Uma escolta de seguranças com escudos blindados cerca Iván Cepeda, líder da corrida pela Presidência da Colômbia, toda vez que ele sobe ao palco de um comício. Seu principal adversário, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, discursa atrás de um vidro blindado. A terceira colocada nas pesquisas, Paloma Valencia, tem esquema de proteção reforçado pelo governo.
Todos denunciaram ameaças de morte ao longo da campanha para as eleições que ocorrem neste domingo (31), quase um ano após o então pré-candidato à Presidência Miguel Uribe sofrer um atentado a bala durante um comício. O político, cuja mãe foi uma jornalista sequestrada e morta por ordem de Pablo Escobar na década de 1990, morreu dois meses depois.
Se a situação não é comparável às décadas mais duras do conflito armado que provocou mortes em série de políticos, líderes de movimentos sociais e jornalistas no século 20, tampouco é o que a população esperava estar vivendo dez anos após o Acordo de Paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Na semana passada, o senador Alexander López sofreu um ataque a balas na rodovia que liga Popayán a Cali, conhecida pela presença de grupos criminosos. Em fevereiro, a senadora indígena Aida Quilcué, candidata a vice-presidente na chapa de Cepeda, foi sequestrada por um grupo armado e liberada horas depois.
“A violência volta a ser uma questão central no cenário eleitoral”, afirma Catalina Niño Guarnizo, coordenadora do projeto de segurança da Fundação Friedrich Ebert na América Latina
Segundo um relatório divulgado este mês pelo CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), as consequências humanitárias do conflito armado no país atingiram “o nível mais grave da última década” em 2025, e isso é resultado de uma “deterioração progressiva” da segurança pública que começou em 2018.
“Honestamente, estamos entrando em um novo ciclo de violência. Não sabemos até onde esse ciclo vai chegar, mas sabemos algumas características dele”, diz Catalina. Essas características incluem fragmentação dos grupos, muitos deles dissidências que surgiram após a principal guerrilha da Colômbia entregar as armas, diversificação das atividades ilegais e novos objetivos dos criminosos.
De acordo com especialistas, os grupos armados não tentam mais enfrentar o Estado para alcançar o poder nacional. Em vez disso, querem ter domínio do território para garantir seus lucros. Isso pode parecer familiar —é o típico funcionamento de facções de outros países da América Latina, incluindo o Brasil—, mas as raízes dos grupos colombianos conferem características próprias à dinâmica de crime.
“Eu percebo que, na Colômbia, o fenômeno está fora das cidades. É muito mais rural e afeta principalmente comunidades camponesas e étnicas em territórios remotos, enquanto em outros países é uma questão mais urbana”, afirma Catalina.
Muitas dessas zonas eram bastiões das guerrilhas até 2026 e, até hoje, são isoladas.
Nesta semana, autoridades ficaram dias sem apresentar os números oficiais de uma matança no departamento de Guaviare, na Amazônia colombiana, após grupos rivais entrarem em combate. O local provavelmente está repleto de minas terrestres que os grupos dissidentes instalam para tentar controlar o garimpo e rotas de narcotráfico.
“Temos um legado de anos de guerra e de um mercado de armas muito grande”, afirma María Emilia Lleras, analista de políticas públicas e especialista em resolução de conflitos. “Lembremos que as Farc eram um grande traficante de armas global. No auge do poder da guerrilha, passaram de uma guerra de guerrilha para uma guerra convencional, quase chegando ao estágio de uma guerra aberta.”
Embora ainda contem com o fato de que a Colômbia é o principal produtor de cocaína do mundo, esses grupos já diversificaram as suas atividades com garimpo, contrabando de migrantes, tráfico de madeira e sequestro —esse último, um crime que triplicou ao longo do mandato de Petro, com uma explosão em 2025.
Nas últimas semanas, Petro insistiu que seu governo não deixa uma crise de segurança, apresentando a quase estável taxa de homicídios como prova. Para especialistas, essa análise deixa de lado a forma como o crime se manifesta na Colômbia hoje.
Das ambiciosas propostas de Petro, uma das principais era a chamada “paz total”, ou seja, a negociação com os grupos armados dissidentes das Farc ainda em atividade —em especial o ELN (Exército de Libertação Nacional), conhecido como a última guerrilha ativa da Colômbia.
Após idas e vindas, porém, o plano está parado desde janeiro do ano passado, quando a escalada de um conflito armado na região de Catatumbo deixou mais de 100 mil deslocados.
Diante desse cenário, a Colômbia se vê diante de uma encruzilhada. Aprofundar os diálogos e a “paz total”, como quer Cepeda, parte do pressuposto de que esses grupos ainda agem por uma ideologia, o que especialistas, em geral, rechaçam. O enfrentamento direto, como pregam Espriella e Paloma, pode reviver dinâmicas da guerra que matou mais de 200 mil civis em seis décadas.
“Eu me preocupo bastante com o que parece falta de vontade ou capacidade para rever a estratégia para a paz total”, diz Catalina. “A ideia de negociar com todos os grupos para reduzir os níveis de violência é boa, mas se isso não funcionou por quatro anos, claramente precisa de ajustes.”
noticia por : UOL


