Em julho de 2019, o ex-presidente Jair Bolsonaro bateu de frente com o físico Ricardo Galvão, então diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A briga começou por causa da divulgação de dados sobre o desmatamento na Amazônia: os números indicavam uma alta de quase 90% em relação ao mesmo período de 2018, o primeiro ano do governo de Bolsonaro.
O presidente não engoliu. Chamou os índices de “mentirosos” e questionou se Galvão não estava “a serviço de alguma ONG”. Em resposta, o físico afirmou que Bolsonaro falava como se estivesse numa “conversa de botequim” e classificou suas acusações de “covardes”. Ele foi exonerado semanas depois.
Fora do governo, Ricardo Galvão voltou a lecionar na USP e virou uma espécie de herói da resistência para boa parte da comunidade científica. Mas hoje ele é mais do que isso: seu nome puxa uma renca de candidatos que tentam formar uma autointitulada “Bancada da Ciência” no Congresso a partir do próximo ano.
Junto com Galvão estão figuras como Nísia Trindade (ex-ministra da Saúde de Lula), Márcia Abrahão (ex-reitora da UnB), Tatiana Roque (matemática da UFRJ). Wilson Cabral de Sousa Júnior (engenheiro do ITA) e Luciana Gatti (climatologista do Inpe).
Nísia e Márcia estão no PT, Tatiana no PSB, Wilson no PDT, Gatti no PSOL. E o próprio Ricardo Galvão também faz parte da base de apoio de Lula.
O físico foi um filiado discreto do PSDB durante 29 anos. Em 2022, a convite de Marina Silva, migrou para a Rede, tentou uma vaga na Câmara e ficou na suplência. No ano seguinte, já no governo Lula 3, ele assumiu a presidência do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Em 2025, Galvão ficou com a cadeira de Guilherme Boulos no Congresso. E, no último mês de março, foi para o PSB, com a bênção do vice-presidente Geraldo Alckmin.
Ou seja: a tal “Bancada da Ciência” é, na prática, um grupo de esquerda.
Tudo é “negacionismo”
Todos esses pesquisadores têm uma forte atuação em temas como saúde e clima e transitam no ambiente universitário — justamente os setores mais diretamente envolvidos nas disputas por orçamento e políticas de Estado. Isso ajuda a entender a composição do movimento, que tem numa única palavra sua principal munição: “negacionismo”.
O termo virou uma espécie de guarda-chuva conceitual para o grupo: serve tanto para quem rejeita evidências científicas quanto para aqueles que questionam as decisões tomadas a partir delas. O PL da Devastação, que facilita o licenciamento ambiental para obras e atividades econômicas, ilustra bem essa armadilha.
Discordar do projeto por razões ecológicas é legítimo. Mas esse debate também inclui escolher as regras do jogo: o que precisa de licença, quais critérios valem, quanto poder vai para o Estado (e a esquerda, como se sabe, sempre quer mais poder para o Estado).
No entanto, quem questiona essas escolhas é tratado como herege científico — um jeito sempre eficiente de matar o debate antes que ele comece. No fundo, o que está em jogo não é só ciência, mas também (muita) política.
De qualquer forma, há uma pergunta que fica no ar, principalmente para o campo conservador e liberal: por que não existe uma bancada da ciência da direita?
A resposta mais fácil, dizer que a direita é “anticiência”, não resiste a uma checagem rápida. Há políticos conservadores que defendem mais investimentos no setor, votam a favor de bolsas de pesquisa e citam com orgulho instituições como a Embrapa.
A explicação mais provável não tem a ver com ideias, e sim com organização. E, nesse quesito, a esquerda saiu na frente.
Cientistas Engajados
Ainda em 2017, durante a gestão de Michel Temer, surgiu um movimento para cobrir exatamente o espaço que a direita deixou vazio. Nascido de uma disputa pela reitoria da USP, o grupo Cientistas Engajados foi criado pela economista (e doutora em Energia) Mariana Moura com uma proposta bem direta: os pesquisadores devem parar de só pedir recursos e passar a participar da formulação das políticas públicas.
As primeiras candidaturas saíram em 2018, pelo minúsculo PPL (Partido Pátria Livre), fundado por ex-guerrilheiros da organização terrorista MR-8 e recentemente incorporado ao PCdoB. Mariana foi uma das candidatas, mas o grupo não elegeu ninguém.
Em 2022, o Cientistas Engajados se juntou a outros coletivos semelhantes, como o Educação e Ciência para Reconstruir o País, articulado pelo agrônomo Edward Madureira Brasil, ex-reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e atualmente vereador em Goiânia pelo PT. Essa movimentação resultou em mais de cem candidaturas Brasil afora, porém o saldo nas urnas foi modesto.
Na Câmara, por exemplo, apenas oito conseguiram se eleger, e sete deles já eram deputados. Ainda assim, o nome “Bancada da Ciência”, usado meio de passagem em 2018, ganhou corpo em 2022 e chega às eleições deste ano como um projeto político bem mais organizado.
“Ogro negócio”
Em entrevista à Gazeta do Povo, Ricardo Galvão comentou a concentração das candidaturas de cientistas na esquerda. “No meio científico, tanto no Brasil quanto no exterior, há certa inclinação a posições progressistas em questões sociais”, afirmou.
Mas Galvão vai além da explicação sociológica e cutuca os adversários. Segundo o físico, os movimentos científicos “encontraram maior receptividade à esquerda porque surgiram quando a extrema direita se associava fortemente ao governo Bolsonaro e ao negacionismo orientado por Olavo de Carvalho”.
Ele ainda arremata: “É preciso reconhecer, contudo, que o debate brasileiro atual carece de uma direita verdadeiramente democrática, erudita e comprometida com o país”.
Questionado sobre o uso recorrente da palavra “negacionismo”, Ricardo Galvão suaviza o discurso. “A discordância sobre políticas públicas é sempre legítima se respeitar as evidências científicas”, diz.
Por fim, o físico cita a Embrapa como um bom exemplo de política pública “baseada na evolução científica”. Já o perigo, para Galvão, está no que ele chama de “ogro negócio” — responsável, segundo ele, por uma “expansão devastadora” sobre florestas essenciais no controle das emissões de gases do efeito estufa.
Nem de direita, nem de esquerda
“O Brasil precisa de uma bancada da ciência, mas não de uma ciência de bancada partidária. Ciência não deveria ser de direita nem de esquerda”, diz o senador Marcos Pontes (PL-SP). Astronauta, engenheiro pelo ITA, tenente-coronel aviador da reserva e ex-ministro de Ciência e Tecnologia de Bolsonaro, ele é a exceção mais conhecida entre os cientistas do campo conservador.
Questionado se a direita investiu pouco na formação de pesquisadores com atuação pública — ao contrário do que fez em áreas como economia e direito, onde criou uma rede sólida de institutos —, Pontes faz uma ressalva. “Uma coisa é formar pesquisadores, outra é estimular pesquisadores já altamente qualificados a participarem do debate público e político”.
Sobre sua passagem pelo ministério, o senador reconhece a tensão que os cortes de recursos causaram no setor durante a gestão Bolsonaro. “É verdade que enfrentamos dificuldades orçamentárias muito sérias, e nunca escondi minha posição sobre isso”, afirma, reforçando que defendeu publicamente o fim dos contingenciamentos.
Questões fiscais à parte, Marcos Pontes acredita que existe um caminho para a direita se aproximar da ciência. E ele passa por um “tripé essencial” composto por tempo, participação e presença.
“Presença é o processo mais desafiante. Porque levar as nossas ideias para o ambiente acadêmico e científico pode gerar atritos em espaços que a esquerda acha que é o seu território, mas não é”, diz o senador.
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noticia por : Gazeta do Povo



