O diagnóstico de câncer costuma provocar preocupação e muitas dúvidas. Quando envolve uma figura pública, como o papa Leão 14, desperta também interesse sobre a doença e as suas possibilidades de tratamento.
No dia 13, o papa Leão 14, de 71 anos, foi submetido a uma cirurgia para retirada do lobo inferior do pulmão direito, em Roma. Um exame do tecido realizado durante a operação confirmou um adenocarcinoma pulmonar, o subtipo mais frequente de câncer de pulmão, já suspeitado pelos médicos nos exames anteriores. Segundo a Santa Sé, a cirurgia ocorreu sem complicações.
O câncer de pulmão é a principal causa de mortes por câncer no mundo. Segundo a OMS, foram aproximadamente 2,5 milhões de novos casos e 1,8 milhão de mortes em 2022. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 35.380 novos casos por ano no triênio 2026–2028, considerando os cânceres de traqueia, brônquios e pulmão.
O tabagismo é seu principal fator de risco, mas a doença também pode ocorrer em pessoas que nunca fumaram. Exposição passiva à fumaça do cigarro, poluição atmosférica e determinados fatores genéticos e ocupacionais também podem contribuir para seu desenvolvimento.
O diagnóstico e o estágio da doença
O câncer de pulmão não é uma doença única. Existem dois grandes grupos: o câncer de pulmão de não pequenas células, responsável por cerca de 80% a 85% dos casos, e o de pequenas células, que representa aproximadamente 10% a 15%.
O primeiro grupo reúne diferentes subtipos, como o adenocarcinoma, diagnosticado no papa Leão 14, o carcinoma de células escamosas e o carcinoma de grandes células. O câncer de pequenas células costuma crescer e se disseminar mais rapidamente e tem forte associação com o tabagismo. Existem ainda tumores pulmonares mais raros, como os carcinoides.
No caso do papa, o tumor foi descoberto por acaso, durante exames de imagem do abdômen realizados por outros motivos. O nódulo foi identificado na base do pulmão, região que também pode aparecer nas imagens de exames abdominais. O pontífice não apresentava sintomas respiratórios.
A descoberta de um nódulo pulmonar não significa necessariamente a presença de câncer. É preciso avaliar suas características e, quando indicado, realizar exames complementares para esclarecer o diagnóstico.
Mesmo depois da confirmação de um tumor maligno, não basta conhecer seu subtipo para determinar o prognóstico. É necessário avaliar o tamanho do tumor, o comprometimento dos linfonodos —pequenas estruturas que fazem parte do sistema de defesa do organismo— e a eventual presença de células cancerosas em outros órgãos.
Essa avaliação permite estabelecer o estágio da doença, informação fundamental para definir as possibilidades de tratamento. Tumores localizados podem ser tratados com cirurgia, enquanto situações em que a doença está mais disseminada exigem outras estratégias terapêuticas.
Da cirurgia aos tratamentos personalizados
A cirurgia realizada no papa é chamada de lobectomia e consiste em retirar o lobo do pulmão que contém o tumor, preservando o restante do órgão. Em pacientes selecionados, quando a doença está localizada e pode ser completamente removida, esse procedimento oferece uma possibilidade de tratamento com intenção curativa.
No caso de Leão 14, a operação foi realizada por técnica videoassistida, que utiliza uma câmera e pequenas incisões para permitir a retirada do lobo comprometido. O procedimento durou aproximadamente 90 minutos.
Além de retirar o tumor, a cirurgia permite analisar detalhadamente o tecido e os linfonodos, ajudando a determinar o estágio da doença. A operação, entretanto, não significa necessariamente que o tratamento terminou.
Dependendo do estágio da doença, dos resultados da análise anatomopatológica e das características moleculares do tumor, pode ser necessário complementar a cirurgia com quimioterapia, imunoterapia ou terapia-alvo. Em situações específicas, esses tratamentos podem reduzir o risco de recorrência, ou seja, de o câncer voltar a se manifestar após o tratamento.
A quimioterapia utiliza medicamentos que atuam sobre as células cancerosas. A imunoterapia estimula a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater o tumor. Já as terapias-alvo agem sobre alterações moleculares específicas, presentes em determinados tipos de câncer.
Os avanços da oncologia ampliaram essas possibilidades. Hoje, a análise molecular permite identificar alterações genéticas dos tumores que podem indicar maior probabilidade de resposta a determinados medicamentos. Entre elas estão mutações no gene EGFR e rearranjos do gene ALK, que podem orientar a utilização de terapias-alvo. Esses tratamentos passaram a fazer parte das opções disponíveis para grupos específicos de pacientes, inclusive em algumas situações após a cirurgia.
No caso do papa Leão 14, a definição sobre a necessidade de tratamento complementar depende dos resultados completos da avaliação médica. Embora a cirurgia tenha ocorrido sem complicações e o pontífice tenha recebido alta hospitalar, não é possível estabelecer seu prognóstico individual apenas com as informações divulgadas até agora.
Diagnóstico precoce e acesso ao tratamento
O câncer de pulmão pode permanecer silencioso durante parte de sua evolução. Quando surgem sintomas, eles podem incluir tosse persistente, falta de ar, dor torácica, rouquidão, sangue no escarro e perda de peso inexplicada. Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas justificam avaliação médica.
A investigação pode incluir exames de imagem e, quando necessário, biópsia para confirmar o diagnóstico. Descobrir o tumor em fase inicial pode ampliar as possibilidades terapêuticas e aumentar a chance de cura.
É importante, entretanto, distinguir diagnóstico precoce de rastreamento. O primeiro envolve investigar sinais, sintomas ou alterações suspeitas. O segundo procura a doença em pessoas sem sintomas, selecionadas conforme seu risco.
A descoberta incidental do tumor do papa não constitui um exemplo de rastreamento, pois o nódulo foi identificado durante exames realizados por outro motivo. O caso do papa Leão 14 mostra como a identificação de um tumor e a avaliação de suas características orientam as decisões médicas.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.


