clara referência à tentativa frustrada de convivência entre judeus e palestinos no território mais conflagrado do planeta, com imagens de antigas listas telefônicas da região, em que pessoas eram listadas por suas habilidades e profissões, não pela religião ou pela cor da pele.
O francês Kader Attia, um dos grandes artistas da virada do último século, põe isso em perspectiva numa instalação em que entrevista videntes de toda a Ásia sobre o nosso futuro, as entrevistas mostradas em telas atrás de pendentes de estilhaços de espelhos. Somos nós e somos eles num jogo perigoso, de cortes e reflexos.
Mas é surpreendente a ala, digamos, americana desse recorte. Estão frente a frente os trabalhos de Guadalupe Rosales, um potente compêndio da cultura latina de Los Angeles, uma espécie de tecnobrega chicano, das garotas de programa aos carros turbinados, e de Rose Salane, que investiga num documentário às avessas as conversas entreouvidas nas ruas nova-iorquinas, banais, existenciais, a vida, no calor da hora.
No fundo, é a vida que está no centro das atenções, essa vida tão frágil quanto uma conversa inútil de mensagens de áudio trocadas na plataforma do metrô. Seria o nosso jazz desastrado e distraído atual. É uma mostra que tenta gritar que a vida é bela apesar de tudo, enquanto caem as bombas, enquanto morrem os homens ao nosso redor, enquanto a vida segue nas redes sociais. Talvez sejam esses os sussurros, não os gritos, que regem a coisa toda.
noticia por : UOL


