Por que os protestos violentos são tão comuns na França

Na noite de sábado, 17 de outubro, o campanário e parte do telhado da prefeitura de Limoges, prédio inaugurado em 1883, desabaram depois que um grupo encapuzado quebrou as vidraças, entrou e ateou fogo ao subsolo e ao térreo. Horas antes, cerca de 550 mil pessoas tinham marchado pela França contra o custo de vida, segundo o Ministério do Interior, numa mobilização que terminou com lojas saqueadas em Paris e Marseille e levou o governo a pedir toques de recolher na segunda-feira. O suspeito preso na terça, 20, tem 34 anos e está fichado pelos serviços de inteligência por pertencer a um grupo extremista de esquerda.
Cenas assim já se repetiram na França em 2005 e em 2023, e a explicação não cabe numa causa só.
O quebra-quebra francês nasce do encontro de dois fatores: o primeiro é uma cultura política que romantiza as manifestações de rua e mantém uma certa complacência com atos de vandalismo. O outro é a desesperança de uma geração que tem ido às ruas não só na França, mas em outros países europeus.
Raízes históricas
A barricada é uma invenção parisiense, e mais antiga que a Revolução de 1789. Em 12 de maio de 1588, o Quartier Latin amanheceu coberto delas, erguidas pelos católicos de Paris contra o rei Henrique III, que acabou abandonando a cidade.
No século 19, a técnica derrubou dois reis, Carlos X em julho de 1830 e Luís Filipe em fevereiro de 1848. Historiador da Universidade da Califórnia, Mark Traugott reuniu num banco de dados os episódios de barricada na Europa, resumindo o percurso dizendo que ela se tornou “o símbolo preeminente da tradição revolucionária moderna”.
O sociólogo americano Charles Tilly, que reconstituiu quatro séculos de contestação na França, chamou de repertório o conjunto de formas de protesto que uma sociedade aprende e repete, e situou por volta de 1848 o momento em que o repertório francês passou a mirar o Estado em escala nacional.
No sábado, em Marseille, a referência veio explícita.
Algumas dezenas de manifestantes forçaram a porta de madeira da prefeitura, no Vieux-Port, gritando “é a Revolução, vamos tomar a Bastilha”, segundo um jornalista da AFP que estava no local. Lá dentro, derrubaram um busto de Marianne, a figura que representa a República.
Lema da Revolução motiva protestos
O lema que acompanha Marianne, “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, nasceu na Revolução, sumiu com o Império, voltou com a revolução de 1848, que o inscreveu na Constituição, e está no frontão dos prédios públicos desde 14 de julho de 1880.
O cientista político Sebastian Roché, diretor de pesquisa do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), deu aulas em escolas de polícia por cerca de 25 anos e coordenou duas pesquisas com cerca de 24 mil alunos de ensino fundamental e médio. Em entrevista sobre o livro La Nation inachevée (“A nação inacabada”), ele afirmou que a maioria deles se declara francesa e “outra coisa” (do ponto de vista étnico ou ideológico). Ou seja: a identificação com a França é incompleta.
Segundo Roché, esses adolescentes conhecem a França sobretudo pela escola, pela administração e pela polícia com que lidam no dia a dia. Quando essa polícia é violenta, disse ele ao jornal Libération, ela abala a confiança dos jovens nas instituições e “na ideia de justiça e de igualdade”.
Mas a explicação de acadêmicos e intelectuais frequentemente atribui aos manifestantes (e vândalos) um ar romântico e idealista que não existe na realidade. Prova disso é o fato de que o quebra-quebra nas ruas de Paris e de outras cidades francesas costuma se repetir em ocasiões festivas, como celebrações por títulos de futebol.
Bairros periféricos, imigração e o desafio da ordem
Foi em um encontro desses jovens com a polícia que começou a revolta de 2005. Em junho daquele ano, o então ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, prometeu “limpar com Kärcher” (marca de lavadora de alta pressão) um conjunto habitacional de La Courneuve, na periferia de Paris. Em 25 de outubro, em Argenteuil, disse a moradores que os livraria da “racaille“, palavra que se traduz por escória. Dois dias depois, Zyed Benna, de 17 anos, e Bouna Traoré, de 15, fugiram de um controle policial em Clichy-sous-Bois e se esconderam numa subestação de energia, onde morreram eletrocutados.
Os distúrbios começaram na mesma noite em Clichy-sous-Bois, espalharam-se pela Seine-Saint-Denis e depois pelo resto do país. Em três semanas, mais de 9 mil carros arderam em cerca de 300 municípios, e o governo de Jacques Chirac decretou estado de emergência com base numa lei aprovada em 1955, durante a Guerra da Argélia.
No ano seguinte, num livro sobre a revolta, Roché apontou entre as causas da revolta a relação hostil entre a polícia e os jovens franceses das periferias, mais de 60% deles de origem africana ou magrebina.
Os números de 2023 contam a mesma história. Depois que um policial matou um rapaz de 17 anos numa abordagem de trânsito em Nanterre, o então ministro do Interior disse aos senadores que “só 10% das pessoas que detivemos não têm nacionalidade francesa”. Meses depois, um relatório do Senado baseado nos detidos julgados nas primeiras semanas reduziu a parcela de cidadãos franceses para 71%. Como o governo não coleta dados sobre a origem étnica, não está claro quantos deles são filhos ou netos de imigrantes.
Do liceu de Créteil à Piazza del Duomo
A onda deste outono começou dentro de uma escola. Em 17 de setembro, professores e funcionários do liceu Saint-Exupéry, em Créteil, na periferia de Paris, pararam contra vagas que continuavam sem ninguém, e no dia seguinte os alunos bloquearam a entrada. Em cerca de dez dias o liceu conseguiu o que pedia e as aulas voltaram, enquanto os bloqueios se espalhavam por centenas de escolas pelo país.
Das mais de 5 mil pessoas detidas nas duas primeiras semanas do movimento, cerca de 85% eram menores de idade, segundo números do Ministério do Interior compilados pela Anistia Internacional. O 17 de outubro somou à pauta dos estudantes o custo de vida e o preço dos combustíveis.
No mesmo sábado, uma passeata de cerca de 5 mil pessoas contra o custo de vida em Milão, convocada pela internet por um movimento que se declara apartidário, terminou em confronto com a polícia na Piazza del Duomo, com lojas saqueadas e dezenas de detidos.
Um professor da escola de negócios HEC Paris descreveu os protestos europeus daquele dia como movimentos sem coordenação central, ligados por “queixas em comum” sobre educação, custo de vida e falta de perspectiva para quem termina os estudos. Um ano antes, protestos convocados pelas redes sociais sob o rótulo de geração Z tinham derrubado os governos do Nepal e de Madagascar.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu descreveu o sábado como “uma delinquência geral muito específica, de saque” e anunciou uma resposta penal em massa. Ele pediu aos prefeitos toques de recolher localizados. Em Bordeaux, menores desacompanhados estão proibidos de circular à noite nas áreas saqueadas até 26 de outubro. Se for necessário, o governo admite decretar o estado de emergência com a mesma lei de 1955 usada depois da morte de Zyed e Bouna, 21 anos atrás.
noticia por : Gazeta do Povo




