Feliz de quem encontra a sua matilha

Uma vez ouvi alguém dizer que eu havia nascido na família errada. De fato, eu destoava. Meus pais, que escalaram socialmente, queriam me preparar para noivar e casar bem. Eu já andava frequentando a ala jovem de um partido e estava mais preocupada em escrever e sentar fogo no sistema.

Aos 15 anos, me obrigaram a frequentar um curso de Etiqueta & Boas Maneiras. Coitada da professora. Ao comentar que era de bom tom deixar um restinho do prato, de forma que o anfitrião não achasse que faltou comida, ela teve de aguentar a minha mão levantada: a senhora não acha um absurdo desperdiçar alimentos num país em que há tanta fome?

Todas as meninas torceram os narizes empinados para a pergunta (com certa razão), menos uma, a única de cabelos curtos, talvez porque nem tenha ouvido o que eu disse, já que usava fone em uma das orelhas. Na aula seguinte, eu me sentava com ela no fundão e inaugurava uma amizade duradora, que nos levou a saber tudo sobre o gótico e o punk, mas me tornou uma pessoa que, até hoje, se estabana na hora de posicionar os talheres sobre a mesa.

Anos depois, eu ingressava no melhor lugar que existe para se encontrar uma matilha: a faculdade. Peneira de predileções, o curso universitário acaba por aglutinar um bando de gente com os mesmos interesses. Finalmente, eu descobria que não há nada de errado em ler livros enquanto se escova os dentes. Ali fiz uma turma de jaquetas encardidas que me acompanhava em cinemas onde só passavam filmes maçantes. Alguns desses cães caminham até hoje ao meu lado, e volto a ter 18 anos quando os encontro.

Dizem que as melhores amizades são essas, travadas na juventude. Dizem mais: que a facilidade para fazer amigos vai diminuindo à medida que envelhecemos, talvez porque estejamos mais fechados na família nuclear, talvez porque tenhamos mais exigências e manias, talvez porque o poder de se fascinar, tal qual as articulações, vá se enrijecendo com o tempo ou apenas porque já tenhamos nossos vira-latas preferidos.

Talvez. Mas quando me mudei de São Paulo para Curitiba, em 2022, eu não tinha escolha. Sufocada pela tensão pré-eleitoral e por um entorno oposto à minha orientação política, ou achava outros para uivarem ao meu lado ou acabaria por enlouquecer.

A carência faz a habilidade: mesmo com as juntas rijas, aglutinei pessoas em torno de um sarau de literatura que se converteu imediatamente em uma nova matilha, batizada de Minuano em homenagem à chácara onde aconteciam os nossos encontros, e onde pude dançar e cantar “Apesar de Você” a plenos pulmões sem ser escorraçada pelos vizinhos.

Agora me aqueço para mais uma mudança. Ano que vem, colocarei as malas na soleira de outro município, onde alguns cães conhecidos já me esperam, a língua arfando de novidades. Também sei que conhecerei outros, e ainda que uma certa preguiça cinquentona por vezes me invada, sinto certa excitação ao imaginar o que me espera.

Gosto de pensar que, neste exato instante, há alguém, em algum lugar, que não me conhece e que, por algum motivo, um dia olhará para mim e pensará: essa é das minhas. Eu retribuirei o interesse, puxarei um papo e, entre milhões de outras pessoas, escolheremos capengar juntos por alguma avenida.


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noticia por : UOL

domingo, 31, maio , 2026 09:26
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